ENTRE O SER E O DEVER SER

10:00 - 15/03/2026 OPINIƃO
Por: Padre Carlos Aquino | effata_37@hotmail.com

“Se és filho de Deus…”

A consciência da filiação divina nunca foi um adorno espiritual; é um abalo sísmico na maneira como o ser humano se compreende a si mesmo. Desde as páginas do Evangelho segundo São João, que refere: “a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus”, até à reflexão ardente de Santo Agostinho de Hipona, que via o coração humano inquieto enquanto não repousa em Deus, a tradição cristã sustenta uma verdade simultaneamente consoladora e exigente: não somos órfãos no universo. Mas o que significa, em termos concretos, dizer-se filho de Deus no século XXI? Num tempo que exalta a autonomia radical e a autoconstrução permanente da identidade, a filiação divina soa quase como provocação. Se somos filhos, não somos absolutos.

Se temos um Pai, não somos a origem última de nós mesmos. A cultura contemporânea, tantas vezes moldada por uma lógica de desempenho e validação externa, hesita perante essa dependência originária. Contudo, é precisamente aqui que a filiação divina se revela libertadora. No Catecismo da Igreja Católica, afirma-se que a dignidade humana radica na vocação à comunhão com Deus. Não se trata de um título honorífico, mas de uma identidade ontológica: filho não é quem conquista um lugar, mas quem o recebe. A vida humana, vista à luz dessa pertença, deixa de ser competição e torna-se resposta. Essa resposta, porém, implica desafios reais. O primeiro é o da coerência. Se somos filhos, somos chamados a refletir traços do Pai: misericórdia, justiça, compaixão. A violência verbal nas redes sociais, a indiferença perante os descartados, a cultura do cancelamento: tudo isso contrasta com a lógica filial. Recordava-nos o Papa Francisco que “ninguém se salva sozinho”.

A filiação divina desinstala o individualismo e convoca à fraternidade concreta. O segundo desafio é o da confiança. Os filhos confiam. No entanto, a experiência do sofrimento: guerras, doenças, lutos inesperados, parece desmentir qualquer narrativa de cuidado paterno. A interrogação é legítima e antiga. O próprio Cristo, segundo aquilo que é narrado nos Evangelhos, experimenta o abandono. Aqui, a filiação divina não elimina o mistério da dor, mas transforma-o em possibilidade de relação: a oração torna-se grito, não fuga. O terceiro desafio é o da responsabilidade. Ser filho não é infantilização espiritual. Pelo contrário, é maturidade. Em termos éticos, significa agir como herdeiro de uma promessa: cuidar da criação, promover a dignidade humana, construir pontes onde outros erguem muros. A filiação não é privilégio intimista; é missão pública.

Numa sociedade que oscila entre o narcisismo e o desalento, a redescoberta da filiação divina pode ser antídoto e horizonte. Antídoto contra a solidão ontológica; horizonte porque aponta para uma plenitude que não se esgota no imediato. Talvez o maior desafio seja aceitar que a própria identidade não é obra solitária, mas dom recebido e que, ao acolhê-lo, nos tornamos verdadeiramente livres. Viverás como órfão num mundo sem sentido último, ou como filho que transforma a história a partir da confiança? A resposta não cabe apenas nas páginas de um jornal. Cabe na vida concreta, nas escolhas silenciosas, na coragem quotidiana de ser, não dono de si, mas herdeiro de uma promessa maior.