Entrevista | Mário Laginha

10:17 - 21/07/2015 LOULÉ
Mário Laginha é natural de Lisboa, mas tem em Loulé as suas raízes maternas, que permaneceram eternas nas histórias da família que ouviu contar na sua infância.

Há quatro anos, essa ligação tornou-se mais do que familiar, quando o pianista e compositor foi convidado a  tornar-se Diretor Artístico do Festival de Jazz de Loulé, que este ano realiza a sua 21.ª edição.

Mário Laginha conta como tem sido o seu percurso, ao lado da Casa da Cultura de Loulé, para manter, em tempos austeros, a qualidade daquele que é o Festival de Jazz mais antigo do País.

A Voz do ALgarve – O que significou para si o convite para ser o Diretor Artístico do Festival de Jazz de Loulé?

Mário Laginha – Foi obviamente uma honra. Fez-me também pensar se seria capaz de fazer bem o papel para o qual fui convidado e ainda se deveria ou não aceitar, porque me obriga (eticamente) a não tocar num Festival que gosto muito.

V.A. – O que tem sido feito ao longo dos últimos anos para divulgar e fazer crescer o Festival de Jazz de Loulé?

M.L. – Essa pergunta pressupõe que os festivais devem sempre crescer. É um pensamento otimista que gostaríamos todos de ter. A realidade obriga muitas vezes a que se tenha um esforço imenso para não decrescer ou até mesmo, sobreviver. Os últimos anos foram bem exemplo disso. Com a crise a ter um impacto profundo nos valores disponibilizados pela Câmara, e ainda sem mecenas que se disponibilizassem a apoiar (significativamente) a realização do Festival de Jazz de Loulé, a Casa da Cultura teve que operar verdadeiros milagres para manter o festival de pé. Os próprios músicos foram um elemento chave para a sua sobrevivência, aceitando tocar por cachets muito inferiores ao normal. Este ano, com um maior investimento da Câmara e o apoio do Montepio Geral, foi possível trazer alguns músicos que são forçosamente mais caros e alargar as iniciativas para todo o mês de julho, para tentar, precisamente, que o Festival seja parte - e não o todo – do que acontece na área do Jazz em Loulé.

V.A. – Sendo esta iniciativa organizada por uma associação, a Casa da Cultura de Loulé, como é feita a gestão e escolha dos artistas com os fundos/ apoios existentes para o evento? 

M.L. – Desde o princípio que eu deixei claro que só queria ser diretor artístico, nada mais. A Casa da Cultura faz, de forma irrepreensível (como eu sei que não conseguiria fazer) a gestão dos fundos, os contactos aos músicos e toda a produção do Festival. Eu escolho os músicos e algumas vezes tento ter influência para pedir a sua compreensão para que aceitem cachets abaixo do que seria normal. Tudo o resto é obra da Casa da Cultura de Loulé e não podia ter mais respeito por eles.

V.A. – Quais as novidades para a edição deste ano? O que nos pode dizer da seleção de artistas do cartaz?

M.L. – Acho que vai ser um ótimo festival. Falando de novidades, pensou-se que seria sensato reduzir de 3 para 2 os dias do Festival, permitindo ter mais dinheiro para pagar aos músicos e para toda a produção dos espetáculos. Também pensei que seria interessante ter um artista que não sendo da área do Jazz faz uma música tão rica e original que a torna uma influência para muitos músicos desta área. Na realidade acho que isto expõe uma realidade apaixonante na evolução do Jazz ao longo das décadas, a de ir buscar permanentemente referências a todos os cantos do mundo. Eu gostaria que isto acontecesse todos os anos.

V.A. – Sendo este o Festival de Jazz mais antigo do país, qual o impacto deste no concelho, na região e na divulgação da música Jazz?

M.L. – Outra pergunta difícil. Muitas vezes se quer ver os reflexos de determinado festival/ manifestação artística de uma forma muito clara. Raramente é. Mas eu diria que, graças ao facto de Loulé ter uma agenda cultural rica, que vai dos festivais (Med e de Jazz) a toda uma programação cultural ao longo do ano, torna a vida dos seus habitantes mais rica e diversificada e isso - acredito profundamente nisto – torna as pessoas melhores seres humanos. Mas também gostaria de dizer que um dos Diretores Artísticos anteriores a mim, o José Eduardo – que foi posteriormente sucedido por Manuel Soares – para além do seu trabalho para o Festival, criou uma escola e dinamizou o Jazz no Algarve de uma forma que eu acho admirável. Na verdade, se há agora muitos mais músicos a tocar nesta região (e há) deve-se em larga escala ao José Eduardo.

V.A. – Que tipo de público procura o Festival de Jazz de Loulé? É mais procurado por residentes ou por um leque maior de pessoas e culturas?

M.L. – Eu acho que um festival deve procurar chegar a todos e essa é a premissa do Festival de Jazz de Loulé. Claro que todos gostamos que um festival seja um sucesso de público e isso está diretamente ligado à popularidade dos músicos que cá vêm tocar. Há músicos pelos quais muita gente está disposta a fazer muitos quilómetros para assistirem a um concerto. Para dar um exemplo extremo, se contratássemos o trio do Keith Jarrett, viria seguramente gente de todo o país, bem como de Espanha. Ótimo! Mas teríamos de resolver duas “pequenas” questões. Primeiro seria necessário encontrar uma sala grande com boas condições acústicas; segundo – o seu cachet é superior a 100 mil euros.

V.A. – Este ano haverá um momento especial dedicado aos mais novos com a banda troilarÉ. Considera que o público mais novo está educado para o Jazz? Ou falta esse trabalho de sensibilização para este género musical?

M.L. – De uma maneira geral nem o público pequeno nem mesmo o adulto está muito sensibilizado para o Jazz. Em que televisão ou rádio é que temos possibilidade de o ouvir? São momentos como este que ajudam a dar a conhecer e muitas vezes a desmistificar este tipo de música.

V.A. – Que perspetivas se avistam para o futuro do Festival de Jazz de Loulé?

M.L. – Acho que depois de termos resistido a anos terríveis do ponto de vista económico estamos mais ou menos preparados para tudo. O que todos queremos, sempre, é mantê-lo com a maior qualidade possível. Esta Câmara tem mostrado uma grande preocupação não só com a manutenção, como com a qualidade deste festival. Não vejo razões para não olhar para o seu futuro com esperança.

 

Por: Nathalie Dias