Reportagem | Diretora d A Voz de Loulé - 73 Anos de Voz, Verdade e Persistência

11:00 - 04/12/2025 LOULÉ
Há já algum tempo que muitos me perguntam para quando uma entrevista à minha pessoa. Até cheguei a falar com alguns colegas jornalistas que no meio de alguns risos respondiam que eu tinha um estilo muito próprio e tinham receio de perder a essência da minha personalidade.

E o tempo foi passando, senti agora que era o momento certo para parar, olhar para trás e conversar comigo própria. Sempre entrevistei os outros, ouvi tantas histórias, recolhi tantos testemunhos… e nunca tinha parado para registar o meu percurso de 15 anos neste jornal.

Pensei que poderia ter até alguma piada fazer isto como uma espécie de sessão de autoanálise. Um exercício de sinceridade. Uma forma leve – mas honesta – de revisitar o que foram estes quinze anos. E admito que, ao escrever este texto, sinto uma certa emoção que não estava à espera.

Em setembro de 2010 assumi a direção do Jornal A Voz de Loulé, atualmente o jornal regionalista em atividade mais antigo do Algarve. Já lá vão quinze anos. E como poderia eu descrever estes quinze anos à frente deste projeto que é muito mais do que um jornal?

Na altura, aceitei o desafio com um enorme sentido de responsabilidade. Conduzir o jornal mais antigo do Algarve, que cumpre agora o seu 73.º aniversário, significa carregar um legado que ultrapassa qualquer ambição individual. Passadas mais de sete décadas desde a sua fundação, e quinze anos desde que me foi confiada esta missão, sou — após o fundador, o saudoso José Maria Barros — a diretora que mais tempo permaneceu à frente deste jornal.

Não podemos comparar épocas, formas de trabalhar, nem estilos de direção. Cada tempo exige as suas ferramentas, os seus ritmos, os seus desafios. Já vai longe o ano de 1952, quando A Voz de Loulé nasceu. O seu fundador, visionário, desbravador e profundamente ligado à terra, deixou marcas que ainda hoje atravessam gerações.

Muitos dos nossos assinantes mais antigos — alguns, assinantes desde a primeira edição — continuam a visitar a redação. Entram, sentam-se, contam histórias. E quase sempre regressa a mesma imagem:

“Lembro-me tão bem do Zé Maria… a subir a Avenida com um carro de mão cheio de jornais, a bater às portas, a entregar A Voz de Loulé.”

Recordam como, nessa altura, tantos filhos tinham emigrado para “as Américas”, para a Alemanha, para França, para a Austrália e, era o Zé Maria que ia Avenida acima e insistia com os pais para se tornarem assinantes, garantindo que, através do jornal, os filhos recebiam notícias da sua terra lá longe.

“Belos tempos”, dizem, com um brilho que mistura nostalgia e gratidão.

E como esta, tantas outras histórias. Histórias que testemunham a força de um homem que acreditou no valor da informação local, no poder de unir uma comunidade dispersa pelo mundo, na importância de manter vivas as raízes através das notícias da nossa terra.

Essa visão empreendedora foi a chave para que ainda hoje tenhamos assinantes espalhados pelos quatro cantos do mundo. E não só: também em muitos pontos do nosso país há quem não queira desligar-se deste pequeno pedaço de papel que representa — para tantos — um elo afetivo, identitário e emocional com Loulé.

Ao longo da minha reflexão, dou por mim a sublinhar, vezes sem conta, o papel absolutamente fundamental dos nossos assinantes. Falo deles com a admiração que realmente merecem. Para mim, têm uma importância total. Muitos acompanham A Voz de Loulé desde a primeira edição, algo quase impensável no panorama da imprensa portuguesa. São pessoas que, ao longo de décadas, souberam reconhecer o valor de preservar um órgão de comunicação local e que nunca deixaram de nos apoiar, mesmo nos momentos mais críticos.

A todos eles deixo o meu mais profundo agradecimento. Sinto que são coautores desta história. Sem eles — sem estes leitores que acreditam na relevância de um jornal regional independente — A Voz de Loulé não estaria hoje em circulação.

 

O meu início no jornal não foi fácil. Na verdade, foi mesmo muito difícil. Encontrei um conjunto de maus hábitos profundamente enraizados. Em 2010, não havia sequer um diretor oficial, nem uma estrutura administrativa minimamente organizada. O amigo Eng.º Luís Guerreiro era a pessoa que duas vezes por mês ia à redação lia o rascunho das páginas e corrigia os erros antes de publicar. Era essa a sua função.

Cada pessoa fazia apenas o que lhe interessava, como se o jornal fosse um conjunto de ilhas sem ligação entre si.

Recordo-me bem de uma das pessoas que escrevia para o jornal entrar na redação — ainda então instalada no Centro Comercial Charlot — e, mal me viu, perguntou se eu era a nova diretora. Ao ouvir a minha confirmação, começou imediatamente a dar-me ordens, como se tivesse alguma autoridade.

Outros simplesmente entravam a gritar, a questionar porque não estava eu em casa a cuidar das minhas filhas e do meu marido, como se a minha presença ali fosse uma afronta. Já sem falar dos que diziam que dirigir um jornal era coisa de homens.

Houve dias em que apareciam pessoas que eu nem conhecia, que entravam pela redação dentro e levavam maços inteiros de jornais para oferecerem aos amigos, sem qualquer autorização. Havia ainda quem publicasse no jornal e acumulavam mais de dois anos de faturas por pagar, e por aí em diante….

 

“Ser a diretora do jornal mais antigo do Algarve obrigou-me a provar tudo duas vezes,

mas também me ensinou a caminhar com firmeza.”

 

Houve momentos em que senti que tinha de provar tudo duas vezes.

Que o meu trabalho era escrutinado com um rigor que não era igual para todos.

Que alguns não aceitavam a minha presença por preconceito, puro e duro.

Doeu.

Doeu porque era injusto.

Doeu porque, por mais profissional que seja, sou humana.

Doeu porque vinha, muitas vezes, de onde menos esperava.

Mas também me fez crescer.

Aprendi a caminhar com firmeza, mesmo quando o chão parecia inclinado.

Aprendi a ocupar o meu espaço sem pedir licença.

 

Até que um dia “subiu-me a mostarda ao nariz”. E decidi, finalmente, pôr ordem na casa.

Minha Nossa Senhora, o que é que eu fui fazer!

De um momento para o outro, passei a ser “aquela que tem cá um mau feitio”. Claro, poucos gostam de ouvir um “não”. Mas, no fundo, o que fiz foi apenas defender o jornal, garantir respeito pelo trabalho e devolver dignidade aos funcionários e a uma estrutura que estava fragilizada. Demorei cerca de três anos a cobrar todas as faturas que estavam em dívida, mas consegui cobrar todas, exceto uma, porque a empresa tinha fechado.

E hoje, olhando para trás, vejo que valeu a pena. O jornal não só sobreviveu, como recuperou credibilidade, sustentabilidade e respeito.

Ao longo dos anos A Voz de Loulé enfrentou tempestades que abalaram profundamente o setor da comunicação social. Crises económicas sucessivas, mudanças abruptas no comportamento dos leitores, a transição acelerada para o digital e, finalmente, o período mais disruptivo de todos: a pandemia do Covid-19.

“Durante a pandemia, aquele simples postigo na redação tornou-se

um abraço à distância entre nós e os nossos leitores.”

 

Foram anos marcados por incerteza constante. Mas, paradoxalmente, foram também anos de profunda aprendizagem e de reafirmação de propósito. Durante a pandemia, quando o mundo parecia suspenso e o medo ocupava cada gesto, tornou-se evidente o valor insubstituível da informação local. Enquanto tudo se transformava, A Voz de Loulé permaneceu firme. Era preciso garantir que a comunidade continuava a receber informação rigorosa, útil e, sobretudo, próxima.

Talvez o período pós crise financeira 2009, tenha sido o primeiro grande teste. A partir daí, entrou-se numa fase de quebras acentuadas na publicidade, dificuldades operacionais e a necessidade de repensar modelos de trabalho e de distribuição.

Mas nada — nada — se comparou ao impacto da Covid-19. As quebras de receita foram abruptas, muitos eventos que tradicionalmente alimentavam parte da nossa cobertura editorial foram cancelados e o jornalismo presencial tornou-se quase impossível.

 

Há memórias que me ficaram tatuadas. Umas porque doeram, outras porque ainda hoje me aquecem a alma.

Recordo, com uma nitidez quase fotográfica, o período do Covid-19. A redação silenciosa, as ruas vazias, as incertezas diárias… e aquele postigo improvisado na porta, que nos permitia continuar a receber o pagamento das assinaturas, mesmo em tempo de confinamento.

As pessoas não vinham apenas pagar. Vinham perguntar se estávamos bem. Vinham dizer-nos que precisavam de continuar a receber o jornal em casa — não só pela informação, mas pelo conforto.

Aquele postigo foi mais do que um balcão improvisado: foi um abraço à distância. E nunca esquecerei aqueles rostos, aqueles gestos silenciosos de proteção e de afeto. Foi uma época de muito carinho, muita ajuda, muitos favores, algumas pessoas com mais idade têm em nós uma mão amiga e nesse momento vinham pedir favores, recordo bem uma senhora que tinha um filho hospitalizado e tinha medo de não o voltar a ver, e fizemos uma vídeo chamada e foi de “cortar o coração”. Felizmente tudo acabou bem. Assim, tomei uma decisão clara: continuar a imprimir todas as edições que conseguíssemos. Porque sabia que, naquele momento de maior fragilidade social, abandonar a impressão do jornal seria quebrar uma confiança construída ao longo de décadas.

 

 “Um jornal impresso continua a ser um registo histórico que não se perde

na velocidade das redes sociais — é a verdade preservada no papel.”

 

Muitos me perguntam se um jornal impresso continua a ter relevância numa era dominada pelo digital?

A minha resposta é clara. Mais do que nunca. Um jornal impresso é um registo histórico. Não depende de algoritmos, não desaparece numa atualização, não se perde na velocidade das redes sociais. É consultado por professores, investigadores, historiadores, autarcas, decisores políticos e cidadãos que reconhecem no papel uma fiabilidade distinta.

As edições d’ A Voz de Loulé ao longo de 73 anos, são hoje fontes de estudo para quem investiga a história local e regional. Daqui a uns anos é na Voz de Loulé que muitos saberão, quem eram os autarcas, os presidentes de Câmara e de Junta de Freguesia, que obras fizeram, como atuaram e assim se escreve a história do nosso concelho.

A aversão à imprensa escrita deve-se, em parte, à transformação acelerada dos hábitos de consumo de informação. Vivemos num tempo em que tudo é imediato, comprimido em segundos, embalado em títulos rápidos ou notificações que surgem no telemóvel antes mesmo de termos consciência delas. Para muitos leitores, a ideia de parar, folhear um jornal e dedicar tempo à leitura tornou-se antiquado. Mas esta aversão também nasce de outros fatores: a desvalorização progressiva do trabalho jornalístico, a perceção — errada — de que a informação “gratuita” nas redes sociais substitui o rigor da imprensa, e o cansaço generalizado provocado pelo excesso de conteúdos superficiais que circulam no ambiente digital. Tudo isto criou uma distância crescente entre o público e os jornais tradicionais, que passaram a ser vistos como antigos, lentos ou desnecessários. Contudo, essa visão ignora o papel insubstituível que a imprensa escrita desempenha: o de preservar a memória, garantir profundidade, contextualizar factos e manter viva a identidade das comunidades. Costumo fazer este exercício quando alguém contradiz esta ideia; -procure nas redes sociais o que aconteceu de relevante na semana passada e depois mande-me essa informação. Claro que a resposta é que não conseguem ou é muito difícil.

O que mais me preocupa hoje é a ausência total de filtros nas redes sociais:

– qualquer opinião soa a notícia;

– qualquer boato se replica como verdade;

– qualquer indignação instantânea toma o lugar de análise e contexto.

A desinformação é hoje um vírus silencioso, e contagia sobretudo quem menos sabe defender-se dele.

Por isso insisto tanto na literacia mediática, especialmente junto dos jovens.

Porque ensinar um jovem a ler criticamente é formar um cidadão livre.

É dar-lhe autonomia.

É vaciná-lo contra a mentira.

Ao longo dos anos tem sido tanta a envolvência com as pessoas que acabei por me envolver socialmente com várias iniciativas, naquele momento tinha as ferramentas necessárias para continuar e assim foi.

 

As três campanhas de recolha de tampinhas foram, entre 2012 a 2015, talvez das iniciativas mais bonitas que alguma vez dinamizámos. Na primeira, conseguimos oferecer quatro cadeiras de rodas. Já a segunda e a terceira superaram todas as expectativas: reunimos cerca de oito toneladas de tampinhas, que foram trocadas por onze cadeiras de rodas, posteriormente oferecidas às IPSS’s em cada Junta de Freguesia.

A comunidade aderiu com um entusiasmo que ainda hoje me emociona. Famílias inteiras mobilizaram-se, escolas organizaram recolhas, associações juntaram esforços. Todos queriam participar.

Recordo, com particular ternura, um idoso que aparecia todas as semanas na redação. Chegava devagar, sorria, enfiava a mão no bolso das calças e retirava umas dez tampinhas, que depositava com cuidado em cima da secretária.

“São para ajudar”, dizia.

Oferecia-as como quem oferece um tesouro. Era um gesto pequeno na quantidade, mas imenso no significado. Um gesto genuíno, puro, de alguém que acreditava que cada tampinha contava — porque cada tampinha podia mudar uma vida. E mudou. Muitas.

Essas campanhas mostraram-me, como poucas coisas na vida, o poder transformador de uma comunidade quando esta decide unir-se em torno do bem.

Ao longo destes anos, fui criando um caminho, uma abrangência: muitos conhecidos, muitos amigos, pessoas com quem falo quase diariamente.

Os autarcas e presidentes de Junta de Freguesia, assim como as empresas e infraestruturas locais, fazem parte integrante do que publico. Não por conveniência, mas porque são atores da vida pública local. As suas decisões, projetos e testemunhos ajudam a compor o mosaico de acontecimentos que ficam registados para o futuro.

Um jornal regional é um arquivo vivo. E esse arquivo existe porque também existe colaboração institucional séria, transparente e comprometida.

O que sinto hoje, ao revisitar este percurso de 15 anos?

Sinto tudo ao mesmo tempo.

Orgulho, pela resiliência.

Cansaço, porque foi difícil.

Gratidão, porque não caminhei sozinha.

E emoção, porque percebo que estes quinze anos não foram apenas trabalho: foram vida.

É como olhar para uma longa estrada e reconhecer cada pedra que me fez tropeçar, cada mão que me levantou e cada ensinamento que me acrescentou algo de novo.

E o problema, se é que lhe podemos chamar de problema, é que tenho boa — eu diria até excelente — memória; recordo tudo com muita precisão, tanto os que comigo estiveram como os que me puxaram o tapete ou que disfarçadamente tentaram empurrar para o abismo. Sim, também esses lá estiveram.

Tenho também que dizer que, há já alguns anos, comecei a escrever um livro sobre a Voz de Loulé. Não é a história do jornal, porque reescrever a história certamente fugiria um pouco à verdade dos acontecimentos. Mas os últimos 15 anos, esses sim, têm muito conteúdo — e muito bom. Ao longo destes anos, fui escrevendo, numa espécie de diário, o que de mais relevante acontecia no jornal, assim como alguns acontecimentos diários, administrativos, sociais e políticos.

Não posso prometer datas, mas o lógico seria que, antes da celebração do 75.º aniversário, estivesse pronto. Entretanto, também tenho estado ocupada com os meus livros infantojuvenis, que retratam sempre alguma causa ou assunto pouco abordado socialmente, e está para breve o quinto livro.

O que espero para o futuro? Se algum jornalista me fizesse esta pergunta, a resposta óbvia seria: “Essa é uma boa pergunta.” Pois, depois de todas estas andanças, nem espero ter um futuro calmo, sem altos e baixos. Isso seria entrar na monotonia e perderia todo o interesse… ahahah (acreditem, estou mesmo a rir).

Mas, para o futuro, e falando d’ A Voz de Loulé, espero que continuemos a acreditar no valor do jornalismo responsável.

Que saibamos resistir ao fascínio fácil das redes sociais quando estas promovem superficialidade e confundem ruído com verdade.

Que defendamos a literacia, especialmente entre os jovens, para que cresçam com ferramentas críticas e não como consumidores passivos de desinformação.

E que mantenhamos vivo o espírito d’A Voz de Loulé: um jornal que não se dobra às modas, que se mantém fiel ao papel, à comunidade e à sua história.

O futuro será aquilo que continuarmos a construir com verdade.

Enquanto houver alguém que abra o jornal ao pequeno-almoço, enquanto houver uma criança numa escola a aprender a distinguir notícia de boato, enquanto houver uma comunidade que nos estenda a mão — continuaremos.

 

A Voz de Loulé não é apenas um jornal: é memória, é pertença e é resistência.”

 

Porque A Voz de Loulé não é apenas um jornal.

É memória.

É pertença.

É resistência.

E é, sobretudo, um compromisso com a verdade num tempo em que ela é cada vez mais preciosa.

No fim de contas, celebrar o 73.º aniversário d’A Voz de Loulé acabou por ser exatamente como tem sido a vida deste jornal: sem bolo, sem tempo para festas, com edições especiais a fechar e notícias a chegarem mais depressa do que as horas do dia permitem. A dieta ajudou a justificar a ausência de doces, mas o que realmente importa continua intacto: a vontade de trabalhar, a alegria de servir a comunidade e a certeza de que cada edição acrescenta mais uma linha à história viva do nosso concelho.

E talvez seja esse o verdadeiro final feliz: a persistência diária, silenciosa e teimosa de quem acredita que a comunicação social, feita com verdade e responsabilidade, continua a ser um dos últimos lugares onde a memória coletiva se mantém inteira.

A Voz de Loulé chega aos 73 anos como sempre viveu: de pé, em marcha, e com o coração inteiro.

 

Nathalie Dias