VERTICAL3 | Apaixonei-me pelas terças-feiras

12:00 - 09/06/2015 LOULÉ
Valdemar Cardoso explica melhor no que consiste o VERTICAL3 e o que levou uma multidão a apaixonar-se pelas terças-feiras e pela prática desportiva.

Valdemar Silva Cardoso, tem 39 anos, é natural de Coruche – Ribatejo, mas é no concelho de Loulé que reside desde a sua adolescência.

Licenciado em Gestão e Mediação Imobiliária no INUAF, trabalha no ramo imobiliário desde os 24 anos, mas esta não é a sua única paixão. Amante da prática desportiva, dá aulas num ginásio em Loulé e é, desde 25 de novembro, o mentor do projeto VERTICAL3.

A Voz do Algarve – Como surgiu o exercício físico na sua vida?

Valdemar Cardoso – Sempre gostei de exercício físico. Inclusive, durante alguns anos joguei futebol e cheguei a ser federado em Ferreiras, Albufeira… Entretanto, há cerca de 6 anos tirei a Cédula Profissional do IDP – Instituto do Desporto de Portugal, que me deu uma série de valências e que me habilita a promover aulas de exercício físico em grupo, prescrever exercício físico, fazer acompanhamento, etc.

 

V.A. – Foi desse gosto pelo desporto que surgiu a motivação para criar o projeto Vertical3?

V.C. – Também. O Vertical3 surgiu há cerca de 6 meses, quando senti alguma necessidade latente por parte das pessoas que queriam fazer exercício físico, mas não estavam agregados a nada específico, a nenhum ginásio, grupo ou associação, o que muitas vezes acaba por facilitar a desmotivação. Eu costumo dizer, “se a motivação é contagiante, a falta dela é ainda mais”. E a verdade é que em grupo a motivação é maior. Contagia. Foi isso que me levou a criar o grupo Vertical3 numa rede social, com o objetivo de contribuir para a promoção e estímulo da prática do exercício físico outdoor, e onde a principal intenção é que as pessoas se juntem e pratiquem atividade física, em grupo e ao ar livre.

 

V.A. – A quem se destina o Vertical3?

V.C. – O grupo está preparado para acolher todo o tipo de pessoas, sejam de diferentes faixas etárias, estratos sociais, raça, partido, clube, religião, ou aptidão física. Uma das minhas preocupações é que as pessoas não sintam qualquer tipo de complexos ou sentimento de inferioridade. Seja por idade, por condição física, seja pelo que for. E isso vê-se nas fotografias, onde encontramos todo o tipo de idades e silhuetas, todas elas com a sua beleza. Para lhe dar um exemplo, a pessoa mais jovem que tivemos no grupo tinha 14 anos, e a pessoa com mais idade, e que participa com regularidade, tem 84 anos e corre o percurso todo. Qualquer pessoa pode aparecer no ponto de encontro, que é sempre junto ao Monumento Duarte Pacheco, que em Loulé todos conhecem como Estátua, às terças-feiras, pelas 20h00. Não é preciso nenhuma inscrição, nem há qualquer custo, é só aparecer.

 

V.A. – Como funciona exatamente o programa de um encontro Vertical3?

V.C. – Ainda bem que pergunta, porque muitas vezes as pessoas ainda não foram por não saberem ao que vão, ou porque querem andar e acham que é para correr, ou porque querem correr e acham que é para andar… Então, o programa começa às 20h00, como referi, no Monumento Duarte Pacheco. É ai que fazemos o aquecimento no início e os alongamentos no fim. Nos primeiros 10 ou 15 minutos eu faço um pequeno briefing sobre o percurso, sobre as normas de segurança, normas de conforto, assim como os cuidados a ter durante o percurso… Após esse briefing faz-se o aquecimento em conjunto. Todos. Depois tiramos uma fotografia de grupo e saem as pessoas que vão caminhar. Quem vai correr sai um pouco mais tarde, para que os dois grupos se encontrem durante o percurso, e também porque o aquecimento da corrida é um pouco mais longo. Depois, durante o percurso, cada um segue o caminho ao seu ritmo. Há pessoas que andam, há pessoas que correm, há pessoas que andam e correm... Por norma as pessoas formam grupos conforme os seus ritmos. A vantagem de tudo isto é que fazendo em conjunto a motivação é maior. E depois há também o compromisso, todos sabem que há terça lá estaremos. A chegada acontece um pouco a conta-gotas, primeiro os que correm, depois os que andam, conforme os ritmos de cada um. Eu sou dos primeiros a chegar, porque acompanho o grupo da corrida, mas sou sempre o último a ir embora, depois de confirmar que chegou toda a gente. No final há sempre água e chá, e por vezes bolos, fruta ou algo que alguém possa ter trazido, voluntariamente, para partilhar com o grupo.

 

V.A. – Como funciona a escolhe e preparação dos percursos?

V.C. – Os percursos vão desde os 9km até ao 15/16km. Cada percurso é sempre diferente do anterior e é dado a conhecer previamente ao grupo na nossa página de facebook. A maioria dos percursos são feitos por estrada e por vezes também por estradas mais pequenas. Eu conheço todos os percursos previamente, e quando introduzimos algo novo, para que seja sempre diferente, vou reconhece-lo e marcar as zonas que ainda não estão marcadas, para depois, no briefing inicial, dar alguns conselhos e dicas sobre o percurso.

 

V.A. – Não se torna perigoso caminhar pela estrada durante a noite?

V.C. – Todo o tipo de atividade que é feita ao ar livre tem o seu grau de risco. Seja a que hora for. Todavia, nós temos a preocupação de dar indicações de segurança durante o briefing. Além disso, temos, voluntariamente, o apoio da GNR de Loulé, o que eu não posso deixar de enaltecer. A GNR coloca-se em sítios estratégicos do percurso permitindo-nos maior segurança. Nós gostamos dessa proximidade, e penso que a GNR tem tido um papel muito importante na credibilização do evento.

 

V.A. – Quantas pessoas formam o grupo de participantes?

V.C. – No total participam, alternadamente cerca de 300 pessoas. Por noite somos perto de 150 pessoas, das quais cerca de 40 a 50 pessoas são já um núcleo fixo, que está sempre presente. Cerca de 60% das pessoas são de Loulé, mas curiosamente temos também uma boa fatia de pessoas que vêm de Quarteira, Albufeira, Boliqueime, São Brás de Alportel, Faro, Olhão, e na semana passada tivemos pessoas de Tavira. E mesmo sendo de longe, algumas destas pessoas vêm já com alguma regularidade. Eu penso que o que atrai as pessoas é o facto de não haver grandes regras, não há stress, sabem que há um percurso marcado, mas que cada um faz o exercício de acordo com as capacidades que tem no momento. Claro que é difícil que, num grupo com tantas pessoas, estejam todos ao mesmo nível, mas penso que temos sabido receber e conseguido fideliza-las.

 

V.A. – Toda a gente consegue cumprir o objetivo de terminar o percurso?

V.C. – Sim, normalmente todos conseguem. E se alguém não conseguir está tudo preparado para que se possa fazer um percurso mais pequeno. As pessoas podem consultar o percurso previamente e alterá-lo à sua medida, reduzindo o número de quilómetros, por exemplo. Não há qualquer tipo de obrigatoriedade e de exigências, pelo contrário.

 

V.A. – O que o motiva a ser o líder de aproximadamente 300 pessoas? Qual o seu retorno?

V.C. – Em primeiro lugar, eu não me considero um líder. Mas acredito que possa ter algumas características que os leva a seguir-me, de certa forma… Aliás, acho que essa seria uma boa pergunta para fazer a eles. Mas gostaria que ficasse explícito e implícito, que isto não foi obra de uma só pessoa. Se na primeira semana eramos 18 pessoas, na semana seguinte vieram logo mais de 20 e depois foi logo um “boom” para os 60 e assim em diante. E seguramente isso aconteceu porque houve pessoas que motivaram outras e disseram “vem também”. Eu apenas motivei e fiz nascer o projeto. Agora o crescimento, a força que o grupo tem, a união, a solidariedade que existe e muito…isso é obra de todos. Quanto ao que recebo em retorno… essencialmente, sinto-me acarinhado dentro do grupo e essa para mim é a maior recompensa. Não há aqui valores financeiros envolvidos, nem nunca houve essa intenção. Nunca houve, não há e não vai haver.

 

V.A. – Considera que o Vertical3 é mais do que um evento para praticar desporto em grupo?

V.C. – Sim, é mais do que isso… as amizades vão surgindo, a ligação entre as pessoas. Eu tenho um orgulho tremendo nas pessoas para quem, há seis meses, era inimaginável um trote, que é uma marcha mais rápida, e hoje, algumas delas fazem o percurso na integra a correr. Assim como me orgulho muito, e têm o mesmo valor, das pessoas que vão todas as semanas e que perderam volume, que melhoraram a sua silhueta, mas acima de tudo, a sua maior conquista foi o aspeto interior, mental. Eu não quero com isto dizer que os eventos há terça-feira é o que faz mudar a vida dessas pessoas. Não. Mas ajudou. Motivou. Obviamente que não é por eu ir correr ou andar uma hora e meia à terça-feira que a minha vida muda, mas é um começo.

 

V.A. – Notam-se muitas transformações a nível físico nas pessoas que frequentam o Vertical3?

V.C. – A maior transformação que eu vejo na maioria das pessoas é mesmo a nível mental. Estão sem dúvida muito mais bonitas no interior. E essa mudança é importante. E o que eu tenho visto é que esta atividade, pelo ambiente descontraído, por ser em grupo e por ser agregador, é o ponto de partida para muita gente. Mas claro que também se notam resultados em termos físicos. Tenho lá pessoas que perderam muito peso. Há um caso de uma rapariga que perdeu 16 quilos. E outras pessoas não perderam tanto, mas nota-se a olhos vistos que têm uma silhueta muito melhor. Mas o que eu acho extraordinário é a persistência das pessoas que continuam a ir e alinham sempre que eu faço uma chamada ao grupo.

 

V.A. – Considera que existe alguma limitação para as mulheres, especialmente as mães de crianças pequenas, no que concerne a conciliar horários para a prática de atividade física em grupo? Não sente que não estão adaptadas para as mães? Qual a sua opinião.

V.C. – Eu concordo que é complicado, nas próprias terças-feiras eu sinto essa limitação por parte de algumas mães que vão com o tempo contado. Penso também que isso acontece especialmente nas cidades dos meios mais pequenos, como é Loulé e qualquer cidade do Algarve. Em Lisboa, por exemplo, os horários dos ginásios são diferentes, abrem mais cedo e fecham mais tarde. No entanto, eu sei, por experiência e pelas informações que tenho recolhido, que ao final do dia é a hora que as pessoas estão mais predispostas para fazer exercício físico. Embora, enquanto profissional, conheça várias teorias que apontam para que o ideal seja fazer exercício físico de manhã, depois de o corpo ter repousado toda a noite. Mas voltando às mães, eu considero que a mulher com filhos é tão forte e emocionalmente capaz, que mesmo tendo de abdicar de muita coisa, acaba por conseguir treinar à hora em que há oferta. E sendo uma hora por semana, às terças-feiras… acho que é algo que vale a pena insistir.

 

V.A. – Sabendo que o desporto é, de certa forma, a “moda” do momento, como imagina o futuro deste projeto?

V.C. – Eu tenho uma ideia, não sei se é uma utopia, mas gostava de levar grande parte do grupo a uma Meia-Maratona, a da Ponte Vasco da Gama ou a da Ponte 25 de Abrir, que são as mais emblemáticas. Porque, uma coisa é dizer que fiz uma caminhada de 20 km, da Tôr a Loulé, e outra completamente diferente é dizer que fiz uma Meia-Maratona (21 km). É algo que nos enche o ego, e isso também é importante. Depois, além dessa ideia, gostaria de ir um pouco mais além e diversificar um bocadinho a atividade do Vertical3, mantendo, obviamente, a mesma sobriedade, não perdendo as raízes e alicerces que foram criados até aqui. Essencialmente a ideia era ir além da caminhada/corrida. Implementando, por exemplo, outro tipo de atividade em grupo como andar de bicicleta, nadar e outros exercícios, sempre em grupo. Mas essa é uma questão que vai exigir outro tipo de organização, um clube, uma associação… logo se vê, com o tempo. A ideia é continuar a motivar as pessoas.

 

V.A. – Acha que a reação geral das pessoas a essas novas atividades seria positiva?

V.C. – Sim, eu acho que o grupo iria reagir bem a essa evolução, porque as próprias pessoas estão sempre a propor novas coisas. E penso que também alinharão nesse âmbito da evolução do exercício com outro tipo de exigência, porque se as pessoas permanecerem, com alguma regularidade, vai haver uma altura em que vão querer mais, porque têm capacidade para mais. Mas, para já, estou satisfeito com as coisas como estão, com as pessoas, com a comunidade que lá vai. Mesmo em termos de número, não há um grande desejo de crescer muito, porque depois torna-se insustentável. 150 pessoas já é uma multidão. Talvez quando fizermos um ano, possamos fazer, pontualmente, uma coisa maior, com outro patamar… mas por agora está bom assim. É assim que as pessoas se sentem bem!

 

V.A. – O que diria para motivar as pessoas, que ainda não experimentaram, a ir na próxima terça-feira a um encontro Vertical3?

V.C. – Mais do que dizer, sugiro que as pessoas visitem a nossa página no facebook e vejam as fotos do Vertical3, porque essa é, muitas vezes, a melhor forma de motivar. Lanço o repto a todas as pessoas, por mais sedentárias que sejam, mesmo que nunca tenham praticado nenhum desporto na vida, que apareçam e experimentem, sem qualquer tipo de preconceito, ou receio, porque seguramente que depois de um determinado espaço de tempo vão ver evolução. Aproveito também para recordar que não basta fazer exercício físico. Existem outros dois fatores muito importantes. A alimentação e o descanso. É importante uma boa alimentação, e isso não significa comer muito ou pouco, significa comer de forma saudável, com curtos espaços de tempo, com muita hidratação. E depois é preciso descansar. Depois de trabalhar os músculos precisam de repouso, não devemos exigir demais do corpo quando este não está em condições. Deixo o alerta. É preciso ter consciência, tudo o que é demais faz mal.

 

Por: Nathalie Dias