“Não é apenas um documento histórico, é uma chave essencial para compreendermos a ação social da Igreja ontem e hoje. Este documento sobre a Igreja no mundo contemporâneo oferece à ação social da Igreja o seu fundamento teológico, antropológico e moral”, sustentou.
“A Gaudium et Spes recorda-nos que a fé cristã não se vive à margem da realidade, mas dentro dela. Cada gesto de cuidado, escuta, apoio ou defesa da dignidade humana é uma forma concreta de viver esta constituição”, prosseguiu o sacerdote da Diocese do Algarve, explicando que “a ação social da Igreja segundo a Gaudium et Spes tem três dimensões: a caridade, a justiça e a política”.
O orador acrescentou então que a constituição pastoral ajuda a “perceber que a caridade responde à urgência”, que “a justiça transforma as estruturas” e que “a política, no seu sentido mais nobre, se é cidadania, é a forma mais elevada de caridade”.
Nesse sentido, exortou mesmo a “uma caridade que seja capaz de inspirar a justiça e a política”, lembrando que “a Igreja não se identifica com partidos, mas forma consciências”. “É com base na nossa formação de consciência que somos todos convidados a promover uma cidadania mais ativa, a defender os mais frágeis e a colaborar com estruturas públicas sem perdermos a identidade cristã”, sustentou.
O diretor do Centro Paroquial de Paderne lembrou assim que “a defesa dos mais frágeis, que nasce e acontece também na colaboração com estruturas públicas”, deve levar a evidenciar a identidade cristã daquelas instituições sociais. “Fazemos porque somos cristãos, porque somos seguidores de Jesus Cristo e porque para nós não existe branco ou preto, rico ou pobre, novo ou velho, existe Jesus Cristo e é Ele que passa pelo testemunho que somos chamados a dar todos os dias”, referiu, clarificando: “o objetivo não é que as pessoas que ajudamos comecem a ir à Eucaristia, é que, por meio de nós, descubram Jesus Cristo. E descobrir Jesus Cristo a partir das ações concretas que testemunhamos. Então não fazemos proselitismo, mas testemunhamos o Evangelho através do serviço”.
O orador lamentou que as instituições católicas de ação social tenham de substituir o Estado, mas defendeu que “a Igreja deve participar de forma legítima na política e na vida do Estado” “com o objetivo de formar consciência” para que a “autoridade” seja “descoberta como o serviço do bem comum, sempre para apoio dos mais fracos”.
O padre Pedro Manuel acrescentou que “a Gaudium et Spes afirma que a economia deve estar ao serviço da pessoa e não o contrário”. “O trabalho é um direito e uma dignidade e a desigualdade social é um problema moral. É justamente aqui que somos capazes de encontrar o que está errado nos sistemas económicos fechados, porque precisamos de princípios éticos claros: solidariedade, prioridade dos pobres, destino universal dos bens e justiça social. Tudo isto nos é recordado e escrito pelo documento que norteia esta partilha”, sustentou.
Lembrando que alguns daqueles agentes da pastoral social têm “grandes responsabilidades na contratação” de trabalhadores, defendeu que “o trabalho, como direito de quem o faz e de quem o promove, deve levar a uma opção preferencial não pela pobreza, mas pela dignidade”. “Assim conseguiremos corrigir aquele problema moral a que chamamos desigualdade social, nomeadamente no acesso que todos devem ter a um trabalho que dignifica, com condições, com regras e que está baseado justamente na lei”, acrescentou, lembrando que aqueles agentes sociocaritativos devem “anunciar a dignidade humana” e “denunciar as injustiças”.
A sua intervenção contou, por isso e título de exemplo, com a denuncia de uma notificação a um guineense, “legal em Portugal até ontem”, “porque a sua morada oficial não correspondia à localidade do seu trabalho”, a quem foram dados 10 dias para resolver a situação. “A sua morada oficial é em Barcelos porque é aí que tem o primeiro familiar que cá chegou. Ele trabalha em Albufeira, paga 700 euros por pequeno um quarto dividido com mais dois colegas e divide uma casa de banho com outras pessoas que pagam o mesmo por quartos das mesmas dimensões. Não tem contrato de arrendamento e não tem trabalho em Barcelos”, contou.
Acrescentando que “à volta do que é a pobreza não grassa só a desgraça”, mas “também acontece o amor”, testemunhou que “imediatamente duas ou três pessoas, incluindo uma advogada e uma professora, começaram a tentar encontrar uma via de legalidade para que possa haver justiça”. “Estou a falar de um caso numa paróquia que terá centenas de casos e numa região que terá milhares de casos como este, em que aqueles que são mais afetados pelo imediato são os pobres dos pobres e que muitas vezes ninguém vê”, considerou.
O sacerdote disse então ser necessário uma “voz ativa na promoção da fortaleza que contraria a vulnerabilidade e, sobretudo, no ajudar a ressurgir da esperança social a quem se acostumou a ser pobre”. “Ser pobre não é uma desgraça, mas ser miserável é. Então é preciso que se dê o encontro entre a miséria e a misericórdia, em que a misericórdia de quem serve ajuda a levantar e a reconstruir a miséria de quem sente que deixou de servir”, afirmou, acrescentando: “numa sociedade como a nossa, em que atualmente se cavalgam os conflitos sociais como se eles fossem um fim em si mesmos e não um desafio à aceitação da diferença, precisamos de continuar a anunciar que a paz nasce da justiça social e que exige solidariedade entre os povos”.
O padre Pedro Manuel exortou a “descobrir qual o papel do voluntariado no acompanhamento e na proximidade”, lembrando que “importa defender a pessoa dentro da sua realidade familiar, sem julgamentos, com respeito e misericórdia”. “A fé que se faz ação faz-me olhar para aquela pessoa e perceber que ela, muitas vezes, já está crucificada com Jesus e não precisa de ser crucificada também pelo nosso olhar. O nosso testemunho cristão deve levar-nos, como nos dizia o Papa Francisco em Lisboa, a olhar apenas uma vez de cima para baixo alguém: quando é para ajudar a levantar”, afirmou.
As XXIV Jornadas de Ação Sociocaritativa da Diocese do Algarve, sob o tema “Pobres sempre os tereis (Mt. 26,11)”, contaram com 51 participantes das paróquias de Boliqueime, Estoi, Ferreiras, Lagos, Santa Bárbara de Nexe e São Pedro de Faro, das Santas Casas da Misericórdia de Faro e de Silves, das Cáritas Paroquiais de Boliqueime, Cachopo, Loulé, matriz de Portimão, Nossa Senhora do Amparo de Portimão, São Brás de Alportel e Sé de Faro e da Sociedade de São Vicente de Paulo, elementos do Conselho Central do Algarve e também da conferência de Tavira.
Folha do Domingo




