Silencio Blanco faz uma releitura da história “El Chiflón del Diablo”, de Baldomero Lillo, eminente autor chileno, que nos fala de uma mina de carvão que colapsa e de um jovem mineiro que é expelido desse local onde trabalha. A sua única hipótese de continuar empregado na empresa de exploração mineira é rumar para a área de Chiflón del Diablo, um dos locais mais perigosos desta atividade. A peça retrata assim situações quotidianas que permitem conhecer a intimidade e as fragilidades das personagens, o seu heroísmo diário, a espera incondicional e a incerteza vivenciadas pelas suas mulheres, sem saber se os mineiros regressarão. São realidades esquecidas pela história ou talvez enterradas profundamente nas minas de carvão, soterradas sob um sombrio silêncio.
A Companhia Silencio Blanco distingue-se por trabalhar com marionetas brancas, construídas à base de papel de jornal e que atuam em silêncio: não se recorre a diálogos e as marionetas não falam. Na montagem, as sensações humanas são representadas pelas situações quotidianas através de movimentos gestuais. Isto demonstra que o movimento humano transmitido pela marioneta pode provocar uma tal ilusão que parece que até o bater do coração dos personagens se pode ouvir.
Depois das produções “De papel” e “El Pescador”, a companhia, criada em 2010, apresenta agora a sua terceira peça “Chiflón - El Silencio del Carbón” (“Chiflón”, o silêncio do carvão), cujo processo criativo durou mais de dois anos e que incluiu uma viagem de pesquisa à cidade mineira de Lota, onde as marionetas foram construídas. Ao prescindir de qualquer texto ou diálogo, a companhia conseguiu abranger um vasto público, sem necessidade de superar limitações de linguagem ou legendas. O público não tem qualquer reserva cultural, social ou etária.
Por CM Loulé


