Albufeira, no Algarve, assim como o Porto e o Alentejo são, segundo o estudo «How conflict in the Gulf is remapping global travel», divulgado pela consultora McKinsey & Company, os destinos nacionais que mais têm beneficiado com a redistribuição dos fluxos turísticos devido à guerra no Médio Oriente.

Portugal parece estar a beneficiar com a redistribuição da procura turística ditada pela guerra no Médio Oriente, avança o estudo “How conflict in the Gulf is remapping global travel”, divulgado esta terça-feira, 21 de julho, pela consultora McKinsey & Company.

Apesar da incerteza que se vive na região do Médio Oriente, a procura por viagens não tem abrandado, existindo antes uma redistribuição dos fluxos turísticos, numa tendência que já é notória neste verão e que parece estar a beneficiar destinos como Portugal.

A consultora explica que “a incerteza atrasou reservas, alterou padrões de viagem e influenciou gastos e escolhas de canais”, como mostra um inquérito realizado no mercado italiano, em maio, e que mostrava que 74% dos consumidores italianos pretendiam viajar neste verão, ainda que 63% ainda não tivesse realizado as reservas.

Este inquérito mostrou também que 56% dos consumidores italianos viram os seus planos de viagem afetados pelos problemas geopolíticos, ainda que apenas 3% tenham optado pelo cancelamento da viagem.

Em maio, 24% dos entrevistados neste inquérito disseram ainda que continuavam a ter a intenção de viajar, mas preferiam esperar por mais desenvolvimentos, antes de confirmarem a reserva.

Tal como em Itália, também os consumidores dos EUA, Alemanha e Reino Unido se mostravam, em abril, mais cautelosos quanto aos destinos escolhidos, com 60% a 70% dos consumidores destes países a confirmarem que ajustaram os seus planos de viagem devido à instabilidade geopolítica.

A segurança é, segundo o estudo da McKinsey & Company, “o principal fator de decisão nesses três mercados, superando a conveniência e o preço”, com a mudança comportamental mais acentuada a encontrar-se nos EUA.

O estudo revela que os viajantes americanos estão “mais propensos a trocar viagens internacionais por viagens domésticas e a mudar o seu meio de transporte”, sendo que muitos estão também a regressar às agências de viagens à procura de aconselhamento.

Guerra também afeta capacidade da aviação

O estudo da McKinsey & Company foca-se ainda no impacto que o conflito no Médio Oriente está a ter na aviação, lembrando que, devido ao “aumento dos custos e da incerteza dos viajantes, as companhias aéreas de todo o mundo reduziram a sua oferta de voos regulares”.

“Muitas companhias aéreas — especialmente as de baixo custo — começaram a cortar as suas rotas menos rentáveis ​​devido à pressão do preço do combustível. Pode haver novas reduções de capacidade relacionadas com a volatilidade dos preços do combustível”, alerta a consultora.

Mas o impacto do conflito não afeta apenas a aviação de baixo custo, já que também “a conectividade através dos principais aeroportos do Médio Oriente foi significativamente afetada”, o que provocou um “aumento do fluxo de viajantes através de hubs alternativos”.

O estudo da McKinsey & Company diz mesmo que o número de passageiros internacionais em conexão nos hubs do Médio Oriente caiu 5,1 milhões entre março e abril, o que representa uma redução de aproximadamente 53% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Um dos hubs alternativos que têm vindo a ganhar com a guerra no Médio Oriente é o de Istambul, na Turquia, que “registou um aumento no tráfego como ponto de conexão alternativo”.

Consequência do conflito é ainda o aumento do número de voos diretos, como têm feito algumas companhias aéreas chinesas, que estão a aumentar as ligações aéreas diretas à Europa.

“As companhias aéreas chinesas e turcas adicionaram mais de 4.000 voos às suas programações para o período de junho a novembro de 2026, representando aproximadamente 56% da capacidade total adicionada pelas dez maiores companhias aéreas”, refere o estudo, que assinala ainda o aumento das tarifas em consequência das restrições no espaço aéreo e da subida do preço do combustível.

Portugal entre os países mais beneficiados

Apesar da incerteza e da subida dos preços da aviação, a procura turística continua robusta, apesar de muitos viajantes terem alterados os planos de viagem de forma a fugirem da instabilidade do Médio Oriente.

Por isso, não é de estranhar que a maioria dos mercados da região do Golfo esteja a registar quedas significativas nas receitas de alojamento, com destaque para o Dubai, que sofreu uma queda de 75% nas receitas por quarto em comparação com o ano anterior, o que equivale a uma diminuição de 1,8 mil milhões de dólares.

“Os hotéis de luxo enfrentaram desafios particulares, uma vez que a procura de alto padrão tende a ser mais sensível à crise do que a procura do mercado de massas e a procura doméstica”, refere ainda o estudo.

A consultora considera mesmo que o atual conflito está a provocar quebras nas receitas que chegam a “níveis semelhantes aos observados no início da pandemia de COVID-19”, pelo que, se o conflito se mantiver, a recuperação poderá levar seis a nove meses, com a trajetória da recuperação a depender “em grande parte da resolução geopolítica”.

Destinos mais pequenos e que têm menos ligações aéreas também parecem estar a sofrer quebras na procura, com o estudo da McKinsey & Company a destacar países como as Seychelles ou as Maldivas, que “são altamente dependentes de conexões com o Golfo e registraram uma queda significativa no número de chegadas desde o início do conflito”.

Os problemas geopolíticos estão, desde logo, a fazer com que muitos consumidores optem por fazer férias perto de casa, como é o caso dos europeus, que parecem estar a optar mais por destino do Mediterrâneo.

Entre os destinos do Mediterrâneo, Tânger, em Marrocos, e Tunes, na Tunísia, parecem ser os que mais têm vindo a ganhar com a crise no Médio Oriente, ainda que também o Algarve surja entre os destinos que a McKinsey & Company destaca como os que mais têm atraído turistas que alteraram os seus planos de viagem devido à guerra.

Albufeira, no Algarve, é, segundo a consultora, o destino português mais favorecido e que, entre março e abril de 2026, mais viu a ocupação da hotelaria subir, num crescimento de 5,7 pontos percentuais face a igual período do ano passado, que o coloca sexta posição desta lista.

Na lista de destinos mais beneficiados, surgem ainda o Porto e o Alentejo, onde a ocupação da hotelaria subiu 3,3 p.p. e 2,7 p.p., respetivamente, surgindo na nona e 12.ª posições entre os destinos que mais têm ganho com o conflito no Médio Oriente.

Estratégias diversas para mitigar impactos

Com tantas alterações, a consultora recomenda aos operadores que implementem “diversas intervenções estratégicas para se prepararem e mitigarem os impactos nos negócios, além de acelerarem a recuperação, num período de volatilidade”.

As companhias aéreas são, segundo o estudo, uma das áreas em que a recuperação será mais difícil, o que pode ser mitigado com a adoção de “uma abordagem segmentada tanto para o ajuste da rede aérea quanto para a precificação”.

“A erosão das margens causada pelo aumento dos custos de combustível pode continuar mesmo após a estabilização da demanda, mas pode ser neutralizada através de diversas ações das companhias aéreas”, refere a consultora.

Já as empresas de hotelaria devem, segundo o estudo, considerar “a implementação de preços mínimos e a criação de uma lógica de precificação adaptada às condições de crise”, com a McKinsey & Company a desaconselhar, no entanto, a existência de “descontos descontrolados”, que podem “dificultar a recuperação das margens” após a crise.

Quanto aos operadores turísticos, a consultora diz que pode ser necessário “reformular as abordagens de reserva, central de atendimento e custos”, numa tarefa em que a Inteligência Artificial (IA) pode ajudar.

“A geopolítica está a influenciar cada vez mais a economia e a psicologia das viagens. Embora o apetite do consumidor por exploração permaneça resiliente, os viajantes estão a tornar-se mais cautelosos — adiando decisões e repensando destinos”, conclui o estudo.

Operações ágeis, estratégias de clientes bem ajustadas e preços cuidadosos podem, no entanto, ajudar a “resistir à turbulência, mas também a capturar a demanda variável à medida que os fluxos de viagens globais são remodelados em tempo real”, indica ainda o estudo.

 

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