Taxas Euribor e swaps já estão a antecipar futura subida dos juros do BCE para conter inflação. Explicamos com simulações.

Há um mês, era esperada uma estabilização das taxas Euribor em torno de 2% ao longo de 2026. Mas o escalar da guerra no Médio Oriente nas últimas semanas veio trocar as voltas aos mercados financeiros, elevando a incerteza para novos patamares. Esta alta volatilidade já é sentida nas taxas Euribor e nos swaps, que assumiram uma trajetória ascendente. É por isso que as famílias se devem preparar para uma subida nas prestações da casa já em abril (embora ligeira), tanto nos novos créditos habitação como nos existentes. Explicamos com simulações.

 

Tudo indica que haverá aumentos nas prestações da casa nos créditos habitação a taxa variável em Portugal já em abril, perante as subidas diárias da Euribor registadas desde o início de março, altura em que escalou a guerra que opõe o Irão aos EUA e Israel. A média mensal provisória da Euribor a 6 meses está em cerca de 2,20%, acima da taxa média de fevereiro (2,144%). Também a média mensal da Euribor a 12 meses de março já é superior a 2,4% (2,221% em fevereiro), depois de registar uma das maiores subidas diárias da sua história.

Este movimento ascendente da Euribor – também observado nas swaps – surge porque os mercados financeiros estão a antecipar novas subidas dos juros diretores por parte do Banco Central Europeu (BCE), de forma a travar um potencial ciclo inflacionista derivado do choque energético provocado pela guerra no Irão. Embora o BCE tenha assumido uma posição prudente esta quinta-feira (dia 19 de março) deixando os juros inalterados, os analistas estimam que supervisor bancário poderá subir as taxas duas vezes em 2026, se o conflito no Médio Oriente persistir e ameaçar a inflação europeia no médio prazo.

“A falta de mudanças imediatas por parte do BCE não nos deve levar a conclusões precipitadas: a guerra no Médio Oriente alterou radicalmente a previsão do cenário controlado para este ano, adicionando um claro risco inflacionista que pode levar a aumentos dos juros nas próximas reuniões. Já estamos a ver isso nos aumentos das taxas [swaps e Euribor], o que é uma má notícia para os consumidores”, explica Miguel Cabrita, responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal.

 

Desde do escalar do conflito no Golfo Pérsico, "os swaps passaram de taxas estáveis para antecipar, pelo menos, um aumento das taxas [do BCE] em 2026, impulsionados por preocupações crescentes com os efeitos inflacionários do aumento dos preços da energia, aos quais a Europa continua particularmente exposta”, aponta Diego Barnuevo, analista da Ebury, acrescentando que, até que haja “sinais claros de desaceleração, estas expectativas de aumento das taxas deverão permanecer voláteis e poderão consolidar-se ainda mais, mantendo a pressão ascendente sobre a Euribor”.

É perante este cenário que os especialistas também têm alertado para aumentos nas prestações da casa já no próximo mês, uma vez que as recentes subidas diárias das taxas Euribor vão impactar a média mensal do indexante em março, o qual é utilizado quer para calcular as taxas variáveis nos novos créditos habitação, quer para atualizar as prestações nos empréstimos existentes (caso a revisão seja em abril). 

 

Novos créditos habitação: qual é a subida esperada nas prestações da casa?

Perante o atual cenário de instabilidade no custo de vida, o idealista/créditohabitação preparou um conjunto de simulações para perceber como é que as recentes flutuações da Euribor podem impactar as prestações da casa nos novos créditos habitação em Portugal – e considerou também potenciais acréscimos do indexante no curto prazo.

Nestes cálculos foi considerado um empréstimo habitação de 150.000 euros, com prazo de 30 anos, spread de 0,7% e Euribor a 6 meses, que é atualmente a taxa mais a utilizada em Portugal nos novos contratos a taxa variável. Estas são as conclusões:

  • se a Euribor a 6 meses subir dos atuais 2,144% (média mensal de fevereiro) para 2,20% significa que as prestações mensais vão passar de 619 euros para 624 euros (mais cinco euros);
  • e se a Euribor a 6 meses subir para 2,25%, as prestações da casa seriam de 628 euros, mais nove euros face a quem contratou o crédito em março de 2026 (que usa a taxa média mensal de fevereiro).
  • caso a Euribor a 6 meses suba para 2,3% as prestações aumentariam para 632 euros, um acréscimo de 13 euros face a um empréstimo assinado em março.

O cenário futuro da evolução da Euribor projetado pelas curvas 'forward' é ainda menos animador. Agora, estima-se que as taxas Euribor nos prazos mais curtos (a 3 e a 6 meses) devam subir em flecha durante os próximos meses, terminando o ano em 2,43% e 2,54%, respetivamente. 

 

Há que ter ainda em conta que o aumento dos swaps também se pode repercutir nas taxas fixas e mistas nos novos créditos habitação – estas últimas dominam os novos contratos. "Ainda precisamos de esperar para ver como vão reagir os bancos. Podem adotar uma abordagem mais conservadora e passar esse aumento dos juros para os créditos habitação a taxa fixa, ou podem esperar para ver como os bancos centrais reagem antes de tomar qualquer medida, dado o risco de perder negócios para a concorrência", refere Miguel Cabrita. 

É neste contexto de incerteza que o responsável pelos intermediários de crédito do idealista recomenda que “quem está a procurar ativamente uma casa para comprar que agilize a procura por ofertas de crédito habitação, porque uma diferença de dias ou semanas pode traduzir-se numa poupança significativa”. 

Também é de esperar que a atual instabilidade agravada pelo conflito no Médio Oriente venha reforçar ainda mais a procura por taxa fixas e taxas mistas – que conjugam um período de juros fixos, seguido de variável -, por darem maior previsibilidade sobre os orçamentos familiares. “As taxas fixas tornar-se-ão cada vez mais atraentes para alguns candidatos a crédito habitação no curto prazo, dada a considerável incerteza em torno da duração do conflito”, indicam desde a Ebury. 

A boa notícia é que o atual conflito não deverá impactar concessão de crédito habitação em Portugal por parte das instituições bancárias. "O apetite dos bancos por crédito não mudou, pelo que enquanto não virmos indicadores a piorar, como o desemprego, teremos uma oferta de empréstimos habitação ampla e competitiva", considera Miguel Cabrita, sublinhando que o mercado tem capacidade para absorver um leve aumento de preços, dada a alta procura.

E os jovens até aos 35 anos vão continuar a contar com os atuais apoios públicos para comprar a sua primeira casa, como a isenção do IMT e a garantia pública no crédito habitação.

 

Empréstimos habitação existentes – impacto sentido nas revisões

As famílias que estão a pagar um crédito habitação há alguns meses ou anos também devem estar bem atentas ao atual cenário, se tiveram expostas à Euribor através das taxas mistas e variáveis. Só quem está a pagar um empréstimo a taxa fixa durante todo o contrato é que está imune à atual volatilidade do mercado.

Falamos, portanto, da maioria dos mutuários de crédito habitação própria e permanente no país, uma vez que 51% do stock é a taxa variável, 44% a taxa mista e apenas 5% a taxa fixa, segundo os dados de janeiro do Banco de Portugal.

No caso os empréstimos a taxa variável – ou mista em período variável -, as famílias devem estar especialmente atentas se a próxima revisão da prestação da casa estiver agendada para abril, uma vez que poderá aumentar. Importa não esquecer que dimensão da variação da prestação depende também do montante em dívida, do contrato e outras condições.

Se a Euribor a 12 meses fechar março com uma média superior à previsão atual (de 2,4%), significa que estará ligeiramente acima da registada há um ano (2,398%), podendo provocar um pequeno aumento da prestação. E caso a Euribor a 6 meses feche o mês em torno de 2,20% (atual média provisória), ficará acima da observada há um semestre (de 2,102%), elevando o custo do crédito.

“Quem está a pagar um empréstimo a taxa variável ou mista e está próximo de ver a prestação da casa revista também deve fazer contas e verificar se faz sentido proteger-se contra um potencial aumento dos juros e custos de financiamento”, recomenda Miguel Cabrita. Uma forma de o fazer passa mesmo por renegociar o crédito, alongar o período de juros fixos na taxa mista ou até transferir o crédito habitação para outro banco com melhores condições, por exemplo.

 

Idealista News