Depois de 4 anos à frente da presidência da Águas do Algarve, Joaquim Peres despede-se do cargo para dar lugar a António Eusébio. No «rescaldo» desta mudança, fala-nos das chuvas dos últimos meses, do aumento da água em 2026 e ainda de projetos futuros enquanto membro das Águas de Portugal.

V.A. – Nos últimos meses da sua gestão, tivemos alguns períodos de chuva. O Algarve pode respirar de alívio depois das chuvas dos últimos meses?

J.P. - As pessoas sentem alívio quando desaparece a causa da dor. Aqui o problema não é esse. Neste caso, choveu e houve uma situação de reposição de alguma água, mas eu diria que temos de continuar com uma atitude de preocupação. Essa preocupação agora não é próxima, porque temos água para os próximos tempos, mas devemos continuar a preocupar-nos, devido também às alterações climáticas e dos fenómenos de ausência de chuva que se vão repetindo com maior frequência. O último período de chuvas abundantes ocorreu em fevereiro de 2018 e depois foram praticamente 3 anos sem chover.

V.A.- É correto afirmar que os 16 concelhos da região algarvia serão abastecidos com água de qualidade e suficiente para suprir necessidades?

J.P. - Claro. Dentro daquilo que é o conceito das Águas do Algarve, a obrigação é fornecer água em quantidade, qualidade e pressão adequadas. É importante realçar que a qualidade da água em ambos os casos [seca ou chuva] iria sempre ser salvaguardada, porque o tratamento que se faz nas ETAS [Estação de Tratamento de Água] é o necessário para dar qualidade à água independentemente da sua origem. Às vezes o que não existe é a quantidade necessária para toda a gente. Mas neste momento não é isso que acontece. […] Isto é uma questão de planeamento. Aquilo que acontece hoje [as albufeiras estarem com capacidade de abastecimento suficiente] não nos pode deixar descansados e devemos pensar sempre naquilo que pode acontecer daqui a 3 anos.

V.A.- Dados recentes mostram que as três principais barragens da região (Odelouca, Odeleite e Beliche) têm reservas mais elevadas do que no ano passado. Estamos a falar de que valores?

J.P. - Podemos dizer que as albufeiras terão dois terços da sua capacidade. Em 2020 tivemos de ir buscar água à barragem do Funcho e esta albufeira já fez uma descarga de emergência. Portanto, já chegou ao limite da sua capacidade. Temos água com alguma segurança, mas isso não nos pode deixar descansados. O facto de termos água só quer dizer que temos tempo para fazer as infraestruturas necessárias para tentar resolver um problema que pode ser a escassez.

V.A.- Apesar desta altura “fértil” em termos de água nas barragens, as secas são uma dura realidade por todo o país. O Algarve não é exceção, bem pelo contrário, e este já é considerado um problema estrutural. Este período é cada vez mais longo? Quais são os dados que nos pode adiantar?

J.P. - Sim, é verdade. São essas as informações que podemos obter nos vários órgãos que nos fornecem esses dados – a existência de secas mais prolongadas. Anteriormente a 2018, o período com mais água foi em 2010/2011. Isso é preocupante.  

V.A.- Que impactos traz para a região algarvia, em específico, a falta de água? O que propõe o 'Plano de Eficiência Hídrica do Algarve'?

J.P. - Temos de partir do princípio de que a água é vida. Hoje em dia já ninguém se lembra no Algarve de chegar a uma torneira, abri-la e não sair água. Ficou-se com a ideia de que a água é um bem que está sempre disponível. E, por estar sempre disponível, temos tendência a dar-lhe menos valor. A primeira coisa que temos de ter em consideração é o uso de um bem que é escasso. Em termos de impactos, a falta de água traria, à partida, uma influência direta na vida das pessoas: chegar de manhã para tomar banho e não ter água ou ter sede e não existir esse recurso. Ao nível da região, a água é fundamental para o exercício das várias atividades, como agricultura, indústria e turismo. A sua escassez iria provocar alterações nestas atividades. O 'Plano de Eficiência Hídrica do Algarve’ propõe uma enumeração das medidas possíveis de atuação [na escassez] e que essa atuação seja pensada e feita atempadamente, para que não seja num momento de falta de água que se esteja a pensar o que se deve fazer. Ou seja, uma planificação de atuações para que o problema da água esteja resolvido. Logo à partida, tentarmos também poupar água. […] Por outro lado, há que pensar em encontrar mais água. Contudo, essa ‘mais água’ não pode ter um consumo desregrado. O que este plano apresenta são 12 medidas de atuação, distribuídas por curto, médio e longo prazo. É evidente que estas atuações têm duas situações importantes: a disponibilidade das verbas e o tempo. Em 2005, quando tivemos uma crise, fizeram-se grandes estudos sobre estas questões, mas dai só resultou a construção da barragem de Odelouca e continuamos com todas estas questões de estratégia por resolver. Espero que desta vez haja condições para se puderem realizar os investimentos necessários para que o problema da água ser inteirado de forma diferente. 

V.A.- A albufeira de Odeleite / Beliche vai ser reforçada com uma nova ligação de captação ao rio Guadiana e será ainda construída uma central de dessalinização. Tal situação poderá significar um aumento do preço da água na região de cerca de 10 cêntimos em 2026. O que se pode adiantar sobre este assunto? Qual o impacto financeiro no consumidor final?

J.P. - Não tenho essas contas. Estas obras têm sempre duas componentes: os custos da implementação e os custos de operação. Estes últimos são aqueles que resultam não só da mão de obra, como da energia. É fundamental que essa situação seja classificada. Com aquilo que está a ser anunciado no PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), sabemos através do senhor ministro que este plano iria colocar as infraestruturas com o subsídio de 100%. Portanto, o acréscimo que pode resultar para a água é aquele que pode resultar dos custos de operação. No meu entendimento serão menores do que está expresso [pelo presidente da AMAL, António Miguel Pina, que afirmou um aumento de 10 cêntimos]. Eventualmente o senhor presidente tem outras informações que eu não tenho. Não consigo chegar àquele valor. Terá impacto para o consumidor final, mas será mínimo. É uma verdade que as Águas do Algarve vendem águas aos Municípios e estes é que vendem ao consumidor final. Se as Câmaras Municipais quiserem aumentar 10 cêntimos, não temos nada a ver com isso. Nós não vamos aumentar o valor às Câmaras.

V.A. - Os setores da agricultura e do golfe terão uma fatura mais pesada com esta nova ligação. É justo, visto que são os maiores consumidores?

J.P. - A agricultura é fundamental para nós, porque se não ficamos sem nada para comer. E o golfe também, porque é uma fonte do turismo e de entrada de receita. Somos todos importantes nesta situação. Consumindo mais, qualquer pequeno aumento (multiplicado pelos metros cúbicos que consomem) terá mudanças no valor a pagar.

V.A. - Alguns algarvios já manifestaram o seu desagrado com esta notícia nas redes sociais e afirmam “que as contas já são altas demais”. Existem razões de queixa por parte dos consumidores?

J.P. - Às vezes as notícias não são tão bombásticas como os títulos. Uma coisa que ‘vende’ é dizer que a água vai aumentar – sem mais explicações. As pessoas ficam indignadas. Se quisermos dizer as coisas de forma mais assertiva, pode, de facto haver um aumento e esta situação não é agradável. Sobre a razão dos consumidores… abrimos a água e nem imaginamos o trabalho que dá para essa água chegar ali. Era bom que existisse uma situação de explicação. Não é a água que custa dinheiro, são todas as infraestruturas que têm de ser montadas para que a pessoa tenha água em casa.

V.A.- Consta que as perdas de água das Câmaras Municipais (água não faturada pelas autarquias aos munícipes) atingem cerca de 35 a 40%. Que medidas tem vindo a ser tomadas entre as Águas do Algarve e as Autarquias para minimizar esse consumo?

J.P. - É preciso perceber como funcionam as Águas do Algarve e a relação com as Autarquias. As Águas do Algarve vão captar águas às albufeiras, tratam-na nas ETAS e entregam-nas nos pontos de entrega. Depois as Câmaras Municipais vão buscar a água desses depósitos e tratam de as distribuir por esses pontos todos. Onde se verificam essas ruturas, é entre os depósitos e as casas. Não são perdas das Águas do Algarve. Nesta situação, do PRR, as Câmaras têm uma verba substancial para diminuir esses valores (e intervir nas redes). As perdas não são só físicas, são a diferença entre aquilo que se concebe e aquilo que se gasta. O abastecimento de bombeiros, piscinas, entre outras, não é uma água contada e assim é considerada uma água perdida. Tem de se começar a medir com maior rigor aquilo que se consome e metade destas perdas são eliminadas. No fundo, umas são as perdas físicas e outras são a diferença daquilo que se paga e aquilo que se recebe.

V.A. - Termina o mandato com o dever de missão cumprida?

J.P. - Claro. Foi uma situação que foi muito boa para mim, gostei muito. Como algarvio acho que contribui para a evolução da nossa região. Sairei muito satisfeito. Aquilo que me foi manifestado na Assembleia Geral pelos autarcas que são acionistas, foi que ficaram satisfeitos com a minha atuação. Quero agradecer a todos a colaboração.

V.A.- Já teve contacto, certamente, com o novo presidente, António Eusébio. Tem alguma expectativa para o trabalho dele?

J.P. - Ele é uma pessoa muito competente e capaz. Eu fui-lhe transmitindo tudo o que era necessário para continuar com a tarefa. A empresa não pode parar nem pode andar aos ‘soluços’. Eu continuo disponível para qualquer esclarecimento. Eu vou continuar a fazer parte das Águas de Portugal e vou fazer uma tarefa nas águas do Tejo Atlântico, como assessor da administração.

                                                                                                                                 

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