Por: Padre Carlos Aquino | effata_37@hotmail.com
“A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”
Queriam obrigá-lo a escolher entre o poder dos homens e a verdade que trazia consigo. Mostraram-lhe uma moeda e perguntaram se era lícito pagar tributo a César. Jesus olhou para a moeda. E respondeu: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Desde então, a frase ficou. Ficou nas igrejas, nos livros, na memória dos povos. Mas talvez tenha ficado, sobretudo, dentro de cada um de nós. Porque, afinal, o que é de César? E o que é de Deus? Talvez César seja tudo aquilo que nos governa por fora. As leis. Os impostos. As instituições. O dinheiro. O poder. As obrigações. As regras necessárias para que uma sociedade não se transforme numa selva onde cada um luta apenas por si. Mas Deus — para quem acredita — talvez seja aquilo que nos governa por dentro. A consciência. A compaixão. A capacidade de olhar para o sofrimento de alguém e não desviar os olhos. E é precisamente aí que a velha frase começa a doer. Porque podemos pagar a César o que lhe devemos e, ainda assim, ficar em dívida para com a humanidade. Podemos cumprir a lei e falhar no amor. Podemos ter razão e não ter misericórdia. Podemos possuir uma casa e não ter um lar. Podemos estar rodeados de pessoas e morrer de solidão. Quantos de nós não conhecemos alguém assim?
Aquele vizinho que já quase não sai de casa. A mulher que sorri na fila do supermercado enquanto faz contas silenciosas ao dinheiro que lhe resta. O homem que trabalhou quarenta anos e agora olha para a reforma como quem olha para uma porta que talvez não consiga atravessar. O jovem que tem um diploma nas mãos e nenhuma certeza no futuro. E há ainda aqueles que não vemos. Os que dormem quando a cidade acorda. Os que limpam os escritórios onde trabalhamos, mas cujo nome nunca perguntámos. Os que cuidam dos nossos velhos, dos nossos doentes, dos nossos filhos, enquanto os seus próprios ficam longe. Que lhes devemos? Não haverá um imposto para isso. Não há recibo. Não há transferência bancária. Talvez seja essa a parte que pertence a Deus. A parte que não se paga com dinheiro. Vivemos numa época que aprendeu a medir quase tudo. Medimos o crescimento, os salários, os preços, os resultados, os seguidores, as audiências, os quilómetros, os minutos. Mas quem mede a bondade? Quem contabiliza uma mão colocada sobre um ombro? Quem atribui valor a uma visita feita a quem está sozinho? Quanto vale um prato de comida levado discretamente a uma família que tem vergonha de pedir? Quanto vale uma palavra dita num momento em que alguém pensa desistir? Há riquezas que não aparecem nas contas.
E talvez sejam essas as que verdadeiramente nos salvam. César continuará a pedir-nos a sua parte. Sempre pediu. Mas a Deus, aquilo que é de Deus. E ao ser humano, aquilo que nunca deveria deixar de ser seu: a dignidade de ser humano. talvez seja esse o nosso maior desafio: dar ao mundo aquilo que lhe devemos, sem lhe entregar aquilo que nos torna humanos. Porque um dia podemos perder o dinheiro. Podemos perder o poder. Podemos perder a casa. Podemos perder o lugar à mesa. Mas, se perdermos a capacidade de olhar para o outro e reconhecer nele um irmão, então teremos perdido muito mais do que tudo isso. Teremos perdido o rosto. E quando uma sociedade já não reconhece o rosto dos seus pobres, dos seus velhos, dos seus frágeis e dos seus estrangeiros, talvez ainda tenha muitas moedas nas mãos. Mas já não sabe para que serve uma vida.