Este artigo nasce de uma mudança de tom. Entre textos de opinião política, este artigo surge como uma pausa. Não por falta de temas, mas porque a vida, por vezes, redefine o que merece ser escrito. A vida avança, e com ela vem uma clareza por vezes forçada, mas inevitável: percebemos que nem tudo o que ocupa espaço é essencial, e que as verdadeiras prioridades raramente fazem manchetes. Com o tempo, aprendemos quem importa, o que importa e, sobretudo, onde está o que nos sustém.
É nesse lugar mais íntimo de mim que hoje escrevo.
Durante a maior parte do nosso tempo andamos distraídos, com o trabalho, com discussões, com as urgências todas que parecem enormes — até deixarem de ser. E depois damos por nós a pensar que o essencial nunca fez muito barulho. Sempre esteve nos mesmos sítios. Nos mesmos braços. Nas mesmas casas. E nunca lhe demos a devida atenção e importância.
Os avós são isso: um lugar seguro. Com eles nunca precisamos de explicar muito quem somos. Entramos e somos logo aceites. Há sempre comida a mais, tempo a mais, paciência a mais. Mesmo quando já não têm muita força, arranjam sempre maneira de nos segurar, de nos alimentar em todos as aceções da palavra.
Mas nem todos os avós amam da mesma forma.
O meu avô, por exemplo, era rabugento. Feito de asperezas. Zangava-se com facilidade, não gostava de confusão, não gostava que lhe mexessem nas coisas, não gostava muito de crianças a fazerem… coisas de crianças. Reclamava de tudo. Às vezes parecia que estava sempre de mau humor. À primeira vista, parecia pouco dado a mimos ou paciência.
E durante muito tempo achei que ele era só isso.
Só mais tarde percebi que não. Que aquele jeito áspero era só a forma dele estar no mundo. A vida assim o moldou, outros tempos, outras formas. Mas sei que protegia sem dizer. Preocupava-se sem manifestar. Amava sem saber mostrar
O amor dele não vinha em abraços fáceis nem em palavras doces. Mas foi só em adulta que o entendi a sério. Que percebi que aquele homem duro tinha um coração bom, só que mal embrulhado. Percebi que aquela dureza era linguagem, não ausência de amor.
Os avós não competem com os pais. Os pais educam, puxam, organizam a vida. Os avós compensam. Uns com mimo a mais, outros com uma firmeza estranha que, no fundo, também é cuidado.
Hoje sei que o meu avô me ensinou uma coisa importante: o amor nem sempre é meigo. Às vezes é torto, calado, difícil. Mas não é por isso que é menor. Há amores que só se percebem quando crescemos.
Enquanto temos avós, temos um tipo de amor que não volta a existir igual. Imperfeito, verdadeiro, cheio de histórias que nos moldam. E mesmo quando já não os temos, continuam a viver em nós — nas manias, nas memórias, e naquela sensação estranha de casa que nunca desaparece. E reconhecer isso, em vida ou na memória, é um exercício de gratidão.
E hoje eu sou grata.


