Na Eucaristia que presidiu naquele dia na igreja matriz de Paderne, o bispo diocesano pediu-lhes “disponibilidade e disposição interior para ser presença de Cristo no meio do mundo com os outros e para acolher Cristo que está presente também no outro”.
“Vieste aqui talvez assim um bocadinho com as mãos vazias, com pouco, tempo limitado, cansaço acumulado depois dos exames semestrais na faculdade, inseguranças, talvez dúvidas na fé… É possível que alguns de vós tenham pensado mesmo: «Não sei se estou à altura daquilo que me é pedido nesta missão, não tenho muito, parece que não tenho nada para dar, sinto-me vazio, não sei rezar bem, não sei o que dizer às pessoas, tenho algumas dúvidas de fé»… tantas coisa que às vezes nos retraem e podem limitar a nossa participação nesta experiência”, afirmou.
“Mas mesmo assim, tendo essa sensação, cada um de vós inscreveu-se para esta missão. E mesmo assim batestes à porta de gente desconhecida. E mesmo assim sentastes-vos para ouvir uma história, às vezes longa, repetida, às vezes até difícil de escutar porque traz muito sofrimento com ela. E mesmo assim ficastes em silêncio numa visita quase sem palavras. Mas viestes com algo que é muito importante, é este pouco de que fala Jesus. É disponibilidade, é a disposição interior para acolher, e sobretudo para acolher também o desconhecido, a pessoa desconhecida, não sabendo nada da sua vida, não sabendo nada da sua história. E essa disposição interior cria as condições para que Deus o acrescente, para que Deus o multiplique. E a quem tem essa abertura Deus dá sempre mais. Disponibilizastes-vos para dar um bocadinho e acabastes por receber muito mais”, prosseguiu.
A propósito do lema deste ano da ‘Missão País’ – “A Paz seja convosco” – o bispo do Algarve lembrou que “a paz de Cristo não é a ausência de problemas”. “É antes a certeza de que Ele está connosco no meio desses problemas que temos de enfrentar tantas vezes”, clarificou, explicando que “esta paz não aparece apenas quando tudo corre bem”. “Ela aparece quando entramos numa casa sem saber o que vamos encontrar, quando chegamos a uma visita com medo sem saber o que dizer, quando rezamos por alguém e percebemos que aquela oração afinal é também para nós porque nos faz bem a nós e não apenas àquele por quem rezamos”, complementou.
“É natural que já tenham sentido entrar numa casa para levar a paz e sair com mais paz do que quando entrastes. É esta surpresa que Deus nos faz nestas atitudes: visitar alguém que está sozinho e percebermos que afinal Deus já estava lá à nossa espera e que tornou gratificante aquela visita”, continuou, acrescentando: “Na ‘Missão País’, quando damos tempo, recebemos sentido para a vida; quando damos escuta, recebemos verdade; quando damos fragilidade, Ele responde com fortaleza, com a paz, com a serenidade. Esta é a surpresa de Deus ao fazer uma experiência como esta”.
O bispo do Algarve disse-lhes ainda que “missão não é fazer coisas para Deus”. “Missão é deixar que Deus faça coisas em nós enquanto estamos uns com os outros. É missionarmo-nos a nós mesmos. É deixarmo-nos evangelizar a nós mesmos. É deixar-nos envolver pela presença de Deus na nossa própria vida. Mais do que estar a levar Deus aos outros, é deixar que Deus venha ter comigo, me transforme e transforme a minha vida”, explicou.
D. Manuel Quintas destacou que “a Igreja e Paderne não precisa de missionários impecáveis, mas missionários que o queiram ser e acolher essa presença e esse amor de Deus na sua vida”. “Precisa de jovens que entrem nas casas como são: cansados às vezes, sem saber muito bem o que fazer, mas com um coração disponível para levar a paz e para partilhar a paz que acolhemos da presença de Deus na nossa vida”, complementou, pedindo-lhes que sejam “mensageiros da paz”.
O responsável católico desafiou ainda os voluntários a aprofundarem nas suas vidas o “sentido da gratidão”. “Reconhecer o bem que Deus faz em vós e que faz convosco”, concretizou, desafiando-os a “também cuidar e cultivar o sentido fraterno”.
“Depois desta experiência sois enviados. Tal como Jesus enviou os discípulos pelo mundo também vós também sois enviados a partilhar esta experiência que vivestes e que ela seja sobretudo um compromisso pessoal a aplicar na própria vida esta experiência que aqui realizastes na ‘Missão País’ que é tão gratificante”, concluiu.
No final da Eucaristia, os chefes gerais da ‘Missão País’ 2026 da UAlg ofereceram a D. Manuel Quintas um “’kit’ missionário”, composto por uma camisola, uma cruz e um bloco. “O senhor Bispo também é um missionário como nós e também para nós é um exemplo”, afirmaram Guilherme Bacôco e Vanessa Lebre.
O bispo do Algarve agradeceu garantindo que aquele projeto é “um grande dom” para a diocese algarvia. “É um grande dom a realização de cada ‘Missão País’ que tem sido sempre uma sementeira de bem fazer. Obrigado àqueles que ajudam, que organizam, que estão à frente desta missão”, referiu.
A ‘Missão País’ 2026 está a ser levada a cabo em 75 localidades por 60 faculdades, de várias regiões de Portugal continental e arquipélagos, reunindo mais de 4.000 missionários. Trata-se de uma iniciativa universitária que começou em 2003 com três estudantes da Universidade Nova de Lisboa ligados ao Movimento Apostólico de Schoenstatt. Nela participam jovens de todos os credos e também quem não professa nenhuma religião. São semanas de apostolado e de ação social que decorrem durante três anos consecutivos no período de interrupção de aulas entre o primeiro e o segundo semestres, divididas em três dimensões complementares – externa, interna e pessoal – em que o primeiro ano consiste no “acolhimento”, o segundo na “transformação e o terceiro no “envio”.
Folha do Domingo








