André Magrinho, Professor Universitário, Doutorado em Gestão | andre.magrinho54@gmail.comAndré Magrinho, Professor Universitário, Doutorado em Gestão | andre.magrinho54@gmail.com

A rápida transformação do Ártico está a alterar profundamente o equilíbrio geopolítico mundial. O degelo acelerado abre novas rotas marítimas — a Passagem do Nordeste, a Passagem do Noroeste e, futuramente, a Rota Transpolar — que encurtam distâncias entre a Europa, a América do Norte e a Ásia. Estas rotas, antes apenas teóricas, começam a tornar‑se navegáveis durante períodos cada vez mais longos do ano, criando um corredor estratégico global. Neste contexto, a Groenlândia emerge como peça central da segurança euro‑atlântica, e os Açores ganham uma relevância acrescida que Portugal não pode ignorar. Mais do que a grande dotação em recursos energéticos e minerais, que é grande, esta é, porventura, a razão estratégica, mas não tão vocalizada, da pretensão de Donald Trump, quanto a uma putativa anexação pelos EUA. E, certamente, que existirão soluções negociadas no quadro da NATO, com a Dinamarca e os parceiros europeus, sem passar pela mencionada anexão aos EUA.

A Groenlândia, território do Reino da Dinamarca e parte integrante do espaço estratégico da NATO, funciona como um verdadeiro “porta‑aviões fixo” no Ártico. A sua localização permite monitorizar movimentos russos, acompanhar a crescente presença chinesa na região e controlar o acesso às novas rotas polares. A base espacial Pittufik, norte‑americana, durante muito tempo designada Base Aérea de Thule, com capacidades de radar e defesa antimíssil, reforça este papel. Mas a importância da Groenlândia não se esgota no Ártico: ela influencia diretamente o Atlântico Norte, onde se cruzam as principais linhas de comunicação marítima e digital entre continentes. É precisamente aqui que entram os Açores. Situados no coração do Atlântico, os Açores encontram‑se na trajetória natural das novas rotas que ligam o Ártico ao Atlântico Médio e à Europa. À medida que o tráfego marítimo e aéreo se desloca para norte, o arquipélago transforma‑se num ponto de apoio logístico, de vigilância e de monitorização essencial para a NATO e para a União Europeia. A Base das Lajes, muitas vezes vista apenas como plataforma de apoio transatlântico, ganha agora uma função renovada: servir de nó intermédio entre o Ártico e o continente europeu, reforçando a capacidade de resposta rápida e a vigilância sobre submarinos, cabos submarinos e rotas energéticas.

A crescente competição entre grandes potências — Estados Unidos, China e Rússia — torna o Atlântico Norte um espaço de disputa estratégica. A proteção dos cabos submarinos que transportam mais de 95% dos dados globais, muitos dos quais passam perto dos Açores, torna‑se uma prioridade absoluta. A sabotagem ou interferência nestas infraestruturas teria impacto imediato na economia europeia, na segurança digital e na própria soberania dos Estados. Portugal, ao controlar este corredor, assume um papel de guardião das comunicações transatlânticas. O triângulo estratégico Groenlândia–Islândia–Açores volta assim a ganhar centralidade, tal como durante a Guerra Fria, mas agora com novas dimensões: segurança digital, vigilância oceânica, proteção de infraestruturas críticas e gestão de rotas emergentes. Portugal, através dos Açores, deixa de ser periferia e passa a ser um ator indispensável na arquitetura de segurança euro‑atlântica. Num mundo em rápida mudança, o Atlântico Norte é novamente o centro de gravidade da segurança ocidental. E nesse novo tabuleiro, os Açores são um trunfo geopolítico que reforça a posição de Portugal na NATO, na União Europeia e na nova ordem internacional que está a emergir.