O Café Santa Cruz, em Coimbra, define-se como um ponto de encontro essencial com o fado, os autores da literatura portuguesa de ontem e de hoje, o doce crúzio, confecionado com base numa antiga receita, e as tertúlias culturais. O espaço em apreço exala profundas reminiscências do quotidiano conimbricense, entrelaçando-se com a história daquela que é a mais antiga Alma Mater da Lusofonia.
De facto, é um cenário centenário para esquecer as velocidades impostas pela vida moderna e conhecer o gentil António Costa, colaborador do Café e pintor nas horas de ócio. Numa das visitas que fiz a este marco da cidade, para tomar um chá e comer uma torrada com azeite, fui brindado com o atendimento deste senhor, que tornou a minha viagem ainda mais valiosa. Foi algo memorável, pois, para tornar o momento ainda mais agradável, fui informado de que algumas das suas telas, que retratam várias épocas da Praça 8 de Maio e do próprio café, estavam expostas no prestigiado espaço.
Conhecer o admirável pintor e as suas obras, ouvir o fado e saborear a gastronomia da terra de Sebastiana Maria da Luz e de Amélia Janny foi viver uma experiência que ultrapassa esta escrita, em que o tempo dedicado a um café em Coimbra foi marcante e lúdico, ao proporcionar a exploração de temas e o (re)conhecimento de pessoas. Como o encontro não terminou com uma sessão de autógrafos para este viajante, redijo estas linhas e partilho a emoção vivida na cidade da canção «Balada da Despedida».
Este é o lugar ideal para quem deseja mergulhar na história do famoso destino universitário de Portugal, com um café instalado na antiga Igreja de São João de Santa Cruz, que fazia parte do Mosteiro de Santa Cruz, fundado em 1131. A arquitetura e a decoração deste lugar com história refletem não apenas a vida económica, cultural e social das margens urbanas do rio Mondego, mas também as correntes artísticas de outros tempos.
Saborear o doce crúzio continua a ser o mote para combinar encontros na cidade universitária, mas este ritual não é de agora. Conhecer este café é celebrar as vibrações culturais proporcionadas pelo espaço onde o passado inspira o presente. Consumado este preclaro momento, vi-me compelido a partir, pois aguardava-me um itinerário literário pelos redutos da memória de Miguel Torga e Eduardo Lourenço.


