Por: Padre Carlos Aquino | effata_37@hotmail.com

“Quem dizem os homens que é o Filho do homem?”

 

À primeira vista, esta pergunta parece uma questão de identidade religiosa. Um inquérito de opinião antes do tempo. Uma curiosidade sobre a imagem pública de Jesus. Mas a pergunta é muito mais profunda. É uma interrogação antropológica. Ao perguntar quem é o Filho do Homem, Jesus obriga-nos a perguntar quem é, afinal, o próprio homem. As respostas dos discípulos revelam um fenómeno que permanece atual. Em todas elas, Jesus é reduzido a categorias já conhecidas. O novo é aprisionado pelo velho. O mistério é domesticado pela familiaridade. É um mecanismo profundamente humano: classificamos para não sermos desinstalados. Também hoje fazemos o mesmo. Transformamos Jesus num líder ético, num revolucionário social, num sábio espiritual, num inspirador de boas causas ou, pelo contrário, num símbolo incómodo a manter à distância. Cada época fabrica um Cristo à sua medida. Talvez porque receamos encontrar o Cristo que nos obriga a medir-nos por Ele. Mas há uma segunda pergunta, ainda mais radical: "E vós, quem dizeis que Eu sou?" Já não basta repetir a voz da multidão. A fé começa precisamente quando deixamos de viver por empréstimo. Nenhuma sondagem substitui uma consciência. Nenhum consenso dispensa uma decisão pessoal.

Esta passagem do "dizem" para o "dizes" revela uma verdade essencial da condição humana. O homem contemporâneo vive rodeado de opiniões, algoritmos, tendências e discursos que lhe dizem quem deve ser, o que deve desejar e como deve pensar. Nunca tivemos tanta informação e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil encontrar uma voz própria. A pergunta de Jesus devolve-nos à responsabilidade da liberdade. Não pergunta apenas pelo seu mistério; pergunta pela nossa capacidade de responder. Porque a identidade humana não nasce da repetição, mas do encontro. Existe ainda uma dimensão frequentemente esquecida. Jesus utiliza a expressão "Filho do Homem", como manifestação de uma humanidade plenamente realizada. Nele, Deus não diminui o humano; revela-o na sua plenitude. Se Cristo é o Homem perfeito, então conhecer Cristo é descobrir aquilo que o homem é chamado a ser. É aqui que a questão deixa definitivamente de ser apenas religiosa. Num tempo em que discutimos incessantemente identidade, dignidade, tecnologia, inteligência artificial, poder económico ou manipulação genética, a pergunta decisiva continua intacta: o que significa ser verdadeiramente humano? Não basta prolongar a vida se perdermos as razões para viver.

Não basta aumentar capacidades se diminuirmos a consciência. Não basta conquistar eficiência se sacrificarmos a compaixão. A crise do nosso tempo talvez não seja apenas económica, política ou cultural; é, antes de tudo, antropológica. Por isso, esta pergunta de Jesus continua a ecoar em cada sociedade que corre o risco de perder o sentido da pessoa. Continua a desafiar uma cultura que sabe quase tudo sobre o funcionamento do cérebro, mas hesita em responder para que serve o coração; que explora o universo, mas frequentemente ignora o mistério da consciência; que multiplica as ligações digitais, mas experimenta uma crescente solidão existencial. Talvez a grande surpresa do Evangelho seja esta: ao procurar a identidade do Filho do Homem, acabamos por encontrar a nossa própria identidade. E descobrimos que a pergunta mais decisiva da história continua a ser, simultaneamente, a mais pessoal de todas.