Estelle Revaz
Terras sem Sombra em Mértola: o encontro de Bach e Casals na arte sem par da violoncelista suíça Estelle Revaz

15:00 - 11/05/2026 ALENTEJO
Da grande música europeia aos moinhos do Guadiana, ao montado e à raça mertolenga

• Festival Terras sem Sombra apresenta em Mértola, a 16 de maio, «Pablo Casals e Johann Sebastian Bach: Diversas (Talvez Muitas) Afinidades Eletivas», pela violoncelista suíça Estelle Revaz.

• Tarde de sábado, 16 de maio, com a atividade de Património ­– «Engenhos, Memórias, Paisagens: Os Moinhos de Mértola». O património molinológico estruturou, durante séculos, a organização do território e das comunidades.

• Manhã de domingo, 17 de maio, dedicada à salvaguarda da biodiversidade: «A Raça Bovina Mertolenga: Uma Perspetiva Agroecológica». Conhecer e preservar um recurso genético adaptado ao território e um ativo económico com forte identidade regional.

 • Todas as atividades são de acesso livre e gratuito.

 

Há territórios que parecem suster o tempo, moldando-o ao seu ritmo, de acordo com a própria matriz identitária. Mértola constitui um desses lugares tocados pelo fascínio. É neste contexto que o Festival Terras sem Sombra (TSS) propõe, a 16 e 17 de maio, uma imersão em três momentos distintos, que convocam o património, a criação musical e um olhar inédito sobre a salvaguarda da biodiversidade local.

A noite de sábado, 16 de maio, pertence à sublime música de Bach e a quem a reinventou e interpreta. Na igreja matriz de Nossa Senhora Entre-as-Vinhas, a violoncelista suíça Estelle Revaz detém-se nas suites para violoncelo do compositor alemão, revisitadas à luz da herança do catalão Pablo Casals, o músico que, no século XX, devolveu estas obras ao centro da vida concertística mundial.

Antes, a tarde conduz à bacia do Guadiana, em busca dos moinhos que, durante séculos, estruturaram o território e as comunidades de Mértola. Ali se arquiteta uma paisagem construída a partir da relação entre técnica, recursos naturais e práticas sociais.

Já na vertente da salvaguarda da biodiversidade, a 17 de maio, a atividade detém-se no montado e no papel da raça bovina mertolenga enquanto elemento estruturante de um sistema agroecológico adaptado às condições do sul, onde equilíbrio ecológico, produção e identidade territorial se entrelaçam.

Na sua presença em Mértola, o TSS conta com a parceria do Município local e da Embaixada da Suíça. Sublinhe-se também o apoio sustentado da Direção-Geral das Artes, do BPI-Fundação «La Caixa» e da CCDR-Alentejo.

Do Barroco alemão à renovação interpretativa do século XX

Na noite de 16 de maio (21h30), a igreja matriz de Mértola recebe o concerto «Pablo Casals e Johann Sebastian Bach: Diversas (Talvez Muitas) Afinidades Eletivas». O monumento, de origem medieva e profundamente ligado à história rural do território, apresenta uma escala humana e uma acústica exemplar. Um ambiente propício a que a mestria da violoncelista suíça Estelle Revaz se projete com particular expressividade.

No silêncio da noite mertolense, o programa revisita a obra de Bach, sob a égide da herança interpretativa de Casals, figura decisiva na redescoberta moderna das suites para violoncelo já no século XX. Trata-se de um ponto de partida para um diálogo que alterna momentos de maior densidade expressiva com passagens mais abertas e luminosas, revelando a tectónica interna destas obras e a sua surpreendente atualidade.

Nascida em 1989, Estelle Revaz formou-se na Suíça, em França e na Alemanha, com estudos no Conservatoire de Paris e na Hochschule de Colónia. Mantém uma brilhante carreira internacional, com presença regular na Europa, Ásia, África e América do Sul, e atua em festivais como Gstaad Menuhin, Verbier, Sion e Colmar, bem como em salas como o Victoria Hall ou o Louvre. Colaborou com Gautier e Renaud Capuçon, Alexandra Conunova e Tai Murray, foi artista em residência da Orchestre de Chambre de Genève e tem desenvolvido um percurso consistente entre repertório histórico e contemporâneo.

Em 2023, foi eleita como deputada para o Conselho Nacional suíço, onde acompanha, com especial atenção, os dossiês ligados à cultura e à proteção social.

 

Conhecer o património molinológico de Mértola

A tarde de sábado, 16 de maio (15h00), propõe o roteiro «Engenhos, Memórias, Paisagens: Os Moinhos de Mértola», com ponto de encontro na Achada de São Sebastião (Parque de Estacionamento da Estrutura Residencial, Santa Casa da Misericórdia) e orientação do arquiteto e investigador Bruno Matos (BIOPOLIS-CIBIO e Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Porto). Ao longo das ribeiras afluentes do Guadiana, o património molinológico estruturou, durante séculos, a organização do território e das comunidades, exprimindo um saber-fazer intergeracional ancorado na leitura dos ciclos da água e na adaptação ao meio. Trata-se de uma paisagem cultural onde técnica, economia rural e dinâmica ecológica se articulam de forma indissociável.

No concelho, destaca-se o moinho do Alferes, na Ribeira do Vascão, ativo até à década de 1960 e hoje reconvertido para fins de sensibilização ambiental, ilustrando a transição de função destes engenhos. Já o moinho de São Miguel preserva a dimensão viva deste património, mantendo práticas artesanais de moagem e produção de pão ainda enraizadas no quotidiano local. Não faltam, de resto, outros exemplos notáveis de uma antiquíssima tradição protoindustrial.

O estudo destes moinhos inscreve-se na investigação sobre património rural e sistemas tradicionais de moagem, com contributos de José Matos Ferreira e Orlando Ribeiro. No plano local, Cláudio Torres, através do Campo Arqueológico de Mértola, enquadrou estes engenhos na longa duração histórica do território. Luís Silva e Rui Guita são os autores de obras de referência acerca destes monumentos e das famílias de moleiros que lhes deram vida.

 

Raça bovina mertolenga: um ativo económico com identidade regional

A 17 de maio (09h30), domingo, a proposta de atividade convida a uma leitura viva do montado alentejano e da sua vertente pecuária, na herdade de Casa do Coelho, em Corte do Pinto «A Raça Mertolenga: Uma Perspetiva Agroecológica». Com ponto de encontro na Junta de Freguesia de Mértola, a visita conta com a orientação de Alice Nunes, bióloga e investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa; João Madeira, engenheiro agrónomo e empresário agrícola; e José dos Santos Romana, agricultor e dirigente associativo.

Estará igualmente presente José Luís Coelho Silva, diretor de serviços de Assuntos Europeus e Relações Internacionais no Gabinete de Planeamento e Políticas do Ministério da Agricultura – elemento fundamental na articulação com a FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Recorde-se que 2026 foi designado por essa instituição, à escala mundial, como o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores.

Adaptada a condições de escassez, resistente ao calor e capaz de tirar partido de pastagens pobres, a raça bovina mertolenga contribui para a fertilidade dos solos através do pastoreio extensivo, ajuda a controlar a carga combustível e favorece a regeneração natural do coberto vegetal. É, ao mesmo tempo, um recurso genético adaptado ao território e um ativo económico com forte identidade regional.

No decurso da visita, os participantes acompanham práticas concretas de maneio no terreno, desde a gestão do pastoreio à utilização eficiente dos recursos hídricos, percebendo como ciência e conhecimento empírico se cruzam na resposta às alterações climáticas

A atividade inclui ainda uma abordagem à valorização da carne mertolenga, associada a circuitos curtos e produção sustentável, e termina com uma experiência gastronómica.

 

A programação da 22.ª edição do TSS prossegue a 30 e 31 de maio em Ribera de Arriba (Oviedo, Espanha) com um concerto entregue ao Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento, Pedro Mestre, Vicente Prado Suárez e Asociación de Intérpretes de Canción Asturiana: «Cante e Canto: Ao Encontro das Tradições Musicais do Alentejo e das Astúrias».

 

Festival Terras sem Sombra