Um dos pontos altos das celebrações foi a homenagem a José Mendes Bota, antigo deputado à Assembleia da República e principal responsável político pelo processo legislativo que culminou na elevação de Quarteira a cidade.
Reconhecimento com origem plural
A distinção resultou de uma recomendação conjunta das bancadas do PSD e do Chega na Assembleia de Freguesia de Quarteira, posteriormente aceite e concretizada pelo executivo socialista da Junta. O gesto foi destacado pelo próprio homenageado como um exemplo raro de convergência política.
“Era bom que a política fosse sempre assim. Ver o Partido Socialista, o Chega e o Partido Social Democrata unidos num mesmo momento”, afirmou, sublinhando o carácter transversal da iniciativa.
Visivelmente emocionado, Mendes Bota reconheceu não ter solicitado qualquer homenagem, mas mostrou-se grato pelo reconhecimento público, considerando que o momento permitiu “repor uma verdade histórica”.
O processo legislativo que fez cidade
A elevação de Quarteira a cidade foi formalizada pela Lei n.º 52/99, de 24 de junho, após aprovação unânime na Assembleia da República a 13 de maio de 1999. A iniciativa teve origem no Projeto de Lei n.º 409/VII/2, apresentado em dezembro de 1997 por Mendes Bota.
Segundo o próprio, a génese da proposta remonta a 10 de maio de 1997, num evento político realizado no Hotel Dom Pedro, em Vilamoura, onde lhe foi lançado o desafio de liderar o processo. “Quando me comprometo, proponho-me sempre cumprir aquilo que depende de mim”, referiu.
O projeto de lei, descrito como o verdadeiro documento fundador da elevação a cidade, incluía uma caracterização detalhada da realidade socioeconómica da época. Em 1997, Quarteira contava com cerca de 11.468 eleitores — número que, quase três décadas depois, praticamente duplicou.
O levantamento então realizado, com contributos de cidadãos como o professor Carlos Gravata e, João Batista e Isidro Dinis entre outros, inventariava infraestruturas turísticas, comerciais, educativas, desportivas sociais e de saúde, oferecendo um retrato rigoroso da vila em transformação.
Lacunas na valorização histórica
Durante o seu discurso, Mendes Bota apontou como incompreensível a ausência de referência ao projeto de lei e ao seu autor na exposição “Com os Pés na Terra e as Mãos no Mar: 6.000 anos de História de Quarteira”, patente há vários anos na antiga Lota.
O ex-deputado recordou os quatro momentos formais determinantes na história do território: o Foral de D. Dinis (1297), a criação da freguesia (1916), a elevação a vila (1984) e, finalmente, a elevação a cidade (1999).
“Porque é que não se identificava o documento e o autor deste último acontecimento?”, questionou, defendendo uma valorização mais completa da memória coletiva.
Crescimento e transformação urbana
Mendes Bota destacou ainda o carácter essencialmente simbólico da elevação a cidade, sublinhando que o novo estatuto não implicou aumento de receitas ou competências administrativas, mas representou um reconhecimento da dimensão e importância de Quarteira.
Referiu também o seu papel no desenvolvimento urbanístico, nomeadamente através do Plano de Expansão Nascente, que considerou determinante para evitar a desordem territorial então existente. “Dei politicamente a cara por esse Plano, está nas atas camarárias”. Evocou igualmente a criação de grandes eixos viários, como a Avenida Mota Pinto / Francisco Sá Carneiro e a Avenida de Ceuta, inicialmente alvo de críticas. “Chamaram-me megalómano nos jornais, pela largura das avenidas, com faixas laterais e estacionamentos. O que seria de Quarteira hoje se não tivessem sido preparadas para isso em 1985?...” afirmou, acrescentando ainda que essas grandes obras tiveram continuidade ao longo das últimas quatro décadas... “É normal acontecer. Há quem tenha uma ideia, quem faça o projeto, quem lance a obra, quem a execute, quem a prolongue e quem a inaugure”.
Percurso político e institucional
Natural de Loulé, onde nasceu a 4 de agosto de 1955, José Mendes Bota é licenciado em Economia pelo ISCTE. Ao longo da sua carreira, desempenhou funções como vice-presidente e presidente da Câmara Municipal de Loulé, presidente da Assembleia Municipal e deputado à Assembleia da República durante oito legislaturas, além de ter sido eurodeputado por duas vezes.
Foi ainda vice-presidente do PSD e liderou estruturas partidárias regionais e locais, acumulando um percurso de mais de duas décadas em cargos parlamentares.
Entre as distinções recebidas, destacam-se a Medalha de Mérito Municipal Grau Ouro atribuída pela Câmara de Loulé (2013), a Cruz de Cavaleiro da Ordem de Mérito da República da Polónia (2014) e o grau de Comendador da Ordem de Mérito (2023), pelo Presidente da República.
Encerramento emotivo
A cerimónia, que decorreu no auditório do Centro Autárquico de Quarteira, contou com forte adesão da população, enchendo por completo o espaço. Mendes Bota deixou palavras de agradecimento ao presidente da Junta de Freguesia, João Romão, e ao presidente da Câmara Municipal de Loulé, Telmo Pinto.
No final, citou o poeta Manuel Pardal: “Quarteira tem o mar lá fora e o mar cá dentro”, reforçando o orgulho no percurso da cidade e no papel das suas gentes.
“É uma honra, mais do que um prazer. É o reconhecimento de que valeu a pena o que demos a uma causa comum”, concluiu.




