Festival MED 2026 | Quando Loulé se transforma numa cidade sem fronteiras

10:08 - 25/06/2026 ENTREVISTAS
À frente da direção do Festival MED, Paulo Silva assume a responsabilidade de coordenar um dos maiores e mais prestigiados eventos culturais do país, um festival que, ao longo de mais de duas décadas, se afirmou como uma referência incontornável no panorama da música do mundo e das artes multiculturais.

Mais do que um simples certame musical, o MED transformou-se numa marca identitária de Loulé, capaz de atrair milhares de visitantes nacionais e estrangeiros, projetando o nome da cidade além-fronteiras e afirmando-a como um espaço de encontro entre culturas, tradições e linguagens artísticas.

A edição de 2026 marca uma nova etapa nesta trajetória. Sob o conceito inovador de «Cidade MED», o festival propõe uma transformação ainda mais profunda do espaço urbano, fazendo com que Loulé deixe de ser apenas o palco do evento para se tornar, ela própria, uma experiência cultural imersiva. Ruas, largos, monumentos e espaços emblemáticos do centro histórico ganham novas dinâmicas, num convite permanente à descoberta, à partilha e à celebração da diversidade.

Os preparativos decorrem há vários meses, mas é nos dias que antecedem a abertura de portas que a azáfama se intensifica. Montar um festival desta dimensão num centro histórico vivo, onde coexistem residentes, comerciantes e visitantes, exige um rigoroso trabalho de planeamento e uma delicada articulação entre todas as partes envolvidas. Ainda assim, é precisamente esta convivência entre a vida quotidiana da cidade e a energia do festival que constitui uma das suas características mais distintivas.

Entre novidades estruturantes, um cartaz internacional com artistas provenientes de 30 países, novos espaços de fruição, uma aposta reforçada na gastronomia e uma programação artística multidisciplinar, o Festival MED 2026 promete voltar a afirmar-se como uma experiência única no contexto dos festivais europeus.

Em entrevista à A Voz de Loulé, Paulo Silva fala dos desafios da organização, das novidades desta edição, da convivência entre música e outras expressões artísticas e da responsabilidade de liderar um projeto que é, simultaneamente, património cultural da cidade e uma das suas maiores montras para o mundo.

 

«Queremos que quem visite o Festival MED sinta que está a entrar numa cidade inteira transformada pela cultura»

 

A Voz do Algarve- Como tem sido a azáfama destes últimos dias de montagens? Quais são os constrangimentos de estar a montar um festival numa cidade que continua as suas vivências diárias?

Paulo Silva - Os últimos dias são sempre particularmente intensos. O Festival MED acontece num espaço singular, que é o Centro Histórico de Loulé, e isso implica um enorme exercício de equilíbrio entre a montagem de uma grande infraestrutura e a vida normal da cidade. Estamos a falar de um território habitado, com comércio, serviços, residentes e circulação diária de pessoas. O principal desafio é precisamente esse: garantir que a transformação do espaço decorre com o menor impacto possível para quem vive e trabalha aqui. Ao longo dos anos, fomos adquirindo experiência na gestão dessa convivência. Há um trabalho de planeamento que começa muitos meses antes e que envolve equipas técnicas, serviços municipais, forças de segurança, comerciantes e moradores. O objetivo é que a cidade não seja simplesmente ocupada pelo festival, mas que participe nele. O MED faz parte da identidade de Loulé e essa relação de confiança construída ao longo de duas décadas é hoje um dos seus maiores ativos.

 

V.A.- Pode falar um pouco das novidades que vão integrar a edição deste ano? Trata-se de alterações de fundo?

Todos os anos procuramos introduzir novidades, mas sem perder aquilo que constitui a essência do MED. Não acreditamos em mudanças apenas para criar efeito de novidade. Acreditamos numa evolução sustentada, que responda às expectativas do público e aos desafios contemporâneos da programação cultural. Nesta edição há um reforço de algumas áreas artísticas e uma preocupação ainda maior com a experiência global do visitante. As novidades desta edição devem ser entendidas como mais um passo na evolução natural do Festival MED. O nosso objetivo passa por continuar a aprofundar a experiência de quem nos visita e reforçar a ligação entre o festival, a cidade e a comunidade.

Nesse sentido, uma das principais apostas deste ano é o conceito de “Cidade MED”. Queremos que o festival extravase os seus limites físicos e se afirme como uma experiência urbana e cultural que envolve toda a cidade. Essa visão traduz-se também na ampliação do recinto e na criação de novas áreas de circulação e permanência para o público. Introduzimos uma nova entrada principal, junto ao Largo de São Francisco, que permitirá uma melhor distribuição dos visitantes e uma experiência mais confortável desde o primeiro momento. Ao mesmo tempo, reforçamos a integração de espaços emblemáticos da cidade, como o Mercado Municipal, que passa a assumir um papel ainda mais relevante na programação e na vivência do festival. Outra novidade importante é a criação do MED Lounge, um espaço pensado para o encontro, a partilha e a fruição do ambiente do festival para além dos concertos. Queremos que o público tenha mais oportunidades para viver o MED de forma descontraída, valorizando não apenas os espetáculos, mas também os momentos de convivência. Mantemos igualmente uma forte aposta na gastronomia que é uma das marcas identitárias do festival. Este ano reforçámos a oferta de street food e de cozinhas do mundo porque acreditamos que a descoberta cultural acontece também através dos sabores e das tradições gastronómicas.

No plano artístico, apresentamos um dos cartazes mais internacionais da história do festival, com artistas oriundos de 30 países e mais de meia centena de concertos. É uma programação que espelha a diversidade cultural que sempre definiu o MED e que reforça a sua vocação de ponte entre geografias, tradições e linguagens artísticas.

No fundo, todas estas novidades (entre muitas outras) servem um propósito comum: fazer com que quem visita o Festival MED sinta que não está apenas a entrar num recinto de concertos mas numa cidade inteira que se transforma num espaço de encontro, descoberta e celebração da diversidade.

 

V.A.- No alinhamento musical, quais são os grandes destaques?

P.S.- O MED tem uma característica muito particular: não assenta exclusivamente em grandes cabeças de cartaz. O nosso principal critério é a qualidade artística e a representatividade cultural. Procuramos construir uma viagem pelo mundo através da música, apresentando projetos que cruzam tradição e contemporaneidade, artistas consagrados como o Bonga, Asian Dub Foundation, Groundation ou Tiken Jah Fakoly e novas propostas emergentes como os Lalalar, Sarâb, Fidju Kitxora ou Omar And Eastern Power.

Naturalmente, existem nomes com maior notoriedade internacional que atraem atenção mediática, mas aquilo que mais me entusiasma é a diversidade do programa. Num mesmo dia, o público pode descobrir sonoridades africanas, mediterrânicas, latino-americanas, balcânicas ou oriundas do Médio Oriente. Essa capacidade de surpreender é uma das marcas identitárias do MED. Muitas vezes, os momentos mais memoráveis do festival acontecem precisamente em concertos de artistas que o público ainda não conhece.

 

V.A.- Como é que a música convive com todas as outras manifestações artísticas no Festival MED?

P.S.- Convive de forma absolutamente natural porque o MED nunca foi concebido como um festival exclusivamente musical. A música é o verdadeiro eixo central mas é apenas uma parte de uma experiência cultural muito mais abrangente. O que procuramos criar é uma verdadeira ocupação artística da cidade. As artes visuais, a literatura, o cinema, a gastronomia, o artesanato, as exposições, as performances de rua e as atividades para famílias contribuem para construir uma narrativa comum. O visitante não vem apenas assistir a concertos; vem percorrer ruas, descobrir espaços patrimoniais, contactar com diferentes expressões culturais e viver experiências que estimulam os seus sentidos. A cultura não se expressa apenas através da música; expressa-se também através da palavra, da imagem, do sabor, do gesto e da memória.

 

V.A.- Do ponto de vista pessoal, como está a ser esta experiência de coordenar todo o Festival?

P.S.- É uma experiência simultaneamente exigente e profundamente gratificante. Coordenar o MED significa lidar com uma enorme diversidade de dimensões: programação artística, logística, produção, comunicação, relações institucionais e, acima de tudo, gestão de equipas. É um trabalho que exige visão estratégica mas, acima de tudo, confesso, uma grande disponibilidade emocional. Ao mesmo tempo, é um privilégio participar na construção de um projeto que tem um impacto tão significativo na vida cultural da cidade e que conquistou um reconhecimento muito para além do Algarve e de Portugal. Quando vemos milhares de pessoas a ocupar o Centro Histórico, a partilhar experiências, a descobrir novas culturas e a viver a cidade de uma forma diferente, percebemos que todo este esforço faz sentido. Pessoalmente, procuro encarar esta responsabilidade com um profundo respeito pela história do festival e pelo trabalho de todas as pessoas que o tornaram possível ao longo dos anos. O MED é uma obra coletiva. O meu papel é contribuir para que continue a crescer, mantendo intactos os valores que o transformaram numa referência cultural incontornável.

 

Por: RP e ND