Terras sem Sombra em Coruche: uma aproximação à música europeia dos séculos XVIII-XX em clima de profundas emoções

15:00 - 05/07/2026 ALENTEJO
Das primeiras comunidades agropastoris à paisagem irrigada do Vale do Sorraia

• O Festival Terras sem Sombra apresenta em Coruche, a 11 de julho (21h30), «Cúspides do Sentimento: Uma Aproximação à Música dos Séculos XVIII-XX», pelo Trío Berenson, num concerto com peças de Haydn, Dvořák e Turina.

• Atividade dedicada ao património na tarde de sábado (15h00), 11 de julho, intitula-se «Uma Rota Milenar: O Megalitismo na Região de Coruche», num roteiro de compreensão da cultura material e espiritual das comunidades que habitaram a região durante a Proto-História.

• Manhã de domingo, 12 de julho (09h30), a atividade de salvaguarda da biodiversidade incide «Do Arroz ao Pinhão: Em Torno da Obra de Irrigação do Vale do Sorraia (1951-2026)». Em destaque a articulação entre engenharia, agricultura e ecologia.

• Todas as atividades são de acesso livre e gratuito.

 

Cento e quarenta e um anos separam a obra de Haydn que abre o concerto intitulado «Cúspides do Sentimento: Uma Aproximação à Música dos Séculos XVIII-XX» da peça de Joaquín Turina que lhe sucede. Entre uma e outra — incluindo a brilhante produção de Antonín Dvořák —, ocorreu uma transformação profunda da música escrita para violino, violoncelo e piano, mas permaneceu a mesma ambição: conferir forma à mudança, ao contraste e à intensidade dos afetos.

É deste vasto arco europeu, atravessado pela dança, pela paisagem e pela alternância entre recolhimento e exaltação, que parte a presença do Festival Terras sem Sombra (TSS) em Coruche, nos dias 11 e 12 de julho. O programa prolonga esse olhar sobre o tempo e o território, dos monumentos megalíticos que testemunham as primeiras comunidades agropastoris à obra de irrigação do Vale do Sorraia, onde a água redesenhou a agricultura. Música, património e natureza convergem, assim, numa mesma proposta de descoberta e leitura do mundo.

Na sua itinerância pelo concelho de Coruche, o TSS conta com a parceria do Município e da Embaixada de Espanha. Sublinhe-se também o apoio continuado da Direção-Geral das Artes, do BPI-Fundação «la Caixa» e da CCDR Alentejo. Tal como nas edições anteriores, o Festival conta com o Alto Patrocínio da Presidência da República.

Um concerto de grande amplitude emocional

A noite de 11 de julho, às 21h30, é consagrada à grande música, regressando à igreja da Misericórdia, em Coruche, com «Cúspides do Sentimento: Uma Aproximação à Música dos Séculos XVIII-XX», pelo Trío Berenson. Fundado em 2012 no Conservatório Superior de Oviedo, o ensemble reúne músicos com percursos ligados à atividade orquestral, ao ensino e à música de câmara. Dedica-se a um repertório que viaja do século XVIII até à criação contemporânea e tem-se apresentado em destacados ciclos e instituições de Espanha.

Daniel Jaime Pérez, violinista, estudou em Oviedo, Madrid e Friburgo, foi concertino da JONDE e integra atualmente a Orquesta Sinfónica del Principado de Asturias como concertino-adjunto. Guillermo López Cañal, violoncelista, formou-se em Oviedo e na Musikene, de San Sebastián, atuou como solista e é hoje violoncelo solista-adjunto da Oviedo Filarmonía. Marta Moldenhauer Zamora, pianista distinguida com o Prémio Muñiz Toca, foi finalista em vários concursos e é professora na Escola de Música de Piedras Blancas.

O programa abre com Haydn, cuja escrita combina equilíbrio, elegância e uma energia rítmica que ganha especial evidência no andamento final. Em Círculo, Turina acompanha as diferentes atmosferas de um dia e converte a passagem da luz numa sucessão de ambientes musicais. Dvořák encerra o concerto com o Trio «Dumky», constituído por seis momentos contrastantes, nos quais a melancolia, a dança e o impulso dramático se sucedem com enorme liberdade. As três obras revelam, deste modo, como a música de câmara pode concentrar, em poucos instrumentos, uma extraordinária amplitude emocional.

Povoamento, recursos naturais e práticas simbólicas

A atividade de património «Uma Rota Milenar: O Megalitismo na Região de Coruche», no sábado, 11 de julho, às 15h00, é guiada por Cristina Calais, arqueóloga da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, e tem como ponto de encontro a Praça de Touros, no Largo de São Pedro. Propõe uma leitura daquele vasto património a partir dos próprios lugares onde ele ainda se ergue. Mais do que construções isoladas, as antas e outros vestígios integram uma rede territorial, a partir da qual é possível compreender as relações entre povoamento, recursos naturais e práticas simbólicas.

Entre os monumentos que dão corpo à paisagem pré-histórica coruchense encontra-se o núcleo de Água Doce, formado pela Anta de Vale Beiró e pelas antas Grande e Pequena do Caminho da Fanica. Também a Herdade do Azinhal conserva um importante conjunto dolménico, no qual se destaca a Anta de Vale de Covas, amiúde referida nos estudos sobre as primeiras formas do megalitismo funerário alentejano. Estes monumentos forneceram artefactos que ajudam a reconstituir os rituais funerários e a cultura material das comunidades que habitaram a região.

A engenharia e a arquitetura ao serviço dos habitats

Na manhã de domingo, 12 de julho, às 09h30, a iniciativa «Do Arroz ao Pinhão: Em Torno da Obra de Irrigação do Vale do Sorraia (1951-2026)» propõe a leitura de uma paisagem onde a produção agrícola e os sistemas naturais se encontram muito ligados. A ação de salvaguarda da biodiversidade parte da sede da Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Sorraia, em Coruche, para uma incursão pelo Canal Grande e outros pontos emblemáticos, sob a orientação de Maria Teresa Ferreira, professora catedrática do Instituto Superior de Agronomia e diretora do Laboratório Associado TERRA, e de José Núncio, engenheiro agrónomo e diretor-delegado daquela Associação.

Concebida para ordenar a água e assegurar o regadio, a Obra do Sorraia transformou profundamente o território e criou, entre o rio e as zonas cultivadas, uma extensa superfície de transição. Nas margens dos canais, nas valas e nos terrenos adjacentes, a circulação da água favorece a multiplicidade de habitats e converte uma infraestrutura agrícola num importante foco de biodiversidade.

Entre as comunidades que aqui encontram condições favoráveis contam-se as formigas, discretas, mas determinantes na mobilização do solo, na dispersão de sementes, na decomposição da matéria orgânica e no equilíbrio das comunidades de invertebrados.

O percurso pelo Canal Grande permite observar a articulação entre engenharia, agricultura e ecologia, revelando como uma obra criada para servir a produção passou também a desempenhar funções significativas na conservação da natureza.

Após uma pausa estival, o TSS regressa ao convívio com os seus públicos no dia 12 de setembro, em Odemira, com o concerto mexicano «O Mundo, Essa Nossa Casa: Poemas Sonoros», interpretado pelo Mario Nandayapa Quartet.

 

Terras sem Sombra