Por: Padre Carlos Aquino | effata_37@hotmail.com

“Desligai-o e deixai-o ir”

Há uma frase no relato do Evangelho que soa quase como um sussurro de liberdade no meio da morte. Diante do túmulo de Lázaro, já envolto em faixas funerárias, Jesus ordena algo simples e profundo: “Desligai-o e deixai-o ir.” A cena é conhecida. Lázaro está morto há dias. O cheiro da morte já não se esconde. As irmãs choram, os amigos lamentam, e o próprio Jesus, diz o texto, também chora. A morte não é tratada como ideia abstrata; é dor concreta, perda irreparável, silêncio que pesa. Mas quando Lázaro sai do túmulo, ainda não está realmente livre. Caminha, sim, mas preso pelas ligaduras do sepulcro. Está vivo, mas ainda amarrado à morte. É então que surge a ordem inesperada: alguém tem de o libertar. “Desligai-o.” A ressurreição, naquele instante, não termina no milagre. Precisa da participação humana.

Alguém tem de desatar os nós, remover as faixas, soltar aquilo que impede a vida de circular plenamente. Talvez esta frase diga mais sobre a vida do que sobre a morte. Quantas vezes também nós caminhamos pela vida como Lázaro: vivos por fora, mas envolvidos em ligaduras invisíveis. Medos antigos. Culpa acumulada. Ressentimentos que endurecem o coração. Rotinas que nos aprisionam. Palavras que alguém disse há anos e que ainda nos seguram. Respiramos, trabalhamos, cumprimos tarefas, mas algo continua amarrado. A ordem de Jesus ecoa então para além do túmulo de Betânia. Não se dirige apenas a Lázaro, mas aos que estão à volta dele. Aos outros. À comunidade. Há libertações que não fazemos sozinhos.

Às vezes precisamos que alguém nos ajude a desfazer as faixas da tristeza, a abrir espaço para recomeçar, a lembrar-nos de que ainda podemos caminhar. E outras vezes somos nós chamados a libertar alguém: com um perdão oferecido, com um gesto de confiança, com a coragem de não manter o outro preso ao seu passado. Porque também podemos ser carcereiros uns dos outros. Libertar alguém significa aceitar que ele siga o seu caminho. Sem controlo, sem posse, sem a tentação de o manter preso às nossas expectativas. A vida verdadeira não é apenas sobreviver. É poder caminhar. Talvez por isso esta breve frase do Evangelho funcione como uma pergunta silenciosa dirigida a cada um de nós: Que ligaduras ainda nos prendem? E a quem estamos nós chamados a libertar? Entre a pedra do túmulo e a liberdade do caminho existe sempre este gesto humano de desatar nós. Talvez seja aí que começa, discretamente, a ressurreição de cada dia.