Paulo Freitas do Amaral, Professor, Historiador e Autor

Em 1977, em plena crise económica, o Estado italiano tomou uma decisão simbólica e controversa: retirar do calendário laboral o feriado de 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, padroeiro da Itália. A medida, apresentada como técnica e inevitável, fazia parte de um pacote de austeridade destinado a reduzir custos e aumentar a produtividade. Quase cinquenta anos depois, essa escolha volta a ser questionada.

O corte do feriado ocorreu sob um governo liderado por Giulio Andreotti, num contexto de inflação elevada, instabilidade política e forte pressão sobre as finanças públicas. A solução encontrada foi simples na forma, mas pesada no significado: menos feriados, mais dias de trabalho. O 4 de outubro, apesar do seu peso histórico e simbólico, foi considerado dispensável enquanto feriado civil nacional.

A decisão não apagou, contudo, a data da vida pública italiana. Desde então, o dia continuou a ser celebrado oficialmente, embora sem suspensão generalizada do trabalho. Todos os anos, o Presidente da República participa em cerimónias em Assis, e várias cidades — sobretudo na Úmbria — mantiveram o 4 de outubro como feriado local ou dia cívico-religioso. Na prática, o feriado deixou de existir na lei laboral, mas nunca desapareceu da consciência coletiva.

Hoje, passados quase 50 anos, o 4 de outubro regressa ao debate num país diferente daquele de 1977. A Itália já não vive os “anos de chumbo”, mas enfrenta novos desafios: crises ambientais, tensões sociais, guerras à porta da Europa e uma crescente procura por referências éticas comuns. É nesse contexto que a figura associada a esta data volta a ganhar centralidade, não apenas religiosa, mas cultural e identitária.

A discussão sobre a revalorização do feriado não é apenas uma questão de calendário. É também um confronto entre duas lógicas: a que, em 1977, privilegiou a urgência económica, e a que hoje questiona se alguns símbolos nacionais podem ser tratados como simples variáveis de produtividade.

Independentemente de vir ou não a ser restaurado como feriado nacional pleno, o 4 de outubro demonstra algo essencial: há datas que podem ser abolidas por decreto, mas não eliminadas da memória coletiva. Quase cinquenta anos depois, o feriado suprimido em nome da austeridade continua a ser celebrado — e a interpelar — a Itália.