Tendo como ponto de partida a expressão "T´avonde" que, no dialeto algarvio, significa basta, o artista vai conceber a sua obra a partir do espaço que atualmente o rodeia, o Algarve.
Esta exposição, que dá continuidade ao projeto de curadoria da Galeria Trem, realizado pela licenciatura em Artes Visuais da Universidade do Algarve, em parceria com a Câmara Municipal de Faro, integra três núcleos de obras, que se dividem entre a TREM e o Museu Municipal de Faro. O primeiro núcleo, na galeria, é composto pela instalação - teu espelho, 2013 - um tanque construído com areia e água da Ria Formosa. Água e areia são elementos que se movem, que se adequam ao espaço, que se absorvem. Todo o processo será fotografado e o resultado será afixado nas paredes da galeria que se convertem numa timeline.
No Museu Municipal, que outrora foi uma fábrica de cortiça, Massul vai instalar uma peça no centro do claustro, - thermal body (mother), 2013. A matéria aqui é a cortiça queimada de São Brás de Alportel - restos que sobreviveram ao incêndio que devastou a serra algarvia e que destruiu parte de uma cultura secular, a dos sobreiros. À volta desta peça, que funciona como um totem ancestral, ainda informe, o artista expõe os seus desenhos, feitos de matéria orgânica – lama, folhas e frutos esmagados sobre o papel.
Para fechar o ciclo, o artista apresenta-nos um livro, - formosa, a love story book, 2014 -. Técnica mista sobre papel, encadernado de maneira artesanal. Como na peça que expôs no Centro de Artes de Sines, em 2010, onde o artista escrevia e ocultava um poema de Al Berto com a terra da região, o seu livro também esconde e revela uma história por trás das muitas histórias que ele decide contar: as histórias de uma ria, de suas margens que ora aprisionam, ora se expandem em busca do mar ao fundo.
A exposição, que estará patente ao público até dia 27 de setembro, é, nas palavras de Mirian Tavares, Docente da UAlg e coordenadora do Centro de Investigação em Artes e Comunicação, um convite a conhecer uma obra que "necessita de tempo para ser feita, para ser apreciada, para existir" porque "o artista não tem pressa em produzir. Ele negoceia com os objetos que lhe vão ditando formas, maneiras, modos. É uma obra sobretudo matérica: cada objeto diz, na sua textura específica, de onde procede. Não diz para onde vai, porque aponta sempre para o infinito da multiplicidade de sentidos que as coisas simples possuem. E a simplicidade não é fácil. É preciso estar atento para que a obra, na sua delicadeza, se revele".
Com este trabalho completam-se dois anos de colaboração intensa e profícua entre a Galeria Trem e a Universidade do Algarve.
Por UALG


