Por: Miguel Peres Santos (Gestor Cultural / Historiador) – e-mail: apdsmiguel@gmail.com / Instagram: @miguelapdsantos
“Hás de florir
Enorme em festa
Brotar a revolução na alma
Sem medo
Misturares-te com tudo
E não te sentires só
Não te sentires só
Hei de florir no vento inquieto
Hei de dançar nua ao relento
Ser visões do agora eterno
Criações de hoje
No calor deste inferno (…)
Hás de florir
Inventar sonhos
Cantar sem medos
Contar segredos
Ser forte
Não ficar só na mágoa
Na água parada
O fogo pouco acesso”
Florir, Abaixo das Raízes Deste Jardim, EVAYA (2024)
Há artistas que ocupam o espaço. Há artistas que o transformam. E depois há aqueles raros que o suspendem — que criam uma espécie de intervalo invisível entre o mundo e quem escuta. EVAYA (ou Beatriz Bronze), pertence a essa última categoria. A sua música não é apenas uma sucessão de canções; é uma cartografia sensível do invisível. Um mapa feito de bruma, respiração e silêncio habitado.
Quando me aproximo da obra de EVAYA, sinto que entro num território onde o tempo desacelera. Não é um abrandamento imposto; é orgânico, quase biológico. Como se a pulsação das suas composições nos obrigasse a reencontrar o nosso próprio ritmo interno — esse que tantas vezes esquecemos na pressa do dia a dia. Há uma ética da serenidade na sua música, uma recusa do excesso, uma elegância na contenção.

Mas essa contenção não significa ausência de intensidade. Pelo contrário: é na economia que reside a sua força. EVAYA compreende que a emoção mais profunda não necessita de ornamento. Um acorde sustentado no momento certo pode dizer mais do que uma explosão sonora. Um silêncio estrategicamente colocado pode ter o peso de um grito contido.
A sua voz é o primeiro portal. Não é apenas um instrumento técnico; é matéria emocional. Há nela uma textura quase táctil, como se cada palavra fosse dita com a consciência plena do seu peso e da sua fragilidade. EVAYA não canta para impressionar — canta para revelar. E revelar implica risco. Implica aceitar que a vulnerabilidade pode ser vista. Implica confiar que o silêncio entre notas não será interpretado como ausência, mas como espaço fértil.

Ao escutá-la, sentimos que há um diálogo constante entre o interior e o exterior. A voz parece vir de dentro — mas ecoa como se atravessasse paisagens abertas. Essa dualidade cria uma sensação de amplitude emocional: somos, simultaneamente, convidados para dentro e lançados para fora.
Na paisagem musical portuguesa contemporânea, onde tantas propostas oscilam entre a urgência pop e o experimentalismo assumido, EVAYA constrói um caminho singular. O seu universo sonoro dialoga com a eletrónica subtil, com ambientes etéreos, com camadas que se sobrepõem como véus translúcidos. Não há explosão gratuita; há construção atmosférica. Cada faixa parece desenhada como um espaço arquitetónico onde a luz entra por frestas calculadas.
Há uma arquitetura invisível na sua música. Como uma casa de linhas simples, mas cuidadosamente pensadas, as suas composições assentam numa estrutura sólida. A produção revela atenção ao detalhe: reverberações discretas, texturas que surgem quase impercetíveis, harmonias que se expandem lentamente. Tudo parece respirado.
O que mais me impressiona é a coerência estética. EVAYA não se limita a produzir música — ela cria um mundo. A dimensão visual, a forma como se apresenta, a linguagem gráfica associada à sua identidade artística, tudo converge para um mesmo ponto: a construção de uma atmosfera reconhecível. Há uma assinatura que não depende de fórmulas, mas de sensibilidade.

A sua escrita é outro território a explorar. As letras de EVAYA não se entregam de imediato. Não são narrativas lineares; são fragmentos de estados emocionais. Há uma dimensão pessoal, mas nunca excessivamente expositiva. Ela sugere mais do que afirma. Trabalha com imagens, com metáforas subtis, com paisagens interiores que convidam à interpretação pessoal. E essa abertura é generosa — permite que cada ouvinte encontre o seu reflexo nas palavras.
Muitas das suas canções parecem nascer de perguntas não resolvidas. Não há conclusões definitivas. Há interrogações suspensas. E talvez seja essa suspensão que cria a ligação mais profunda com quem escuta. Porque também nós vivemos de perguntas.
Há, na sua obra, uma constante tensão entre luz e sombra. Não como oposição, mas como complementaridade. EVAYA parece compreender que a beleza nasce muitas vezes da convivência entre o que mostramos e o que guardamos. As suas canções habitam esse limiar — esse espaço onde a dor não é dramatizada, mas também não é negada. Onde a esperança não é ingénua, mas resistente.
Escutar EVAYA é aceitar um convite à introspeção. Não é música para ruído de fundo. Exige presença. Exige disponibilidade emocional. E talvez por isso seja tão necessária. Num tempo saturado de estímulos e superficialidade, a sua proposta é quase um ato de resistência estética. Há uma coragem silenciosa em optar pela delicadeza quando o mundo insiste na estridência.
Sinto que a sua música cria abrigo. Um abrigo não no sentido de fuga, mas de reencontro. Ao escutá-la, somos confrontados com partes nossas que raramente visitamos. EVAYA constrói espaços sonoros onde a fragilidade deixa de ser tabu e se transforma em linguagem. Onde a vulnerabilidade é dignificada.
A produção musical das suas canções revela um cuidado minucioso. As camadas eletrónicas são discretas, quase impercetíveis à primeira escuta, mas fundamentais na construção da atmosfera. Há uma escolha de elementos que demonstra maturidade artística. Nada parece excessivo. Cada som cumpre uma função emocional. Cada pausa tem intenção.
Essa maturidade manifesta-se também na forma como EVAYA se posiciona artisticamente. Não parece movida por tendências efémeras. A sua identidade é sólida, mas flexível. Há espaço para evolução, para experimentação, mas sem perda de coerência. É uma artista que parece escutar antes de falar — e essa escuta é refletida na forma como compõe.
Há também uma dimensão de cura na sua música. Não no sentido simplista da palavra, mas como processo. As suas canções não oferecem soluções mágicas; oferecem companhia. E a companhia, quando autêntica, pode ser profundamente transformadora. EVAYA não promete resolver dores — mas cria um espaço onde elas podem existir sem julgamento.
A presença em palco, quando observada, reforça essa dimensão imersiva. Não há teatralidade forçada; há intensidade contida. A luz, o ambiente, o modo como se move — tudo contribui para uma experiência sensorial que ultrapassa a mera audição. O concerto torna-se quase um ritual coletivo de silêncio partilhado.
E talvez seja essa a palavra-chave: ritual. A música de EVAYA convida a um tipo de escuta quase cerimonial. Há algo de sagrado — não no sentido religioso, mas no sentido de respeito pelo espaço emocional que se cria. Cada canção é um pequeno templo de som onde entramos conscientes da delicadeza do chão.
Gosto de pensar que EVAYA trabalha com matéria invisível. Trabalha com a atmosfera que a rodeia, com aquilo que não se vê, mas que se sente. Há uma dimensão quase onírica no seu universo — como se as canções fossem sonhos lúcidos onde permanecemos acordados o suficiente para sentir, mas entregues o bastante para flutuar.
O impacto da sua obra não se mede em decibéis nem em números. Mede-se na forma como fica. Na maneira como uma melodia regressa inesperadamente horas depois. Na sensação de que algo foi tocado, mesmo que não saibamos exatamente o quê. EVAYA não oferece respostas; oferece espelhos.
Ao longo do seu percurso, percebe-se uma crescente consolidação dessa linguagem própria. Há uma confiança que se afirma a cada novo projeto. Uma consciência de que a sua força reside precisamente na delicadeza. E essa consciência transforma-se em assinatura.

A sua arte é também uma afirmação de identidade num cenário cultural muitas vezes apressado. EVAYA recorda-nos que há espaço para o íntimo, para o subtil, para o não óbvio. Que a profundidade pode coexistir com a leveza.
Enquanto ouvinte — e enquanto alguém que acredita na arte como lugar de transformação — encontro em EVAYA uma espécie de bússola emocional. A sua música recorda-me que há valor na pausa, que há beleza na bruma, que há potência na suavidade. Recorda-me que o silêncio não é vazio; é espaço de possibilidade.
Num mundo cada vez mais ruidoso, EVAYA escolhe sussurrar. E paradoxalmente, é nesse sussurro que encontramos uma das vozes mais intensas da nova música portuguesa. Não pela força do grito, mas pela profundidade do eco.
Talvez a sua maior qualidade seja a capacidade de permanecer fiel a si própria. Há uma integridade na sua obra que transcende modas. EVAYA constrói lentamente, com paciência, com escuta, com respeito pelo tempo das coisas.
No final, talvez a melhor forma de definir EVAYA não seja através de géneros ou etiquetas. Talvez seja mais justo descrevê-la como uma arquiteta de atmosferas, uma guardiã da sabedoria, da beleza e da força, uma intérprete daquilo que sentimos, mas raramente nomeamos.
EVAYA não canta para preencher o espaço. Canta para o transformar.
E nesse gesto discreto — mas profundamente consciente — constrói uma obra que é, simultaneamente, neblina e farol. EVAYA, é uma voz e um sussurro delicado contra o ruído do Mundo.
EVAYA, participa na edição deste ano do Festival RTP da Canção, com o tema “Sprint”.