A Diocese do Algarve promove no passado sábado as XXIV Jornadas de Ação Sociocaritativa, com o tema «Pobres sempre os tereis (Mt. 26,11)».

A iniciativa, levada a cabo através da Cáritas Diocesana do Algarve, teve lugar no Centro Paroquial de Loulé com 51 participantes das paróquias de Boliqueime, Estoi, Ferreiras, Lagos, Santa Bárbara de Nexe e São Pedro de Faro, das Santas Casas da Misericórdia de Faro e de Silves, das Cáritas Paroquiais de Boliqueime, Cachopo, Loulé, matriz de Portimão, Nossa Senhora do Amparo de Portimão, São Brás de Alportel e Sé de Faro e da Sociedade de São Vicente de Paulo, elementos do Conselho Central do Algarve e também da conferência de Tavira.

Na sessão de abertura, o bispo do Algarve disse ver “um convite” na afirmação de Jesus que serviu de tema ao encontro. “Um convite a não nos resignarmos diante da pobreza, mas a vermos nesta afirmação um desafio permanente à nossa responsabilidade”, explicou D. Manuel Quintas, acrescentando “a resposta de Jesus não relativiza a importância dos pobres”. “Pelo contrário, recorda-nos que estarão sempre presentes na história humana, exigindo por isso uma atenção contínua”, sustentou, explicando que “a permanência dos pobres não é desculpa para a indiferença, mas fundamento para o compromisso constante”.

“Gostava muito que este dia nos ajudasse a vencer qualquer tentação de indiferença generalizada ou de deixarmos cair os braços diante das situações de pobreza. A vossa presença, o vosso serviço nas paróquias, nas comunidades, na pastoral social, quer dizer exatamente o contrário: quer dizer que não nos resignamos diante da pobreza, antes nos devemos responsabilizar e corresponsabilizar”, desenvolveu.

No final do encontro, o bispo diocesano acrescentou ainda que a existência dos serviços sociocaritativos não substitui ninguém de fazer o bem. “Esta dimensão sociocaritativa ajuda-me a fazer o bem, interpela-me, coordena, mas o dever e a responsabilidade é pessoal, individual”. D. Manuel Quintas exortou também ao envolvimento dos beneficiários na ação sociocaritativa que lhe é feita “para que sejam ajudados melhor”.

Por fim, deixou uma garantia com base na exortação apostólica do Papa Leão XVI ‘Dilexit Te’. “O futuro da sociedade será aquilo que hoje fizermos aos pobres”, afirmou.

Já o presidente da Cáritas Diocesana do Algarve avançou com um retrato da situação em Portugal e indicou que “os mais recentes dados acentuam a tendência da queda dos principais indicadores de pobreza e desigualdade”. “No entanto, a existência de 1,7 milhões de pessoas em situação de pobreza ou exclusão social continua a ser um fator preocupante”, acrescentou Carlos de Oliveira, explicando “estes números podem significar que estas pessoas vivem com um rendimento mensal equivalente a 723 euros”.

Congratulando-se que em 2024 se tenha registado “uma diminuição da pobreza segundo alguns indicadores”, aquele dirigente disse que ainda assim no país “aproximadamente 300 mil crianças são pobres” e “8,6% da população desempregada recebe um rendimento insuficiente para escapar à pobreza”. “Por outro lado, assiste-se a um aumento da população em situação de sem-abrigo e as famílias enfrentam graves dificuldades no pagamento das despesas tão essenciais como a habitação, o acesso à alimentação adequada, entre outras, contribuindo para uma situação social nada satisfatória”, alertou.

O presidente da Cáritas algarvia disse ainda que “as famílias com crianças dependentes viram a sua incidência de pobreza aumentar” e que “o agravamento nas famílias monoparentais e, conjuntamente, as famílias com três ou mais filhos têm as mais elevadas taxas de pobreza”. “Também a população empregada em situação de pobreza reflete uma percentagem significativa de trabalhadores pobres, sendo um dos aspetos mais preocupantes da realidade social”, lamentou.

Carlos de Oliveira referiu ainda como “preocupante a percentagem de 54% de pessoas com ensino superior que se encontram abaixo do limiar de pobreza”, ou seja, que auferem um rendimento abaixo dos já referidos 723 euros, lamentando a “ausência de políticas adequadas para a inclusão no mercado de trabalho de quem sai do ensino superior”.

“Reconheço também que há uma percentagem de irmãos nossos em situação de pobreza que não têm capacidade de substituir o mobiliário de casa usado, para já não falar nas dificuldades sentidas no acesso a bens e serviços como a habitação, a saúde ou medicação. E o que dizer das situações de carência oculta por que passam muitos migrantes no nosso país, reconhecendo o tanto que contribuem para o desenvolvimento do país e exigindo-se um maior acompanhamento e ação permanente?”, prosseguiu.

Aquele responsável não esqueceu também “as situações mais recentes criadas pelas intempéries, criando muitas dificuldades para todos os que ficaram sem o seu ganha-pão ou a sua empresa e as suas casas”.

As Jornadas de Ação Sociocaritativa ficaram, no entanto, marcadas pelas reflexões do diretor do Departamento da Pastoral Sociocaritativa do Patriarcado de Lisboa, Manuel Girão, e do diretor do Centro Paroquial de Paderne, padre Pedro Manuel.

 

Folha do Domingo