“O nosso trabalho maior é o de ligar, fazer as pontes dentro da nossa sociedade local”
Selma Cazes, 47 anos, é Mestre de Recursos Humanos, mãe de três filhos e entre outras coisas, é também Presidente do Rotary Club de Loulé.
Natural de Brasília (Brasil), tem nacionalidade francesa, mas vive no Concelho de Loulé há 19 anos, tempo suficiente para se sentir louletana. Durante 10 anos, foi proprietária do restaurante “Colour de France”, em Almancil, juntamente com o seu marido, Chef francês de profissão, onde iniciou a sua experiência rotária.
A Voz do Algarve – Como se tornou presidente dos Rotários?
Selma Cazes – Eu já conhecia o Rotary no Brasil, onde também é muito ativo. Depois, aqui em Portugal, durante muitos anos assisti a reuniões e festas do Rotary Club Internacional de Almancil, porque este clube nasceu dentro do meu restaurante e era lá que muitos dos encontros aconteciam. Mais tarde, quando vendi o restaurante, convidaram-me a entrar no clube, uma vez que eu já estava integrada e já trabalhava com eles, embora não fosse membro por não dispor de tempo.
Aceitei e vim para os Rotary de Loulé por uma questão de proximidade. A ideia de ser presidente surgiu mais tarde. Pouco tempo depois de eu entrar para o clube, este estava a ser reestruturado para ter um presidente novo, e a coisa surgiu. A presidência é anual, e, por isso, quase todos os membros passam pela presidência, só não passa quem não quer… então eu pensei, porque não...
V.A. – Como foi recebida pelos membros do Rotary Club de Loulé enquanto presidente?
S.C. – Foi passivo. Aliás, eu devo dizer que um dos membros fundadores, o Sr. Alberto Narciso, colocou a mão no meu ombro e disse “Querida companheira, você é presidente, seja presidente, está na hora de você dirigir o clube!”. Foi a coisa mais bonita que me aconteceu no ato da presidência. De resto, a maioria dos outros companheiros receberam-me muito bem. Quem não me conhecia ainda ficou na expetativa, a ver como era o meu posicionamento, para ver como eu agia, qual o ritmo que eu imprimia ao clube... Talvez ver se eu ia ser uma presidente de boca cheia ou se ia ser uma presidente participativa, e assim é. Eu não faço reuniões de diretoria fechada, as decisões são tomadas com o clube todo, contando com a experiência de todos os membros antes de mim. É muito importante para mim guardar a base do que é o Rotary Club de Loulé, porque o clube tem 34 anos, não fui eu que o fiz ontem. Eu só tenho esta função, outros presidentes trabalharam antes de mim, abriram as portas.
V.A. – Quantas mulheres já foram presidentes do Rotary Club de Loulé?
S.C. – Eu sou a terceira mulher presidente do Rotary Club de Loulé. A primeira foi a companheira Helena Baptista, que foi presidente duas vezes. Há cerca de três anos foi presidente a companheira Luísa Viegas, e agora eu.
V.A. – Na sua opinião, porque há tão poucas mulheres como presidentes dos Rotários?
S.C. – Em primeiro lugar porque o Rotary, antigamente, não aceitava mulheres, e isso ainda acontece nalguns clubes hoje em dia. É uma organização que foi fundada por homens, com a intenção do trabalho do homem. Mais tarde, os homens começaram a trazer as mulheres para o Rotary Club porque era necessária uma proximidade com o povo. Não se pode falar de paz, de alimentação, de crianças, sem a presença da mulher, não dá, é preciso a sensibilidade própria da mulher.
V.A. – Que balanço faz do seu ano de mandato?
S.C. – O balanço é positivo. Tem sido uma experiência boa, com uma dinâmica muito pessoal, porque cada presidente traz para o clube a sua dinâmica, embora, conservando sempre o que é Rotary. Este ano eu dei muito valor à proximidade com a sociedade, inclusive porque o nosso clube é feito por pessoas locais, é muito louletano, e eu também tinha a necessidade de me integrar mais em Loulé. A dinâmica de visitar uma IPSS a cada mês está a ser muito positiva, faz-me muito presente e permite-me falar muito no Rotary. Fiz, também, cartões-de-visita com o nome de toda a direção para mostrar a integração do clube, para poder dar às pessoas, porque queremos essa proximidade com a nossa sociedade local, o que eu acho muito importante. Estivemos envolvidos em muitas áreas, contemplamos áreas sociais, fizemos eventos simples, onde não houve arrecadação de dinheiro, mas houve divulgação; tivemos outros maiores, como a Gala de Vilamoura, onde angariámos dinheiro para a Associação Oncológica do Algarve, tivemos bem perto de tudo o que fomos convidados. Estamos mais visíveis, fizemos campanhas de proximidade, colocámos mealheiros espalhados por Loulé para as pessoas ouvirem falar de Rotary, estivemos em eventos de outros clubes. Este ano o nosso clube foi ativo, com o apoio de todos os nossos companheiros.
V.A. – Quanto termina o seu mandato?
S.C. – A Roda Rotária roda a 1 de julho, que é quando todos os presidentes mudam, inclusive o presidente internacional. A única coisa que fica é a estrutura administrativa, que não se pode perder. No dia 1 de julho, ou numa data próxima, serão transmitidas as tarefas para o novo presidente em todos os clubes, atualmente representados em 219 países. No Algarve, por exemplo, temos cerca de 10 clubes.
V.A. – Como é feita a escolha do novo presidente?
S.C. – Através de uma eleição interna, que normalmente funciona de forma passiva. Ou seja, quando o clube é pequeno, como no nosso caso que somos 25 membros, de um ano para o outro já vem sendo preparado o próximo presidente. O novo presidente cria a sua direção, constituída por vice-presidente, secretário e tesoureiro. Normalmente o próximo presidente é o vice-presidente ou o secretário. Quando as pessoas entram na direção já sabem quem, teoricamente, é o próximo presidente. Pode acontecer alguma coisa na vida da pessoa que não o permita, como aconteceu quando eu entrei, quando o secretário do ano passado não teve condições de ser o presidente este ano, mas, por norma, é sempre alguém que está por dentro, que já conhece a máquina.
V.A. – Pensa voltar a ser presidente?
S.C. – Voltar a ser presidente não me passa pela cabeça agora, até porque para que o clube se mantenha aquilo que é, é preciso mudar, haver evolução. Pessoas novas estão a entrar, existem outros cargos, outras posições dentro do clube que abrilhantam tanto como a de presidente. Eu adoraria, por exemplo, vir a ser convidada para fazer protocolo. Ou tesouraria.
Qualquer função, mesmo a minha posição de membro, é importante. Eu não sinto que deixar a presidência seja sair, eu sinto que é mesmo o sentido de rodar a roda. A integração com o novo presidente, que a partir de julho será o João Lopes Neto, o atual secretário, é total, nós temos vindo a ter reuniões de passagem de pasta, o ano dele tem vindo a ser preparado, estamos já a fazer várias coisas em conjunto.
V.A. – O que esperar do próximo ano rotário?
S.C. – O João é um rapaz novo, com perto de 40 anos, casado, com filhos, professor na Escola Secundária Laura Ayres, em Quarteira, e muito envolvido. A sua grande paixão, a sua grande bandeira são os jovens. O João quer investir na criação de um clube rotário mais jovem, o Rotaract, destinado a jovens dos 18 aos 30 anos, em Quarteira. E é possível, porque nós temos o Interact, destinado a jovens dos 12 aos 18 anos, também em Quarteira.
V.A. – Faz falta um presidente com essa preocupação com a camada mais jovem?
S.C. – Sim. Nós já tivemos um clube Rotaract e sabemos que há uma grande dificuldade em manter os jovens. Mas a grande vantagem do João é que ele trabalha na Escola Secundária, está em contacto com os jovens, tem a oportunidade de falar e dar a conhecer o Rotary.
V.A. – Numa só frase, como descreveria o que é o Rotary?
S.C. – O Rotary é a união de várias pessoas, que gostam de estar perto de outras pessoas, e que, por isso, trabalham em prol dessas outras pessoas. O lema base do Rotary é “Dar de si sem pensar em si”, pois tudo o que fazemos é 100% voluntariado. Para dar um exemplo, eu, pessoalmente, dedico cerca de duas horas diárias ao Rotary, 5 a 6 vezes por semana. Honestamente é difícil conciliar, são muitos jantares, eventos, participações… mas consegue-se.
V.A. – Como pode o Rotary ajudar a comunidade local?
S.C. – O clube faz e pode fazer muito. Muitas vezes não financeiramente, mas divulgando a causa, por exemplo. Os nossos membros são profissionais ativos, rotários intensos, e muitos de nós são membros de outras associações, o que faz com que exista uma ligação com as instituições e empresas. A nossa intenção, e o nosso trabalho maior, é o de ligar, fazer as pontes dentro da nossa sociedade local, para que as coisas aconteçam. Nós somos um meio.
V.A. – O que deve fazer uma pessoa que queira ser Rotário?
S.C. – Em primeiro lugar, entrar em contacto connosco. Depois, nós convidamos a pessoa a vir aqui, a conhecer o clube, a participar informalmente, como amigo, em pelo menos 3 ou 4 reuniões, que acontecem todas as segundas-feiras, das 21h30 às 23h00, na nossa sede. Depois pode ser convidado a ser Rotário. Mas existem várias condições para se ser Rotário. Não pode ser Rotário quem tem problemas com a justiça, nem quem é oficialmente partidário, ou extremamente religioso ou qualquer outro fundamentalismo. Claro que o membro Rotário pode ser religioso, ou o que queira, em termos pessoais, no entanto, isso não pode comprometer o clube nem a sua posição enquanto Rotário. Existem, além disso, outras formas de colaborar com o Rotary, não sendo Rotário. Dando ideias de eventos, sendo voluntário nos eventos, ajudando nas várias iniciativas…
V.A. – Os Rotários pagam uma mensalidade. A que se destina esse valor?
S.C. – Cada membro paga uma mensalidade de 27,50 euros e assume todas as suas despesas que possam surgir, tais como a deslocação, alojamentos, refeições, por exemplo. Cerca de metade desse valor mensal vai para os serviços administrativos, que trata de toda a divulgação do próprio Rotary em termos globais. Os outros 50% vão para uma “bolsa”, que poderá ser usada quando surge alguma situação urgente, alguém que precisa de ser operado, por exemplo, como já aconteceu. É um fundo de emergência. Este ano temos um fundo de 2500 euros que vai para a Serra do Caldeirão. O ano passado esse dinheiro foi para a Existir.
V.A. – Quais os critérios para que uma causa seja ajudada pelos Rotary?
S.C. – Depende essencialmente da urgência da situação… mas temos sempre o cuidado de avaliar muito bem o caso. Pesquisamos, estudamos muito bem o que pode ser feito e qual a finalidade, para, em conjunto, decidirmos de forma justa.
V.A. – Que mensagem gostaria de deixar aos louletanos?
S.C. – Venham conhecer-nos. E dirijo-me especialmente às instituições, que convido a que abram as portas ao Rotary Club, integrem o Rotary Club nos vossos eventos, deixem-nos participar, trabalhar de mãos dadas convosco… O Rotary é um meio e nós queremos estar presentes na nossa sociedade local para vos ajudar a chegar a um fim.