André Magrinho, Professor Universitário, Doutorado em Gestão | andre.magrinho54@gmail.comAndré Magrinho, Professor Universitário, Doutorado em Gestão | andre.magrinho54@gmail.com

A recente escalada de tensão e a intervenção militar no Irão tem dominado a geopolítica internacional. Importa compreender as reais motivações que movem Washington e Telavive. Apesar do seu alinhamento estratégico e atuarem em conjunto, os EUA, a maior potência global, e Israel, uma grande potência regional que quer alargar o seu perímetro de segurança, custe o que custar, os seus interesses nem sempre são totalmente coincidentes.,

Duas estratégias, um campo de batalha

Para os Estados Unidos, o Irão é uma peça fundamental num tabuleiro global. A estratégia americana é, acima de tudo, geoeconómica e energética: o objetivo é garantir o domínio sobre as rotas e preços da energia global, neutralizando potências rivais. Ao controlar o fluxo energético iraniano, Washington atinge indiretamente a China, o seu "alvo principal", travando o crescimento económico chinês que depende destas importações. A ameaça de ocupação pelos EUA da ilha de Kharg, responsável por cerca de 90% da exportação de petróleo do Irão, insere-se neste propósito. E, uma outra frente no estreito de Babel Al Mandaab, contra os Houthis, pode abrir-se. Já para Israel, a motivação é de ordem existencial. Para Telavive, não se trata de economia, mas de sobrevivência. Israel está disposto a ir até ao fim para eliminar a infraestrutura militar iraniana e o "Eixo da Resistência" (Hezbollah, Hamas, Houthis), mesmo que isso resulte num caos regional. É que a eliminação de Israel aparece como objetivo declarado da liderança iraniana, reiterado ao longo de décadas.

EUA e Israel: convergências e divergências

Onde os dois aliados se encontram é na necessidade tática de neutralizar a ameaça nuclear de Teerão e de isolar o regime diplomaticamente para alterar o equilíbrio de poder regional. Contudo, as divergências surgem no planeamento do "dia seguinte". Os EUA preferem um regime enfraquecido, mas estável, que não provoque um colapso económico global ou a destruição das infraestruturas petrolíferas do Golfo — algo que prejudicaria a hegemonia do dólar. Israel, por outro lado, prioriza a decapitação total das capacidades militares do Irão, sendo muito mais tolerante ao risco de instabilidade política e económica que daí possa advir.

Europa: o espetador dependente

No meio deste braço de ferro, as consequências para a Europa são severas. O "Velho Continente" afigura-se um espetador vulnerável, que sofre as consequências diretas do conflito — como a subida dos preços da energia e o potencial fluxo de refugiados — sem ter uma voz ativa nas decisões. É um aviso claro: enquanto a Europa não investir seriamente na sua autonomia estratégica e na energia nuclear e outros vetores energéticos alternativos, continuará dependente de decisões alheias que servem interesses transatlânticos em detrimento dos europeus. Além disso, a focagem no Irão cria uma "negligência estratégica" em relação à Ucrânia, permitindo que a "aliança negra" entre Moscovo e Teerão desgaste o Ocidente em duas frentes simultâneas.

Em síntese, o Irão tornou-se o palco onde Israel luta pela sua segurança regional e os EUA pelo seu domínio económico global. À Europa resta o desafio de encontrar o seu próprio caminho num mundo onde a energia é a arma de guerra mais poderosa.