Como um empresário holandês está a ajudar a salvar elefantes em Portugal
META: Luciano de Vries, cofundador da Casa Vista Real Estate e investidor em múltiplos sectores, é um dos primeiros doadores do santuário de elefantes Pangea, em construção no Alentejo.
Kariba tem quarenta anos e nunca pisou terra que não fosse de zoológico.
Capturada no Zimbabué em meados dos anos 1980, durante um abate governamental, passou por jardins zoológicos na Alemanha, nos Países Baixos e na Bélgica. Em breve, atravessará a Europa pela última vez, com destino ao Alentejo português.
O santuário que a espera chama-se Pangea. Ocupa 402 hectares entre Vila Viçosa e Alandroal, numa propriedade antiga de gado e eucaliptos que a organização sem fins lucrativos tem vindo a restaurar desde 2023. A primeira fase de construção, incluindo o celeiro reforçado e vedações preparadas para suportar 60 toneladas, está prestes a ser concluída. Kariba deverá ser a primeira residente.
Luciano de Vries é um dos primeiros doadores do projecto.
De Tavira ao Alentejo
O empresário holandês, cofundador da Casa Vista Real Estate e director da Bayswater Capital, vive em Tavira com a namorada e dois cães de companhia. A ligação ao bem-estar animal começou pouco depois de se mudar para o Algarve, quando notou diferenças culturais no tratamento de animais de companhia.
"Notámos, quando chegámos, que o bem-estar animal aqui é um pouco diferente. Na Holanda, penso que é o mesmo que nos EUA — os animais de estimação tornam-se parte da família. As pessoas tratam-nos muito bem. Aqui, em Portugal, são usados para guardar. Normalmente, são mantidos numa trela curta ao sol, sem água", explicou De Vries.
A observação levou-o ao Animal Rescue Algarve, um abrigo a três minutos de casa, em Loulé. De Vries não quis ficar apenas no papel de doador.
"Perguntei-lhes como poderia ajudar e, claro, era dinheiro. Mas não queria dar apenas um único dinheiro. Queria começar a trabalhar com eles para melhorar a sua operação", descreveu. Desde então, presta aconselhamento ao abrigo sobre marketing e angariação de fundos. Uma campanha natalícia na sua rede de contactos rendeu cerca de 12.000 euros.
O envolvimento vai além do dinheiro. O casal acolhe cães em regime temporário, sete só nos últimos meses, para além da família canina fixa. Na quinta onde vivem, juntaram-se ainda um pato de nome Donald e um coelho baptizado Snowball, ambos vindos de situações precárias.
Porque Elefantes
O caminho entre abrigos de cães e santuários de paquidermes percorre-se pela mesma lógica, diz De Vries: oportunidade aliada à necessidade.
"Penso que todos os animais devem ser tratados da forma mais humana", explicou. Mas reconhece gradações. Elefantes captam a atenção por motivos específicos. "Têm um nível de inteligência muito bom e são criaturas e animais realmente sociais dentro do próprio grupo", observou. Podem não procurar atenção humana como um cão, mas o sofrimento no isolamento é documentado.
Na Europa, cerca de 580 elefantes continuam a viver em cativeiro, segundo dados da Born Free Foundation. Uma parte significativa em condições aquém dos padrões modernos de bem-estar. Com a proibição de animais selvagens em circos já activa em mais de 50 países e com jardins zoológicos a abdicarem progressivamente de manter paquidermes, falta um destino para os animais que sobram.
Pangea propõe-se a preencher essa lacuna.
Kate Moore, directora-geral da organização, explicou que o terreno no Alentejo foi seleccionado após um estudo de viabilidade à escala europeia. "A topografia, colinas muito suaves que são boas para os elefantes caminharem, um habitat muito diverso e uma área privada com muita água" tornaram o local o candidato ideal.
O modelo de funcionamento evita contacto directo entre tratadores e animais, seguindo o protocolo de "contacto protegido" recomendado pelas directrizes europeias. O recinto não estará aberto a visitantes regulares. Planos para um Centro de Descoberta fora do perímetro estão em preparação.
Dinheiro, Marketing e Metros Quadrados
A participação de De Vries vai além da mera contribuição financeira. "Somos um dos primeiros doadores", notou, referindo-se ao envolvimento inicial. Está também a colaborar com a equipa do Pangea em iniciativas de angariação de fundos, desde o marketing digital até à venda simbólica de metros quadrados do santuário.
A abordagem reflecte competências aplicáveis a outros sectores. Juntamente com o parceiro de negócios Nick Houwen, De Vries gere a Casa Vista Real Estate, que desenvolve projectos em Loulé, Olhão, Silves e Ferragudo. Quem sabe promover apartamentos de luxo no Algarve a compradores americanos e norte-europeus também sabe comunicar o valor de um hectare de habitat restaurado para elefantes.
O Pangea assegurou 15 milhões de euros para um plano de construção de dez anos, segundo a Portugal Post. A primeira fase está financiada. Born Free Foundation, Fondation Brigitte Bardot, World Animal Protection e Olsen Animal Trust estão entre os apoiantes. Custos operativos cobertos até 2028 por meio de subvenções diversificadas, de fundos britânicos a programas nórdicos de rewilding.
O impacto local é concreto. A construção já absorveu pedreiros e fabricantes de vedações da região. Dez empregos permanentes estão previstos para quando os elefantes chegarem, entre tratadores, veterinários e biólogos, além de outras 30 a 50 funções indiretas no fornecimento de ração e na manutenção ambiental. Hoteleiros em Vila Viçosa antecipam turismo de investigação; professores em Borba já reservam excursões de biologia.
Onde Filantropia Encontra Negócio
De Vries não traça uma linha entre os dois mundos. A rede de contactos que construiu através de investimentos em startups e no imobiliário é a mesma que o ligou ao Pangea. "Saia apenas de casa, vá fazer networking, faça amigos. Acho que essa é realmente a maneira como obtém o máximo," aconselhou.
A alocação do capital segue uma fórmula definida: 20% a 30% para o imobiliário, percentagem equivalente para investimentos em startups, outra fatia reinvestida nas empresas existentes e 10% reservados para despesas pessoais. "Na verdade, não queremos dinheiro nas nossas contas; por isso, queremos investir tudo", explicou. O trabalho com animais mede-se pelo bem-estar, não pelo retorno financeiro.
Kariba, a elefanta que o Pakawi Park, na Bélgica, decidiu transferir para o Pangea, perdeu a companheira Jenny e vive sozinha há anos. Tommy Pasteels, diretor do parque, admitiu que a decisão foi difícil após 13 anos de convívio, mas que o isolamento se tornara insustentável.
Quando pisar o Alentejo, será o primeiro elefante a viver fora de um zoo ou de um circo em Portugal.
A equipa do Pangea já negocia a chegada de um segundo animal. De Vries, que costuma dizer que as coisas na vida chegam no momento certo, parece ter encontrado uma causa que não planeou, mas que se encaixa no padrão maior.
"Quero ajudar todos os animais, mas às vezes surge uma oportunidade: vê-se criaturas especiais com um pouco mais de sentimento, mais inteligência ou inteligência emocional, por assim dizer", disse. "E ajuda-se."