Presidente da Junta de Freguesia de Quarteira

De professor a presidente da Junta de Freguesia de Quarteira, o percurso de João Romão não foi traçado pela ambição política, mas pelo envolvimento cívico e pelo trabalho associativo. Sem nunca ter pensado ocupar um cargo autárquico, aceitou o desafio num momento de estabilidade pessoal e profissional, movido pelo sentido de responsabilidade para com a terra onde cresceu e viveu toda a vida. Nesta entrevista, fala do caminho inesperado até à presidência da Junta, das prioridades para o mandato e da visão de comunidade que quer afirmar em Quarteira.

 

V.A. – Sendo professor, qual era a sua ligação à política? E, como é que decide, candidatar-se a Presidente da Junta de Freguesia de Quarteira?

J.R. – Não tinha qualquer ligação à política. Estava ligado ao associativismo, muito ligado ao associativismo nos últimos dez anos. Fundei e dinamizei uma associação desportiva – a Associação Quarteira Beach Sports, uma associação juvenil ligada aos desportos de praia, que depois evoluiu também para o voleibol. Foi essa ligação que me permitiu conhecer melhor a Junta de Freguesia de Quarteira e, nomeadamente, o então presidente, Telmo Pinto.

A Associação tem cerca de 100 atletas, sobretudo na formação desportiva, muito focada no voleibol, uma modalidade praticada durante todo o ano. É uma associação com um espírito muito próprio, composta apenas por jovens na direção, pensada desde o início como uma associação juvenil. Para além da formação desportiva, formamos também dirigentes, lideranças e cidadãos.

 

“Através do desporto, aprendi a formar líderes e cidadãos e isso inspirou-me a entrar na política"

 

V.A. – Como aconteceu esse primeiro contacto?

J.R. – Estava a lecionar, no decurso de uma aula,  quando recebi uma chamada do Telmo Pinto. Atendi no intervalo. Ele apresentou-se como Presidente da Junta de Freguesia de Quarteira e disse que tinha uma proposta: queria dinamizar o desporto em Quarteira e gostava de reunir-se comigo. No fim de semana seguinte reuni-me com ele e foi assim que tudo começou.

 

V.A. – Portanto, não havia qualquer relação pessoal anterior…

J.R. – Não. Foi o trabalho que nos juntou. As ideias convergiram e criámos uma relação de amizade a partir daí e tornámo-nos amigos à custa do trabalho, isso é importante dizer.

 

V.A. – Quando sentiu o “clique” para se candidatar?

J.R. – O Telmo Pinto dizia, há anos, que eu tinha perfil. Sempre disse que não me interessava pela participação política além do cumprimento dos direitos e deveres a ela associada como qualquer cidadão.

Quando finalmente estava estável – depois de 13 anos a lecionar fora do Algarve, com a família reunida – surge este desafio. Aos 44 anos, esta mudança representa um grande desafio, mas muito motivador e gratificante.

 

V.A. – Como encara a passagem de uma carreira docente estável para a liderança de uma Junta de Freguesia?

J.R. – Durante muitos anos, participar em concursos de professores para colocação numa escola foi um desafio constante. A roda-viva da vida de professor levou-me a trabalhar em várias regiões do Alentejo, até que, finalmente, em 2018, consegui efetivar em Quarteira. Foi no Alentejo que conheci a Teresa, Assistente Social de profissão. Em 2020, tornamo-nos pais. O primeiro ano de vida da nossa filha foi pautado pela separação familiar quando a minha esposa, após termino da licença de maternidade, teve que regressar ao local de trabalho no Alentejo, onde detinha vínculo profissional de forma efetiva à função pública, levando consigo a nossa filha, de 9 meses, na altura. Também ficava muitas vezes comigo, no Algarve, mas isso implicava a separação da mãe, situação que nos causou grande desgaste emocional, mas que foi superado alguns meses depois com o pedido de mobilidade e colocação da minha esposa no Algarve.

Foram tempos que nos fortaleceram e hoje, felizmente, estamos reunidos, tranquilos e felizes.

Sentia-me realizado no desempenho da minha profissão a qual desempenhava com motivação. Confesso que aos 44 anos, integrar funções bastante distintas daquelas que desempenhava, até então, não é fácil, sobretudo quando se trata de mais do que um emprego: é uma missão. Dedicar-se de corpo e alma à terra é diferente de qualquer experiência anterior. Já o fazia, em menor escala, através do associativismo, onde tinha alguma influência na vida das pessoas. Mas numa Junta de Freguesia, cada decisão tem impacto direto na vida de muita gente, e a responsabilidade assume uma dimensão completamente diferente.

 

V.A. – Chega à presidência da Junta após 12 anos de governação do Telmo Pinto. O que considera fundamental manter e onde sente necessidade de mudança?

J.R. – O Telmo Pinto teve um papel absolutamente determinante, sobretudo na construção da marca Quarteira. Criou-se uma identidade forte, uma cidade com energia, dinâmica, atividade social, cultural e intergeracional. Essa aposta tem de continuar, porque hoje as cidades também se afirmam enquanto marcas.

 

“O grande desafio é atualizar creches, escolas e edifícios face ao crescimento da cidade”

 

V.A. – Que desafios acredita que ficaram por resolver?

J.R. – A Junta que herdei não tem nada a ver com a que o Telmo encontrou. Hoje é uma estrutura enorme, com respostas muito exigentes. O grande problema é que Quarteira cresceu muito – população, valorização, procura – mas as infraestruturas públicas não acompanharam: creches, escolas, lares e edifícios da própria Junta.

 

V.A. – Isso quer dizer que está a pensar ampliar o Edifício da Junta de Freguesia?

J.R. – Não ampliar apenas. Temos de estudar uma solução estrutural. Para dar boas respostas à população, os funcionários também precisam de boas condições de trabalho.

 

V.A. – Quais são as prioridades a curto prazo?

J.R. – Educação, habitação e requalificação urbana. Tudo é urgente. A vantagem de não vir da política é acreditar que é possível fazer diferente, nem que seja por alguma ignorância saudável. Vamos à luta.

 

V.A. – Qual a sua preocupação na ação social?

J.R. – Preocupa-me muito. Vivemos um desequilíbrio social grave. Quarteira é muito procurada, o investimento externo faz subir rendas e empurra pessoas para situações limite. A habitação com renda acessível é uma prioridade. Em 2026 avançaremos com um projeto para 586 fogos junto ao cemitério, além de outros dois projetos em fase camarária.

 

V.A. – Já é uma decisão do seu executivo?

J.R. – É um projeto que já vinha pensado, mas que agora reúne condições para avançar. O concurso será lançado em breve pela Junta.

 

V.A. – Existe atualmente população em situação de sem-abrigo em Quarteira? Que dimensão tem este fenómeno e de que forma a Junta o está a acompanhar?

J.R. – Sim. Quarteira tem cerca de 100 pessoas referenciadas nessa situação. O acompanhamento social, propriamente dito compete ao Município de Loulé.  A JF integra o NPISA - Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem Abrigo de Loulé, o CLAS- Conselho Local de Ação Social de Loulé e somos parceiros socias de outras entidades locais de intervenção nesta temática que se reveste de enorme complexidade comumente associada às problemáticas da toxicodependência, doença mental, doença crónica, destruturação familiar, pobreza intergeracional e ciclos de exclusão social exigindo, assim, uma atuação concertada dos vários agentes locais com competência nesta matéria.

 

“Associar o cartão de crédito a gastos pessoais é uma tentativa clara de desinformar a população. Sem contraditório, muitos ficam com uma ideia errada da realidade”

 

V.A. – A intervenção de Jorge Santos (CHEGA), na última Assembleia de Freguesia, trouxe à discussão pública a utilização do cartão de crédito da Junta. Estamos perante uma prática já existente ou uma novidade deste Executivo?

J.R. – O cartão de crédito não é uma novidade. Já existia no anterior Executivo e sempre foi uma ferramenta de trabalho normal. Naturalmente, com a entrada de um novo Executivo, teve de voltar a ser aprovado em Assembleia, como a lei obriga, mas não se trata de nada de novo.

Hoje em dia, a Junta tem várias despesas correntes que exigem este tipo de meio de pagamento: licenças de softwares, antivírus, plataformas de comunicação institucional e até serviços básicos como a Via Verde. Tudo isto são despesas normais de funcionamento. O que me custa é a associação direta do cartão de crédito à utilização pessoal do Presidente, porque isso não corresponde à realidade.

Não me parece que seja falta de conhecimento nem confusão. Parece-me, sim, uma tentativa clara de desinformar a população, de denegrir a imagem do Presidente e do atual Executivo, o que acaba também por descredibilizar a própria Junta de Freguesia.

Isto faz mossa, sobretudo porque vivemos numa era em que muita gente consome informação apenas através das redes sociais. Muitas dessas pessoas ouvem a acusação, mas já não chegam a ouvir a resposta. Sem contraditório, ficam com uma ideia errada da realidade.

 

V.A. – Também houve polémica em torno das despesas de representação. Como responde a essas críticas?

J.R. – Estas ajudas de custo são dirigidas a todos que assumam cargos de igual natureza, à proporção das responsabilidades assumidas, e faz todo o sentido. Não é um privilégio, é uma consequência das exigências do cargo. Basta pensar que são raros os fins de semana que tenho livres de compromissos — os fins de semana são destinados à participação em eventos, cerimónias e compromissos institucionais. Já para não falar que se trata de um cargo desempenhado, quase a tempo integral.

As despesas de representação servem exatamente para isso: garantir que o Presidente da Junta possa exercer as suas funções com dignidade e em representação da instituição. Muitas vezes, o próprio exercício do cargo condiciona a vida pessoal e obriga a gastos adicionais. Isso faz parte da função.

 

“A felicidade de uma cidade não depende apenas dos autarcas. Depende de cada um de nós”

 

V.A. – Para terminar, que mensagem ou apelo gostaria de deixar à população de Quarteira neste início de um novo mandato?

J.R. – Gostava de deixar um apelo à responsabilidade coletiva e ao espírito de comunidade. A felicidade de uma cidade não depende apenas do presidente da Junta ou do presidente da Câmara Municipal. Depende de cada um de nós. Se cada cidadão assumir a sua parte, se cuidar do seu bairro, do espaço comum e das pessoas à sua volta, teremos uma cidade mais próspera, mais feliz e mais unida.

 

V.A. – Acredita, então, que o envolvimento cívico dos cidadãos é determinante para o futuro da cidade?

J.R. – Sem dúvida. Cada gesto conta. Um bairro é mais limpo se cada um cuidar dele. Um serviço público funciona melhor quando há sentido de responsabilidade, cidadania e participação.

Criticar por criticar não soluciona nada. Agir, sim: identificar problemas, comunicá-los à Junta e fazer parte da solução. Em última instância, todos somos responsáveis pela cidade onde vivemos.

 

Nathalie Dias