A zona histórica de Loulé está a ser “requalificada”. Pelo menos, é assim que a Câmara anuncia. Mas basta olhar com atenção para perceber o logro. Passear hoje pela zona histórica de Loulé é um exercício de contradição. No chão, vemos pedra nova, passeios requalificados, calçadas alinhadas. Mas basta levantar o olhar para perceber que aquilo a que chamam “requalificação” não passa de uma operação cosmética. A herança urbana, a estética da cidade, o respeito pelo património, tudo isso ficou para trás.
Os velhos candeeiros de ferro, carregados de memória e identidade, estão a desaparecer para dar lugar a imitações baratas, sem vidro, com aspeto de candeeiros comprados na loja dos chineses. É esta a ideia de “património” que o atual executivo municipal tem?
E já que falamos em olhar para cima, repare-se nas fachadas: quilómetros de cabos elétricos e de telecomunicações continuam a atravessar as ruas históricas como se fossem roupa estendida. Um emaranhado de fios, cabos, desenrascanços, tubos de ferro e plástico a subir paredes, tudo desordenado, digno de um país que gosta de se promover como destino turístico de qualidade mas que, afinal, mantém no coração da cidade um postal que podia ter sido tirado do terceiro mundo. Acima das nossas cabeças, milhares de quilómetros de cabos elétricos e de telecomunicações continuam a cobrir as fachadas das casas, transformando ruas centenárias em autênticas teias. Não há plano, não há critério, não há cuidado.
Como se não bastasse, temos a praga dos aparelhos de ar condicionado nas paredes. E quem dá o pior exemplo? A própria Câmara Municipal, que encheu os seus edifícios com máquinas espetadas sem critério nas paredes, muitos deles em edifícios municipais. Sim, a mesma Câmara Municipal que exige aos munícipes projetos de alteração de fachadas, pareceres técnicos e respeito por normas legais, não hesita em transformar os seus próprios edifícios em exemplos de desleixo estético e desrespeito pela lei… será que cumpriu os mesmos procedimentos nos seus próprios prédios? Ou a lei é só para alguns?
O resultado é este: uma zona histórica com chão novo e paredes decrépitas, fios por todo o lado e candeeiros de plástico. Uma oportunidade perdida de fazer uma verdadeira requalificação, séria, integrada, que resolvesse de uma vez problemas que se arrastam há décadas.
E não se pode deixar de perguntar: será coincidência que estas obras surjam agora? Será que não passam de mais uma operação de maquilhagem urbana, para enganar distraídos e garantir fotografias de inauguração? A verdade é que a maioria dos louletanos já quase não põe os pés na zona histórica, só lá vai durante os dias do Festival MED, mas numa altura em que a zona histórica começa a ser alvo do investimento de privados criando uma zona de diversão noturna que pode ser uma mais-valia para atrair turistas à cidade, o aspecto desleixado, abandalhado e esquecido, é o imperfeito cartão-de-visita a quem por lá passa.
Isto sem falar da ideia de limitar o trânsito nesta área a moradores e cargas e descargas (ideia que se saúda mas que ficou suspensa até um dia…sabe-se lá quando) que começou com a colocação de uns pinos nas entradas da zona histórica que rapidamente se mostraram mais perigosos do que úteis, mais constrangedores do que reguladores, com constantes avarias e descoordenação com os meios de urgência (ambulâncias, bombeiros, etc.) que se viram impedidos de circular quando necessitavam.
Rapidamente se apressaram a retirar esses pinos e a instalar o que seria um sistema moderno de controlo do trafego na área mas…passaram meses e nada. Estruturas montadas, mas a trabalhar? Não. Nem se sabe quando. Entretanto os carros continuam a passar entre as esplanadas onde centenas de pessoas comem todos os dias…
Loulé requalificou o chão, mas esqueceu-se de que a cidade não se vive apenas de onde pomos os pés. Vive-se do que os olhos vêem, do que sentimos no espaço urbano, da harmonia entre o antigo e o novo. E aí, o que hoje temos na zona histórica de Loulé é um cenário incoerente, descaracterizado, sem rumo. Um chão reluzente a contrastar com candeeiros sem alma, fios pendurados e paredes desfeitas. Uma “requalificação” feita à pressa, para inglês ver, ou, neste caso, para turista fotografar, desde que não olhe para cima.