Especialistas, técnicos e responsáveis políticos reuniram-se em Lagos para refletir sobre os riscos de tempestades e inundações, incêndios urbanos e rurais, sismos e tsunamis, num encontro que destacou a importância do planeamento, da preparação das comunidades e da articulação entre entidades.

Na proximidade da passagem de mais um aniversário do terramoto de 1 de novembro de 1755, uma das maiores catástrofes naturais da história de Portugal, que afetou gravemente Lisboa e Lagos, a cidade algarvia acolheu o Encontro sobre Riscos Urbanos, uma iniciativa conjunta da Associação Portuguesa dos Municípios com Centro Histórico (APMCH), do Centro Europeu de Riscos Urbanos (CERU) e da Câmara Municipal de Lagos.

O encontro reuniu especialistas, académicos, técnicos e decisores políticos para debater os principais desafios que se colocam aos territórios perante fenómenos extremos, num contexto marcado pelas alterações climáticas e pela crescente exposição das áreas urbanas a riscos naturais e tecnológicos.

A necessidade de aproximar o conhecimento científico da decisão política, reforçar a cultura de prevenção, melhorar o planeamento e a informação pública e capacitar os agentes de proteção civil foram algumas das principais ideias transversais aos trabalhos.

Na sessão de abertura, Hugo Pereira, presidente da Câmara Municipal de Lagos e da APMCH, salientou a crescente sensibilização da sociedade para os riscos urbanos, particularmente depois da tempestade «Kristin», sublinhando que nenhum território está imune a fenómenos desta natureza. Defendeu, por isso, o reforço da monitorização, da preparação e da capacidade coletiva de resposta.

Por sua vez, Mónica Amaral Ferreira, presidente do CERU, recordou a ligação especial desta entidade a Lagos, através do legado do professor Luís Mendes Victor, antigo presidente do Centro e impulsionador da sua instalação em Portugal, que desenvolveu trabalho relevante sobre o risco sísmico no centro histórico da cidade. A responsável destacou a complexidade e interligação dos riscos a que os territórios estão expostos, defendendo uma abordagem integrada que envolva o urbanismo, a construção, a proteção civil e as comunidades. Afirmou ainda a importância de conhecer os riscos e identificar vulnerabilidades para fundamentar decisões e preparar melhor as cidades e as populações.

Em representação do Comandante Regional do Algarve da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, Abel Gomes reforçou a necessidade de antecipação e preparação perante a crescente ocorrência de fenómenos naturais com impacto nas áreas urbanas, lembrando que a resiliência começa também no comportamento e na responsabilidade individual de cada cidadão.

 

Tempestades e inundações: transformar a experiência em capacidade de resposta

O primeiro painel, dedicado ao «Risco de tempestades e inundações», foi moderado por Ricardo Duarte, professor da Universidade de Leiria e Oeste, que apresentou as principais consequências da tempestade «Kristin», com destaque para os danos no património, nas infraestruturas, nas redes de comunicação, na mobilidade e na atividade económica. A experiência permitiu identificar vulnerabilidades na construção, designadamente em edifícios sem o cumprimento adequado das normas de segurança, e evidenciou a importância da avaliação técnica, da fiscalização, das bacias de retenção e da intervenção das autarquias na resposta às necessidades básicas das populações.

Paulo Fernandes, coordenador da Estrutura de Missão para a Recuperação das Zonas Afetadas pela tempestade «Kristin», abordou a importância de uma cultura de risco partilhada entre comunidades e instituições. Apresentou dados sobre a dimensão dos prejuízos, superiores a cinco mil milhões de euros, as cerca de 220 mil habitações afetadas e as dificuldades de recuperação de empresas, infraestruturas e redes de mobilidade. Defendeu maior capacidade de articulação e cruzamento de informação, transparência e equidade na atribuição dos apoios, reforço da escala local e cooperação entre diferentes níveis de administração, considerando que as respostas devem envolver todos os níveis de decisão e valorizar a inteligência e a capacidade colaborativa das comunidades.

O presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande, Paulo Vicente, partilhou a experiência vivida naquele território, apresentando a comunicação «Da gestão da crise à construção da resiliência – lições da tempestade Kristin para a construção de um território mais preparado, sustentável e seguro». Destacou a importância do investimento na prevenção, manutenção e inspeção de infraestruturas, na autonomia energética, nas comunicações alternativas, na atualização dos planos de emergência e na reconstrução com soluções mais resistentes e sustentáveis.

A fechar o painel, Andreia Rodrigues, coordenadora municipal de Proteção Civil da Câmara Municipal de Coimbra, apresentou o tema «Fenómenos climáticos extremos – quando a prevenção sai a ganhar», evidenciando a importância do planeamento, da monitorização, da articulação institucional e da comunicação transparente com a população. A experiência de Coimbra demonstrou como a preparação antecipada, a definição de procedimentos claros, a organização de zonas de apoio e a disponibilização atempada de informação podem ser determinantes para evitar vítimas.

No debate foram ainda abordados os planos de adaptação às alterações climáticas, a necessidade de reforçar a componente de mitigação, a adequação da escala de intervenção e a dimensão e multidisciplinaridade das equipas de proteção civil.

Incêndios: proteger os centros históricos e reforçar a cooperação territorial

O segundo painel centrou-se no «Risco de Incêndios», tendo como moderador António Bento Gonçalves, geógrafo e professor da Universidade do Minho. O académico alertou para o aumento da dimensão e intensidade dos grandes incêndios, associando o agravamento do risco às alterações climáticas, aos desequilíbrios na ocupação do território e ao abandono do espaço rural. Destacou ainda as vulnerabilidades das zonas de interface urbano-rural e a necessidade de maior envolvimento dos cidadãos, através da literacia do risco, de planos familiares de emergência e de políticas de ordenamento do território mais coerentes.

Marta Alves Rodrigues, coordenadora de Proteção Civil do Município de Torres Vedras, abordou os «Riscos de incêndios em centros históricos – desafios, vulnerabilidades e estratégias de proteção do património urbano». Sublinhou a importância patrimonial, económica e identitária destes espaços, mas também as suas fragilidades, decorrentes da antiguidade dos edifícios, da elevada densidade urbana, das dificuldades de acesso aos meios de socorro, do envelhecimento da população e da pressão turística. Defendeu uma gestão integrada do risco, assente na prevenção, na atualização da cartografia e dos regulamentos, na manutenção das infraestruturas, na fiscalização e em ações de sensibilização dirigidas a residentes, comerciantes e turistas.

A realidade da interface urbano-rural foi apresentada através do caso do incêndio de 21 de setembro de 2025, com origem no concelho de Aljezur, na freguesia da Bordeira, numa comunicação conjunta de António Ângelo dos Santos, coordenador municipal de Proteção Civil de Aljezur, e Márcio Regino, coordenador municipal de Proteção Civil de Lagos.

O primeiro destacou as dificuldades logísticas sentidas por um município de baixa densidade populacional perante uma operação de grande dimensão, envolvendo 314 veículos e 872 operacionais, defendendo o reforço da cooperação intermunicipal, a partilha de recursos e informação e a realização de exercícios conjuntos. Márcio Regino apresentou a experiência de Lagos, salientando o papel do planeamento prévio, da silvicultura preventiva, das bases de apoio logístico, da articulação institucional e do programa «Aldeias Seguras, Pessoas Seguras». Destacou ainda a importância do conhecimento próximo das comunidades e da identificação georreferenciada de habitações isoladas e respetivos agregados familiares para facilitar as operações de evacuação.

Risco sísmico e de tsunamis: conhecimento, alerta e preparação das populações

O último painel foi dedicado ao «Risco Sísmico e de Tsunamis», com moderação de Carlos Sousa Oliveira, professor catedrático jubilado do Instituto Superior Técnico, que apresentou uma reflexão sobre os ensinamentos dos sismos recentes. O especialista alertou para os efeitos em cadeia provocados por estes fenómenos e para a necessidade de passar dos estudos à implementação efetiva de medidas de prevenção, nomeadamente ao nível da regulamentação e da construção antissísmica. Destacou também o potencial dos sistemas de alerta precoce e a importância de desenvolver capacidades de resposta a ocorrências de diferentes dimensões.

André Fernandes, coordenador municipal de Proteção Civil de Lisboa, apresentou o Sistema de Risco e Alerta de Tsunamis no Estuário do Tejo, entretanto alargado aos municípios de Oeiras e Cascais. O projeto integra cartas de inundação, torres com sirenes de alerta, sinalização de rotas de evacuação e pontos de encontro seguros, complementados por ações de informação e exercícios de preparação da população.

Por sua vez, Paulo Santos, coordenador municipal de Proteção Civil de Loulé, deu a conhecer o trabalho desenvolvido nas freguesias de Quarteira e Almancil, no âmbito da Estratégia Nacional para uma Proteção Civil Preventiva 2030 e do projeto CoastWAVE 2.0. Entre as medidas implementadas estão a sinalização de percursos de evacuação, uma aplicação móvel com rotas georreferenciadas, sessões públicas de informação e exercícios de evacuação. O projeto obteve, em 2025, a certificação internacional «Tsunami Ready», atribuída pela UNESCO, tendo sido igualmente destacada a importância de identificar pessoas idosas isoladas e cidadãos com mobilidade reduzida residentes em zonas vulneráveis.

O trabalho operacional do Corpo de Bombeiros de Lagos foi apresentado por Pedro Almeida e Márcio Regino, que deram a conhecer a atividade do Grupo de Salvamentos Especiais (GSE), preparado para intervir em cenários de resgate em arribas, no mar, cheias urbanas, acidentes graves, estruturas colapsadas e matérias perigosas. A equipa dispõe de tecnologia especializada, incluindo drones e georadar, bem como de equipas cinotécnicas com dois canídeos certificados, sublinhando os responsáveis a importância do treino contínuo e da prontidão operacional.

Prevenção e resiliência como fatores de desenvolvimento dos territórios

Na reflexão de encerramento, Mónica Amaral Ferreira destacou a importância de disseminar o conhecimento científico junto dos técnicos, decisores políticos e população em geral, reforçando a literacia do risco desde a infância. Apontou como exemplo o projeto educativo português «Treme-Treme», dedicado à sensibilização de crianças e jovens para os riscos sísmicos e de tsunamis, defendendo uma maior integração destas matérias nos currículos escolares.

O encerramento dos trabalhos coube a Paulo Jorge Reis, vice-presidente da Câmara Municipal de Lagos, que salientou a evolução positiva da perceção pública sobre os riscos urbanos, recordando as reações inicialmente negativas à instalação da sinalética de alerta de tsunami na cidade e os receios de eventuais impactos na atividade turística. Hoje, a cultura de risco e a resiliência são também entendidas como fatores de competitividade dos territórios. O autarca chamou, contudo, a atenção para as desigualdades existentes entre municípios, nomeadamente ao nível da capacidade financeira para investir na proteção civil.

O Encontro sobre Riscos Urbanos reforçou, assim, a importância de transformar o conhecimento e as experiências adquiridas em medidas concretas de prevenção, preparação e resposta, através de uma maior articulação entre ciência, administração pública, proteção civil e comunidades. Uma abordagem que reconhece que, embora não seja possível evitar todos os fenómenos extremos, é possível reduzir os seus impactos, proteger pessoas e património e construir territórios mais seguros e resilientes.

 

CM Lagos