Passados 150 dias desde que assumiu a presidência da Câmara Municipal de Loulé, Telmo Pinto faz um primeiro balanço do mandato, num momento marcado por desafios, prioridades definidas e uma visão estratégica para o concelho.

Para assinalar a ocasião, A Voz do Algarve revisita também o percurso político do autarca, recuperando um momento simbólico: a sua primeira entrevista, publicada em 2013 neste jornal, quando se apresentou como candidato à Junta de Freguesia de Quarteira.

Entre o passado e o presente, esta conversa procura perceber o que mudou no homem, no político e na forma de encarar a missão pública ao longo de mais de uma década de vida autárquica.

A Voz do Algarve - Trouxe comigo um exemplar do Jornal A Voz de Loulé, de 2013, onde foi publicada a sua primeira entrevista enquanto candidato à Junta de Freguesia de Quarteira. Ao revisitar esse momento, que diferenças mais marcantes identifica entre o Telmo Pinto dessa altura e o atual Presidente da Câmara Municipal de Loulé?

Telmo Pinto - Esse foi, de facto, o início. Recordo-me bem: foi a minha primeira entrevista como candidato, a 28 de março de 2013. Passaram 13 anos, e costumo sublinhar muitas vezes essa evolução.

Na altura, dizia que não era político, que não estava ligado à política. Hoje, tenho uma perspetiva diferente. Percebi que é através da política que consigo fazer a diferença na vida das pessoas e essa foi, talvez, a maior mudança na minha forma de pensar.

Ao longo destes 13 anos, adquiri conhecimento e experiência que me permitiram chegar até aqui. Houve uma transformação significativa, não apenas no percurso, mas também na consciência do papel que a política pode ter.

Antes, havia uma certa distância em relação ao conceito de “ser político”. Muitas vezes associamos a política apenas a quem exerce cargos públicos. Hoje, tenho plena noção de que é precisamente por esta via que posso contribuir ativamente para melhorar a vida das pessoas.

 

V.A - Há treze anos, alguma vez imaginou que chegaria a Presidente da Câmara Municipal de Loulé?

T.P - Naquela altura, em 2013, tinha acabado de aceitar, com alguma dificuldade, o desafio de avançar para a Junta de Freguesia. Ainda estava a dar os primeiros passos na vida política local e não sabia exatamente o que iria encontrar, nem sequer se iria vencer. Chegar aqui hoje, depois de um percurso tão longo, e sentir este reconhecimento por parte das pessoas, é algo muito reconfortante e que acarreta também uma enorme responsabilidade.

 

V.A - Que balanço faz destes primeiros cinco meses, cerca de 150 dias, à frente da Câmara Municipal de Loulé?

T.P - Faço um balanço muito positivo. Trago comigo a mesma energia de 2013, mas estou perante uma realidade diferente — uma estrutura maior, com outra dimensão e dinâmica.

Ao contrário do que aconteceu na Junta de Freguesia, onde começámos praticamente do zero e construímos o nosso caminho, aqui encontrei uma máquina já em funcionamento. Nos primeiros tempos, senti-me quase como um secretário da Câmara, devido ao volume de burocracia: são muitos documentos para assinar, muitas reuniões, muitos processos a acompanhar.

É importante perceber a dimensão desta autarquia, com várias áreas, muitos serviços e um número elevado de pessoas envolvidas na tomada de decisão . Nesse contexto, é essencial que o presidente e o executivo assumam uma posição clara na definição de estratégias, no planeamento e na construção de uma visão de futuro para o concelho.

Naturalmente, o dia a dia exige também uma forte componente de gestão corrente, que tem de ser partilhada por toda a estrutura. Por isso, nem sempre é possível encontrar o mesmo ritmo de proximidade que tinha anteriormente. Ainda assim, acredito que, nos próximos tempos, conseguiremos alinhar os serviços com a nossa forma de estar e concretizar o trabalho que temos projetado.

 

V.A - Quando chegou à Câmara, esperava encontrar uma maior margem para decidir e implementar de imediato as suas ideias, ou já tinha consciência das limitações e da complexidade do processo?

T.P - Existe sempre um período de adaptação. Uma adaptação nossa às equipas da Câmara e, simultaneamente, das equipas ao novo Executivo. Estamos a falar de novas ideias, novas dinâmicas e uma nova forma de trabalhar.

Creio que ainda estamos nessa fase. Conseguimos colocar algumas coisas em marcha — quer projetos que já vinham do passado, quer outras iniciativas que quisemos desde logo impulsionar, mas ainda não estamos a executar plenamente o nosso programa e as nossas ideias. Este é um processo de crescimento.

Importa também que as pessoas percebam que nos confiaram um mandato de quatro anos. O trabalho não se faz de forma imediata; é um crescimento progressivo, sustentado, que se vai consolidando à medida que conseguimos estruturar melhor a organização e os serviços.

Apesar disso, nestes primeiros 150 dias conseguimos avançar em várias áreas. Havia situações herdadas que estavam bloqueadas e que conseguimos desbloquear, nomeadamente ao nível da habitação e de alguns equipamentos. São processos que, embora não sejam simples, acabam por ser mais fáceis ou rápidos de resolver.

Por outro lado, entrámos rapidamente em dossiers de grande dimensão, como o Hospital Central do Algarve. Tratava-se de um processo já em curso, mas que exigiu decisões quase imediatas. Tivemos de compreender rapidamente todo o histórico, avaliar opções e assumir posições com responsabilidade.

Houve, portanto, um conjunto de matérias que tivemos de assumir mais cedo do que seria expectável, o que acabou por alterar algumas das prioridades iniciais. Aquilo que estava previsto para os primeiros 100 dias acabou por se expandir, face ao volume de situações a exigir resposta.

Acresce ainda um inverno atípico, que provocou danos significativos, nomeadamente na rede viária, obrigando a intervenções urgentes e a projetos de reabilitação. Tudo isto exigiu uma resposta imediata por parte do município.

No fundo, tem sido um início muito intenso, mas também importante do ponto de vista da preparação. Dá-nos a consciência de que os desafios vão continuar e, provavelmente, com ainda maior exigência no futuro.

 

V.A - A habitação é hoje uma das principais prioridades, a nível nacional, regional e também no concelho. Que trabalho tem sido desenvolvido nesta área e quais são as perspetivas para o futuro?

T.P - A habitação é, sem dúvida, uma das maiores preocupações atuais. Aquilo que estamos a viver resulta não apenas dos últimos meses, mas de uma realidade que se foi acumulando ao longo de vários anos, marcada por falta de resposta e por uma pressão crescente sobre o território.

Temos procurado atuar em várias frentes, desde logo na resolução de processos que estavam pendentes, nomeadamente ao nível da entrega de habitações e do desbloqueio de projetos que não avançavam. Esse tem sido um trabalho prioritário nestes primeiros meses.

Mas é importante dizer que este não é um problema que se resolva com medidas pontuais ou com pequenos ajustamentos. Exige uma intervenção mais estruturada e, em alguns casos, uma mudança de paradigma. Há áreas em que o interesse público deve ser claramente salvaguardado.

Dou um exemplo mais amplo: quando serviços essenciais são geridos exclusivamente numa lógica financeira, muitas vezes afastam-se das reais necessidades das populações. Isso verifica-se em vários setores, onde a resposta nem sempre acompanha aquilo que o território exige.

No caso da habitação, essa reflexão também se impõe. É fundamental garantir que as políticas públicas conseguem dar respostas efetivas, sustentáveis e ajustadas à realidade local, sem ficarem dependentes apenas de lógicas de mercado.

O nosso compromisso é continuar a estruturar uma resposta sólida, que permita não só resolver situações imediatas, mas também criar condições para um futuro mais equilibrado no acesso à habitação no concelho.

 

V.A - E qual poderá ser uma solução rápida para estes problemas?

T.P -Uma solução mais imediata poderá passar por transferir para os municípios a gestão de algumas áreas essenciais, como, por exemplo, a eletricidade em baixa e média tensão, naturalmente acompanhada dos respetivos meios financeiros. Com capacidade e recursos, os municípios conseguem dar respostas mais rápidas e mais ajustadas às necessidades locais.

 

V.A - Mas os municípios não estão já sobrecarregados com competências?

T.P - É verdade que existe uma crescente transferência de responsabilidades do Estado para as autarquias, em áreas como a saúde ou a educação. No entanto, a questão central é garantir que essas competências são acompanhadas do financiamento adequado. Se assim for, os municípios estarão em melhores condições para responder com maior eficácia.

No caso do Algarve, há ainda um problema adicional relacionado com a excessiva centralização. Muitas decisões continuam dependentes de estruturas fora da região, o que atrasa processos e dificulta a resposta às necessidades concretas das populações.

Defendo que serviços essenciais, sobretudo aqueles que têm impacto direto na qualidade de vida, devem estar mais próximos dos territórios e das pessoas. Quando são geridos exclusivamente numa lógica financeira, o risco é que a qualidade do serviço fique comprometida.

Veja-se o exemplo da gestão de resíduos: trata-se de uma área onde existe também uma componente económica relevante, mas que não pode sobrepor-se ao interesse público. Se o principal objetivo for o lucro, dificilmente se conseguirá garantir um serviço de qualidade.

É por isso que considero fundamental repensar este modelo, colocando maior enfoque na proximidade, na eficiência e na resposta efetiva às populações.

 

V.A - Tendo-se iniciado recentemente a reposição de areias na Praia do Forte Novo, entre Quarteira e Vale do Lobo, apesar de não ser uma competência direta da autarquia, como está a decorrer este processo? Acredita que estará concluído antes da época balnear?

T.P - O trabalho está a decorrer de forma positiva. Ainda assim, já tive oportunidade de referir publicamente que deveria ter começado mais cedo. Para nós, a Páscoa representa muitas vezes o arranque da época balnear, sobretudo se as condições meteorológicas forem favoráveis.

Apesar disso, estou confiante de que o processo ficará concluído a tempo. A previsão é que, até à segunda quinzena de maio, as praias já estejam com as condições desejadas, nomeadamente ao nível da reposição de areia.

 

V.A - Qual é, neste momento, a previsão concreta para a conclusão dos trabalhos?

T.P - A reposição inicial das areias deverá estar concluída no início de maio. O objetivo é que, nessa altura, as praias estejam já preparadas para receber os primeiros utilizadores.

A época balnear oficial varia ligeiramente de zona para zona, mas, de um modo geral, inicia-se no início de maio, podendo alguns concessionários antecipar ou adiar a abertura. O mais importante é garantir que, nessa altura, as condições estejam reunidas.

Este é um processo com impacto direto na economia local. A qualidade das praias é determinante para a atratividade turística, e o turismo tem um peso muito significativo na economia da região. Por isso, é essencial assegurar a reposição de areia, sobretudo nas zonas urbanas mais pressionadas, garantindo praias funcionais ao longo de toda a época.

 

V.A - E relativamente aos restaurantes e apoios de praia que estavam em risco?

T.P - Existem alguns casos que continuam em situação de maior vulnerabilidade e que terão de ser reposicionados. Esse é um trabalho que está a ser articulado com as entidades competentes, no sentido de encontrar soluções adequadas.

Alguns equipamentos já foram relocalizados para cotas mais elevadas, mas há ainda pelo menos dois casos que serão alvo de intervenção em breve, precisamente para garantir maior segurança e estabilidade face à erosão costeira.

 

V.A - Recordando o vosso slogan, “nova energia, de 1% a 100%”, em que nível de energia se encontra neste momento?

T.P -Neste momento, estou a 100%. Faço questão de manter esse nível todos os dias. Chego à Câmara com esse compromisso, com essa energia, porque é precisamente nesta fase que posso fazer a diferença.

 

V.A - Não receia que, com o tempo, possa surgir algum desgaste ou quebra de energia?

T.P -Esse risco existe, naturalmente, e é precisamente por isso que procuro antecipá-lo. Tenho uma disciplina muito clara no dia a dia: foco-me em prioridades concretas, em três ou quatro objetivos essenciais por dia, e trabalho para que sejam resolvidos.

A experiência que trago da Junta de Freguesia ensinou-me que, se baixarmos o ritmo ou a exigência, torna-se muito mais difícil alcançar os objetivos definidos para o mandato. Estamos ainda numa fase inicial — passaram cerca de cinco meses num ciclo de quatro anos — e, por isso, não podemos baixar a guarda.

 

V.A - E a equipa, acompanha esse nível de energia?

T.P - Sim, a equipa também está muito motivada e empenhada. São pessoas com experiência nas suas áreas — obras, urbanismo, educação, ação social — e, em alguns casos, já integravam a estrutura. Têm conhecimento técnico e vontade de aplicar esse conhecimento.

Neste momento, há uma grande disponibilidade e energia para avançar. Até porque sentimos que ainda estamos a começar e que há muito trabalho pela frente. É agora que se constrói a base para aquilo que queremos concretizar ao longo do mandato.

 

V.A -Tem sido várias vezes referida a necessidade de um novo edifício para a Câmara Municipal de Loulé, que permita concentrar os serviços. Neste mandato, poderemos assistir a avanços concretos nesse sentido?

T.P - Esse é um objetivo claro. Gostaria de acreditar que, até ao final deste ano, teremos o projeto concluído e em condições de lançar o concurso público, assegurando também a capacidade financeira necessária para dar início à obra.

 

V.A - Já existe uma localização definida?

T.P - Estamos a trabalhar nessa definição. Estamos a falar de um edifício com uma dimensão significativa, entre os 10 e os 12 mil metros quadrados, pelo que não poderá ser implantado no atual centro da cidade.

Loulé precisa de se abrir e de se renovar. É importante criar novas centralidades e não concentrar todos os serviços no mesmo núcleo urbano. Queremos que a Câmara continue a ter um papel estruturante, mas também que contribua para dinamizar outras zonas da cidade e novas áreas de desenvolvimento.

 

V.A - Pode adiantar alguma possível localização?

T.P -Uma das hipóteses em estudo aponta para uma área próxima do Estádio Municipal, a cerca de 800 metros do centro. Trata-se de uma zona com potencial para acolher este tipo de equipamento.

 

V.A - Referiu também a possibilidade de um novo hotel no concelho. Em que ponto está esse projeto?

T.P - Estamos a trabalhar na viabilização de uma unidade hoteleira, numa lógica de parceria. A ideia passa por disponibilizar um terreno municipal e lançar um concurso público para que investidores possam desenvolver, construir e explorar o projeto durante um determinado período.

Trata-se de uma necessidade identificada para o concelho, que atualmente tem uma oferta limitada neste segmento. Estamos ainda a avaliar as características da unidade, mas poderá enquadrar-se num segmento de quatro ou cinco estrelas, contribuindo para reforçar a atratividade e a diversificação da oferta turística.

Estamos a trabalhar também na reabilitação do Centro Cultural de Loulé, um projeto que queremos continuar a desenvolver numa perspetiva cultural mais ampla.

Paralelamente, pretendemos olhar para o edifício da Assembleia Municipal, que, entretanto, foi crescendo e evoluindo, enquadrando-o também na valorização da história do concelho. A nossa intenção é reforçar a dimensão cultural destes espaços, integrando-os numa lógica de maior dinamização do centro da cidade.

Com a concentração de várias pessoas a trabalhar neste conjunto de edifícios, a ideia é manter essa presença no centro urbano, mas ao mesmo tempo dar-lhe uma leitura mais cultural de Loulé. Já se começa, aliás, a notar esse movimento, com o crescente interesse pelos Banhos Islâmicos e com visitas guiadas que começam a atrair grupos de turistas, isso é muito positivo e deve ser consolidado.

Estamos também a desenvolver um projeto, já adjudicado, para a requalificação da envolvente do Mercado Municipal. O objetivo é humanizar e qualificar toda esta área, incluindo a Praça da República e a relação com os comerciantes.

Queremos melhorar o espaço público, organizar melhor os equipamentos urbanos e, sobretudo, criar uma nova dinâmica que torne o centro mais atrativo, não apenas para os serviços municipais, mas também para o turismo, a cultura, o comércio e a restauração.

Essa tem sido sempre a nossa visão para Loulé: não ser apenas um espaço administrativo que funciona durante a semana, mas um verdadeiro destino urbano, vivo e dinâmico também ao fim de semana.

Atualmente, o centro encerra praticamente ao sábado à tarde e ao domingo, o que demonstra que ainda há um caminho a fazer. O nosso objetivo é precisamente contrariar essa realidade e transformar Loulé numa cidade com movimento contínuo, com atividade económica e cultural permanente, afirmando-se como um verdadeiro destino.

 

V.A - Está previsto algum benefício específico para os comerciantes, que frequentemente manifestam preocupações quanto à dinâmica do centro da cidade?

T.P - Os comerciantes acabam por beneficiar diretamente com o crescimento e a requalificação desta área. Uma das críticas que ouvimos com frequência é a falta de fluxo de pessoas externas, ou seja, a dependência quase exclusiva da atividade gerada pelos serviços municipais.

Com este projeto, o objetivo é precisamente o contrário: criar condições para atrair mais pessoas de fora, gerar novas dinâmicas e aumentar a circulação no centro da cidade. Só neste espaço cultural, por exemplo, poderemos ter mais de duas centenas de pessoas a trabalhar diariamente, o que, por si só, já representa um impacto significativo.

Mas a ambição vai mais longe. Queremos que Loulé deixe de ser apenas um local de passagem ou de serviços e passe a ser um destino com oferta diversificada, capaz de atrair visitantes, turismo e novos públicos.

Se olharmos para as últimas décadas, a verdade é que pouco mudou de forma estrutural no centro da cidade. A pergunta que devemos fazer é se, nesse período, houve alguma transformação realmente relevante que tenha reposicionado Loulé enquanto destino.

O desafio que assumimos é precisamente esse: criar condições para que as pessoas tenham razões para vir a Loulé, permanecer aqui e encontrar uma oferta diferenciadora, que vá muito além dos serviços administrativos ou da atividade habitual.

Trata-se de ser mais ambiciosos na forma como projetamos o território, criando uma cidade mais dinâmica, mais atrativa e com maior capacidade de retenção e atração de visitantes.

O que está em perspetiva é uma leitura mais ampla do território, que liga a história e a cultura da cidade desde o centro histórico, passando pelo Convento de Santo António, até à Mãe Soberana. Falamos de criar uma continuidade entre estes espaços, valorizando a sua dimensão cultural, religiosa e turística.

A Mãe Soberana é uma referência identitária muito forte do concelho, mas depois verificamos que, no terreno, ainda faltam condições básicas para acolher devidamente quem nos visita. Em alguns casos, não existem sequer infraestruturas essenciais, como casas de banho ou espaços de descanso adequados.

Se queremos afirmar Loulé como destino turístico, temos de garantir que existe um percurso estruturado, acessível e confortável para quem nos visita. Um percurso que seja intuitivo e que permita às pessoas circular entre diferentes pontos de interesse com condições dignas.

É importante também ter em conta que há visitantes com diferentes necessidades, incluindo limitações de mobilidade, e isso obriga-nos a repensar a forma como organizamos o território.

No fundo, trata-se de olhar para o turismo de forma mais integrada e exigente. Se queremos atrair outro tipo de público e qualificar a experiência de quem nos visita, temos de garantir que o território está preparado para isso.

V.A - Os projetos e objetivos definidos durante a campanha, para o exercício destas funções, parecem agora mais concretizáveis ou a realidade da governação tem colocado alguns entraves e desafios?

T.P - A governação coloca sempre entraves e desafios, isso faz parte da sua natureza. Ainda assim, continuo a acreditar que os objetivos traçados são concretizáveis. Há projetos com horizontes de quatro anos e outros que exigem mais tempo, porque a ação governativa é feita por ciclos.

Ainda hoje estou a tomar decisões e a desenvolver projetos que vêm do passado, mas mantenho a convicção de que conseguirei dar resposta, tanto às expectativas das pessoas como àquilo a que me propus.

Precisamos de muitas infraestruturas, nas áreas da educação e do social, e essa é uma responsabilidade coletiva. No entanto, quando chegamos à governação, encontramos logo um primeiro desafio, que é a disponibilidade de meios e de espaços para concretizar essas respostas. A Câmara tem património, mas não na dimensão necessária para tudo o que é exigido.

Isso obriga-nos a encontrar soluções e a repensar formas de concretização. Apesar disso, continuo confiante de que conseguiremos estruturar e lançar um caminho sólido para responder ao que foi assumido.

V.A - Qual tem sido o feedback junto da população?

T.P - O contacto com as pessoas é muito direto. Há quem questione, há quem critique, mas também há quem reconheça e apoie. Essa relação mantém-se muito próxima.

Naturalmente, este primeiro ano é exigente. Apesar da vontade de avançar rapidamente, estamos perante uma estrutura grande e projetos de dimensão significativa, o que obriga a criar dinâmicas internas muito bem organizadas para que tudo possa ser concretizado.

O que sinto, de forma geral, é que existe expetativa e alguma ansiedade para ver resultados. Até ao momento, não sinto um descontentamento generalizado. Há sempre diferentes opiniões — umas decisões agradam mais, outras menos — e isso faz parte da vida democrática.

Inclusivamente em processos como a reorganização de equipas, é natural que existam diferentes reações. Faz parte da dinâmica de qualquer mudança. O importante é perceber que nada é definitivo e que o trabalho está em evolução.

 

V.A - Como deve decorrer este processo de alteração nas equipas?

T.P - Tem de correr bem. Não há outra forma de olhar para isto. Quando se fazem mudanças, há sempre pessoas que ficam satisfeitas e outras que ficam menos satisfeitas, mas as decisões são tomadas com base no que consideramos ser o melhor para o funcionamento da equipa e para atingir os objetivos definidos.

Levo comigo a experiência da minha vida profissional no futebol, onde aprendi que ninguém entra em campo para perder. Quando fazemos alterações, é porque acreditamos, em consciência, que estamos a escolher as melhores soluções para ganhar — independentemente das leituras externas.

Naturalmente, não deixo de sentir esse impacto humano, porque tenho uma relação próxima com as pessoas e valorizo essas ligações. Mas também tenho consciência de que, no final deste ciclo autárquico, o resultado será avaliado globalmente e recairá sobre mim e sobre a equipa. Por isso, é importante pensar de forma estruturada e responsável. Se todos estiverem alinhados e a trabalhar para o mesmo objetivo, todos saímos a ganhar.

V.A - Se alguém de fora visitasse Loulé e tivesse contacto com o concelho e com o Presidente da Câmara, que perceção acha que teria de si enquanto autarca?

T.P - É uma autoavaliação difícil de fazer. Mas acredito que a política me ensinou algo essencial: não é possível agradar a toda a gente. Houve uma altura em que pensava que isso era possível, mas hoje tenho plena consciência de que não é.

Ainda assim, procuro manter uma relação muito próxima com as pessoas. Vou ao café, círculo na cidade, cumprimento as pessoas, conheça ou não conheça. Essa é a minha forma de estar. Não é algo forçado, faz parte da minha personalidade.

Penso que as pessoas acabam por sentir isso: uma disponibilidade constante e uma postura de proximidade. Tento ser sempre acessível e genuíno nesse contacto.

 

V.A - Para terminar, gostaria de deixar uma mensagem aos munícipes ou abordar algum tema que considere importante que não tenha sido referido nesta entrevista?

T.P - Isto é um “campeonato” com vários jogos. O que digo às pessoas é que nos deem tempo. Foram quatro anos de confiança que nos foram dados e é esse o período que temos para apresentar resultados.

Não vale a pena existir pressão constante em cada momento. O mais importante é haver diálogo, comunicação e participação. Eu valorizo muito esse contacto com as pessoas e quero que ele exista de forma permanente.

Peço apenas que nos seja dado este tempo para trabalhar, para nos organizarmos e para executarmos aquilo que nos propusemos fazer. No final destes quatro anos, todos terão condições para avaliar e decidir em conformidade.

Estamos atentos, conscientes da responsabilidade que temos e do programa que assumimos. Sabemos bem as necessidades existentes e estamos a trabalhar para que, ao longo do mandato, seja visível a concretização do que foi planeado.

 

Nathalie Dias