Chegou o bom tempo e com ele voltam as caminhadas ao final do dia, o padel à terça-feira à noite, o golfe ao sábado de manhã, as primeiras idas à praia. A vida sai de casa. E todos os anos, sem falhar, voltam também ao meu consultório os pacientes com dores nas costas. Muitos deles convencidos de que a solução é parar. A mensagem que lhes deixo em consulta é a mesma que quero deixar aqui. Não fique em repouso. Mexa-se.
O mito do repouso absoluto enquanto cura para a dor lombar é dos mais resistentes com que lidamos. A evidência científica é clara há mais de duas décadas. Salvo em situações muito específicas de lesão aguda, ficar parado faz precisamente o contrário do que se pensa. Prolonga a dor, enfraquece a musculatura de suporte da coluna e atrasa a recuperação. O corpo humano foi feito para se mexer e quando deixa de o fazer, paga a fatura.
O movimento regular continua a ser o melhor medicamento disponível para a coluna vertebral. Não tem efeitos secundários, não tem preço e está ao alcance de qualquer pessoa, em qualquer idade. Caminhar, fazer yoga, pilates ou hidroginástica são excelentes formas de manter a coluna saudável e prevenir o aparecimento de dor lombar.
Há aqui, contudo, um ponto que escapa à maioria das pessoas e que faz toda a diferença na prática. Caminhar é importante, mas não chega. Para uma coluna bem protegida, é preciso incluir trabalho de força nos músculos da cintura para cima, sobretudo nos que estabilizam o tronco. São esses os músculos que funcionam como o cinto natural da coluna. Quando estão fortes, ela está protegida. Quando estão fracos, qualquer esforço do dia a dia pode passar a doer.
Para quem já vive com dores nas costas, a recomendação não muda muito, embora exija algum cuidado adicional. O movimento deve ser adequado e progressivo. Retomar a atividade física depois de meses parado não pode ser um regresso ao ritmo de há cinco anos. Convém começar devagar, escolher modalidades de baixo impacto, ouvir o corpo e procurar acompanhamento profissional sempre que a dor não cede ou começa a limitar o dia a dia.
Convém ainda desmontar outra ideia muito comum em consulta. Ter dor lombar não significa, na maior parte dos casos, ter uma lesão grave que exija cirurgia. A maioria das dores lombares resolve-se com movimento, tratamento conservador e, quando faz sentido, fisioterapia. A cirurgia da coluna tem hoje critérios bem definidos e, quando é mesmo necessária, é feita com técnicas minimamente invasivas que tornam a recuperação muito mais rápida do que era há alguns anos. Continua, ainda assim, a ser a última linha. Nunca a primeira.
Aproveite o bom tempo. Saia de casa. Caminhe, ande de bicicleta, vá à praia, brinque com os filhos no parque. Reserve dois ou três dias por semana para um trabalho mais estruturado de força. Mexa-se pela sua saúde. Não importa a modalidade ou o desporto, mexa-se.
A campanha Olhe pelas Suas Costas, que há mais de uma década promove a literacia em saúde da coluna em Portugal, tem trabalhado este princípio. Prevenir é sempre melhor do que tratar, e o movimento é a primeira linha da prevenção.
A sua coluna não precisa de descanso. Precisa de uso.
Para mais informações, consulte o website da Campanha Olhe pelas suas Costas: https://olhepelassuascostas.pt/
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