O diretor do Departamento da Pastoral Sociocaritativa do Patriarcado de Lisboa veio alertar os agentes algarvios daquela pastoral para o que considerou ser a «pobreza do século XXI».

Orador nas XXIV Jornadas de Ação Sociocaritativa da Diocese do Algarve do passado sábado, que decorreram no Centro Paroquial de Loulé, Manuel Girão disse que os novos pobres são os “idosos isolados, sem família”, que “não têm muitas vezes dinheiro para a medicação, para aquecer a casa, morrem de frio no inverno e de calor no verão”. Aquele responsável, que é também diretor geral da Santa Casa da Misericórdia da Amadora, garantiu que naquela cidade a quantidade de idosos que a PSP encontra mortos em casa “é brutal” e que o acontecimento só é notícia na comunicação social quando são descobertos após “mais de três meses” de falecimento.

“Esta realidade é uma pobreza que acho que nos deve envergonhar até enquanto sociedade. Como é que morre alguém no terceiro direito e os vizinhos do terceiro esquerdo não se apercebem? Isto é uma pobreza social, é uma pobreza não só envergonhada, é uma pobreza descarada”, lamentou Manuel Girão que abordou o tema “Uma Igreja dos pobres, para os pobres e com os pobres”.

“Pobre hoje é uma pessoa que precisa de ajuda e não tem quem a ajude porque está sozinha, porque os filhos partiram para outros países, porque os netos não estão, porque os vizinhos morreram e a pessoa está presa num quarto andar sem elevador, não tem mobilidade para descer e precisa de alguém que, pelo menos, lhe vá levar o pão todos os dias”, sustentou, considerando que os “pobres do século XXI” são também os “doentes”, os “deficientes”, os “sem-abrigo”, os “reclusos” e as “crianças vítimas de maus-tratos”.

“Isto é pobreza do século XXI. Eu queria alertar-vos para isto porque é aqui que está o nosso trabalho, não é só com os pobres que estão à porta da igreja”, advertiu, lamentando que os “pobres do século XXI” sejam “pessoas que até trabalham, mas que ganham 920 euros de salário mínimo e pagam 800 euros de renda de casa”.

Neste sentido, o orador exortou a “uma Igreja que caminha com os pobres”, explicando que esta “é aquela que tem a empatia de caminhar ao lado” dos pobres e que isso se faz “falando com eles, perguntando o que é que eles precisam”. Acrescentou ainda que “caminhar com os pobres, com os mais desfavorecidos, significa escutar, valorizar, partilhar, aprender, construir juntos e, essencialmente, quebrar barreiras”. “Que Igreja estamos a ser? Uma Igreja que se preocupa apenas e só com as celebrações, com as procissões bonitas onde saem os andores? Ou somos uma Igreja que fala dos pobres e que caminha com eles?”, questionou, alertando que “a identidade da Igreja mede-se pela sua proximidade aos mais frágeis”.

Manuel Girão desafiou também as instituições católicas do terceiro setor a “mostrar que este tipo de economia mata”. “O lucro não pode ser o centro da vida do ser humano, tem de ser a qualidade de vida. E nós, em Igreja, temos de denunciar estas coisas”, afirmou e defendeu ser possível “cortar o ciclo de pobreza” se houver uma intervenção junto das pessoas, “capacitando-as, dando-lhes ferramentas e não apenas e só idealizando”. Ainda assim lembrou, por exemplo, que “ser pessoa em condição de sem-abrigo não é uma opção apenas e só de uma sociedade” porque pode ser “opção individual”. “Conheço muitas pessoas em condição de sem-abrigo que querem continuar a ser pessoas em condição de sem-abrigo e não têm problemas de aditivos, nem de consumos. É uma filosofia, é um modo de viver. Então tem de se encontrar o que é que essas pessoas precisam para ter, naquela condição, mais dignidade”, justificou.

Por outro lado, advertiu que “uma Igreja para os pobres não significa miséria institucional”. “Pelo facto de eu ter uma Igreja para os pobres, não tenho de ter uma Igreja desorganizada ou fragilidade pastoral. Pelo contrário. Muitas vezes há a ideia de que, como vamos trabalhar para os pobres, tudo pode servir. É aquilo que a eu chamo a miséria institucional”, sustentou, apelando à “dignidade de lhes dar o melhor e não os restos” para “quem recebe sentir a dignidade de quem dá”. “Se eu fizer apenas miserabilismo, é a minha dignidade que está em causa e não só a de quem recebe”, sustentou.

Neste âmbito, aquele dirigente aludiu ainda ao acolhimento. “Muitas das vezes sinto um mau acolhimento na nossa Igreja. Sinto que não somos bons a acolher, somos frios no acolhimento”, lamentou, apelando à “humildade, simplicidade, confiança em Deus e credibilidade”.

Neste contexto lembrou a realidade dos imigrantes, defendendo que “a Igreja não pode deixar de os acolher, porque Cristo e a história do Cristianismo, a história dos cristãos, é uma história de migrantes” em que “Jesus Cristo foi deslocado, foi nascer fora da sua cidade” e “o povo de Deus andou sempre a migrar, andou sempre a sair à procura da Terra Prometida”. “Vamos ter que acolher nas nossas comunidades paroquiais pessoas que vêm de outros países. Os que são cristãos e querem professar a nossa fé, vêm. Os que não são, terão de ser acolhidos nas formas que nós, enquanto instituições da Igreja, tivermos de os acolher”, defendeu, lembrando que “o cristão é aquele que tem de saber acolher independentemente da condição” de quem chega.

A propósito garantiu que se não fossem os trabalhadores estrangeiros, “neste momento 40% dos lares da região de Lisboa não tinham mão-de-obra”. “Nós vamos ser cuidados por estrangeiros”, evidenciou.

Manuel Girão apresentou ainda um quadro com os 20 municípios portugueses com maior número de residentes estrangeiros em 2024, segundo dados da Agência para a Integração, Migrações e Asilo, que inclui-a Vila do Bispo (58,9%), Lagos (48%), Loulé (41,8%), Tavira (39,9%), Portimão (38,1%), Vila Real de Santo António (24,8%), Albufeira (24,1%), Monchique (20,6%), São Brás de Alportel (20,4%) e Alcoutim (13,5%).

Aquele responsável aconselhou as instituições presentes a que “nunca descurem a formação prática de valores cristãos e do pensamento social cristão” aos voluntários. “Formação, acompanhamento e valorização”, disse ser as três dimensões a ter em conta alertando que “as pessoas mais importantes numa estrutura são os cuidadores”.

Manuel Girão, que partilhou ainda a experiência do Jubileu da Caridade vivida durante o Ano Jubilar de 2025, exortou à articulação e parceria com outros setores da pastoral, nomeadamente a Pastoral Penitenciária e a Pastoral da Saúde, até porque “é isto que se pede numa Igreja sinodal”, e aconselhou as instituições a organizarem-se em grupos locais para fazer trabalho de parceria e reivindicarem melhores condições junto das entidades do setor.

As XXIV Jornadas de Ação Sociocaritativa da Diocese do Algarve, sob o tema “Pobres sempre os tereis (Mt. 26,11)”, contaram com 51 participantes das paróquias de Boliqueime, Estoi, Ferreiras, Lagos, Santa Bárbara de Nexe e São Pedro de Faro, das Santas Casas da Misericórdia de Faro e de Silves, das Cáritas Paroquiais de Boliqueime, Cachopo, Loulé, matriz de Portimão, Nossa Senhora do Amparo de Portimão, São Brás de Alportel e Sé de Faro e da Sociedade de São Vicente de Paulo, elementos do Conselho Central do Algarve e também da conferência de Tavira.

 

Folha do Domingo