Investigadora diz ao idealista/news que movimento é réplica importada e responsabiliza media portugueses por amplificarem quem o protagoniza.

Aparece no teu 'feed' sem aviso: uma mulher de vestido rodado e avental, a amassar pão numa cozinha impecável, os filhos sentados à mesa, o marido a sair para trabalhar enquanto ela fica a tratar da casa. A estética parece inofensiva, nada de legendas políticas, só a rotina doméstica filmada com luz de fim de tarde e uma banda sonora suave. É este o retrato que milhões de pessoas pelo mundo associam hoje à palavra que virou tendência "tradwife", abreviatura inglesa de "traditional wife", a esposa tradicional que troca a carreira pelo lar e parte do princípio de que o lugar dela é em casa.

O fenómeno nasceu nos Estados Unidos e vive quase inteiramente nas redes sociais. Chega a Portugal pela mesma via que quase tudo o resto chega, o TikTok e o Instagram, mas é preciso "acertar a escala". Maria João Faustino, doutorada em Psicologia, prefere falar em micro fenómeno. "Ainda não há movimento formalizado", diz ao idealista/news a investigadora em violência de género e estudos feministas.

O guião estético de uma personagem

Uma 'tradwife' é mais do que uma mulher que fica em casa: é uma personagem com um guião estético muito preciso, ancorado numa versão idealizada dos anos 1950 norte-americanos. O vestido, o avental, a comida feita de raiz, a casa sempre pronta a receber, os filhos numerosos e um casamento em que o homem sustenta e a mulher cuida. Em algumas versões o discurso fica por aqui, no elogio da vida doméstica. Noutras avança para a defesa aberta da submissão da mulher ao marido, num claro retorno ideológico a valores mais conservadores e tradicionais, que rejeitam as vitórias do feminismo. 

Esta ideia de que a mulher pertence ao lar não é nova — está documentada desde os manuais domésticos do século XIX e foi sistematicamente reforçada por literatura como 'Fascinating Womanhood' nos anos 1960. O que é novo é a sua reencarnação digital: mulheres da geração Z a romantizar tempos que nunca viveram e a desvalorizar o trajeto histórico do feminismo.  

Os rostos mais conhecidos vêm dos Estados Unidos. Hannah Neeleman, conhecida online como Ballerina Farm, é o exemplo maior: antiga bailarina e ex-concorrente de concursos de beleza, vive numa quinta no Utah com o marido e oito filhos e soma dezenas de milhões de seguidores a mostrar a produção de queijo, pão e refeições preparadas em casa. Nara Smith, antiga modelo, ganhou audiência a cozinhar tudo do zero vestida de alta-costura. Estee Williams ajudou a fixar o próprio termo no TikTok.

Curiosamente, várias destas mulheres recusam o rótulo. Neeleman já veio dizer que não se identifica com a etiqueta e que apenas faz aquilo em que acredita. Até Meghan Markle, cuja série na Netflix retrata a duquesa de Sussex como dona de casa e mãe dedicada, se apressou a afastar-se da terminologia assim que a imprensa internacional lhe colou a etiqueta por aparecer, por exemplo, a montar pratos de fruta para os filhos ou a lançar uma marca de produtos para o lar.

Vários especialistas internacionais têm vindo a alertar que a fachada inofensiva de receitas e decoração esconde, em alguns casos, ligações preocupantes. Por exemplo, a investigadora especializada em extremismo online e radicalização Eviane Leidig documentou, numa publicação editada pela Columbia University Press, conexões entre várias influenciadoras do movimento e ideologias de extrema-direita, incluindo nacionalismo branco e teorias da conspiração.

Uma réplica importada, não um caso português

Ao idealista/news, a investigadora científica Maria João Faustino começa por desmontar qualquer ideia de novidade nacional. "Isto não é inédito, é uma réplica e uma importação de movimentos que estão a acontecer noutras partes do mundo", afirma, acrescentando que o fenómeno já foi mapeado por autoras no Reino Unido, nos Estados Unidos e no Brasil. 

O que distingue o caso português, para a investigadora no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, está menos na estética e mais no comportamento de quem a protagoniza no espaço público. Sobre uma das figuras associadas ao fenómeno em Portugal, Faustino identifica "as táticas e as estratégias da extrema-direita, a ocupação dos debates, as interrupções constantes". E descreve o método: "São as técnicas mais do que conhecidas de não deixar falar, de provocação, de manipulação."

"Temos de exigir responsabilidades aos media"

Maria João Faustino atribui parte do problema à importação, pelos meios de comunicação tradicionais, de uma gramática que nasceu nas redes. Chama-lhe a tiktokização da democracia, expressão que estende à comunicação e ao debate público. "É a lógica do TikTok, são expressões curtas, ragebait", explica, referindo-se ao conteúdo desenhado para provocar irritação e reação.

"Temos de exigir responsabilidades aos media, porque eles estão a amplificar uma coisa que ainda não tinha esta dimensão", defende. O reparo tem duas partes. A primeira é a de escala: a exposição mediática estaria a dar ao fenómeno um peso que ele não tinha por si. A segunda diz respeito a quem ocupa esse espaço. "Estão a legitimar que o espaço mediático seja ocupado por pessoas que não são especialistas, por pessoas que não têm nenhuma razão para estar ali para ter tanto protagonismo mediático", sustenta a investigadora reconhecida pelo seu trabalho na área da violência sexual, dinâmicas de género e representações mediáticas.

O motor, na sua leitura, é económico. "Tudo o que seja polémico e polarizador, porque dá audiências, porque dá cliques, dá partilhas, dá atração." O resultado que aponta é duplo: "Tudo isto é uma enorme ratoeira para nós mulheres, para nós democracia, para nós debate público. Envenena e polui imenso o debate público."

Portugal viveu a esposa tradicional escrita na lei

Para uma jovem americana, a dona de casa dos anos 50 é uma referência distante. Em Portugal foi enquadramento legal até há menos de meio século. O Código Civil de 1966 constituía o marido como chefe de família no artigo 1674.º, disposição suprimida pelo Decreto-Lei 496/77, de 25 de novembro, que entrou em vigor a 1 de abril de 1978 e extinguiu o poder marital.

Os números do que veio depois medem a distância percorrida. Segundo o Censos de 1970, a taxa de atividade dos homens chegava aos 89%, enquanto a das mulheres pouco ultrapassava os 25%. Um estudo do Banco de Portugal sobre os 50 anos de democracia mostra que, nesse mesmo ano, a escolaridade média das mulheres com mais de 10 anos de idade era de apenas um ano, muito influenciada por uma taxa de analfabetismo feminino que atingia quase uma em cada três mulheres. A percentagem de mulheres com 25 ou mais anos com ensino superior limitava-se a 0,5%. Nos Censos de 2021, o nível de escolarização média das mulheres já superava nove anos e a proporção com ensino superior tinha subido para 23%, acima dos 18% dos homens. 

A historiadora Anne Cova, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, também notou recentemente que o fenómeno não tem, por cá, rostos com projeção equivalente à que já ganhou em Espanha ou no Reino Unido, em termos expressividade social e política. 

A partir de uma análise de base académica, a também vice-presidente da Associação Portuguesa de Investigação Histórica sobre as Mulheres aponta sim para o paradoxo que o atravessa: é graças aos movimentos feministas que lutaram pela entrada das mulheres nas mais variadas profissões que as 'tradwives' podem hoje escolher trabalhar ou não fora de casa. Sem os direitos conquistados ao longo do século XX, não há escolha — há imposição, frisa. Com uma ressalva, ao promoverem o afastamento do mercado de trabalho, estas criadoras podem colocar-se numa posição de dependência económica.

Este foi, aliás, o aviso estrutural que a historiadora lançou num artigo de acesso pago do Observador — e que a socióloga Dalila Cerejo aprofundou no mesmo texto assinado pela jornalista Sâmia Fiates, especializada em cobrir temas de sociedade, género e cultura. A professora e investigadora portuguesa reconhecida principalmente pela sua especialização científica na área da violência de género, violência doméstica e desigualdades sociais, recordava que a dependência financeira foi identificada, já na década de 1990 em Portugal, como um dos principais fatores que prendia as mulheres em longas trajetórias de violência doméstica com o agressor. A independência económica que as mulheres foram conquistando deu-lhes, nas palavras citadas de Cerejo, "outra possibilidade" — e abdicar dela voluntariamente tem consequências que o ecrã do TikTok não mostra. 

Reconhecer o valor do trabalho doméstico é, historicamente, uma reivindicação do próprio feminismo.

O valor do trabalho doméstico e a escolha individual

O estudo "O valor do trabalho não pago de mulheres e de homens", desenvolvido pelo CESIS estimou que este trabalho representa, no mínimo, cerca de 40 mil milhões de euros por ano em Portugal. Quase 70% desse valor é assegurado por mulheres. Caso fosse contabilizado no cálculo do PIB, teria um peso entre 15,6% e 26,6% do total. Ou seja, mesmo com quase todas as mulheres a trabalhar fora, continuam a ser elas a assegurar a maior parte desse trabalho doméstico e de cuidado que ninguém paga. 

A socióloga Dalila Cerejo classifica por tudo isto, este fenómeno - cujas raízes remontam ao primeiro governo de Donald Trump, em 2016, e que foi ganhando expressividade do mundo virtual para o real - como um "recuo histórico" que coloca as mulheres em situações vulneráveis. Argumenta que a economia portuguesa teria enorme dificuldade em sobreviver a um cenário em que as mulheres se demitissem, e disse não acreditar que tal venha a acontecer, porque os estudos sociodemográficos e socioculturais retratam as portuguesas como muito convictas dos seus direitos.

Reconhecer o valor do trabalho doméstico é, historicamente, uma reivindicação do próprio feminismo, e os dados do CESIS foram produzidos com esse objetivo de monetarização. A distinção que as investigadoras ouvidas colocam recai sobre as condições em que a escolha é feita, e sobre o que acontece a quem sai do mercado de trabalho sem rede. Como resume Maria João Faustino, a pergunta que interessa fazer e conseguir responder é: a quem serve a amplificação de tudo isto?

 

Idealista News