Futuro do ciclismo debatido em Viseu

22:04 - 06/08/2014 DESPORTO
O Solar do Vinho do Dão, em Viseu, recebeu hoje o Colóquio “O Futuro do Ciclismo Profissional”, evento em que foi apresentada a reforma do ciclismo internacional, que a União Ciclista Internacional (UCI) começa a aplicar já no próximo ano, e as implicações das mudanças para a modalidade em Portugal.

O presidente da Comissão de Estrada da UCI e da Federação Belga de Ciclismo, Tom van Damme, explicou as alterações programadas, que vão ser aplicadas gradualmente, até 2020. Já no próximo ano entra em vigor o ranking único por nações, que tem influência na forma de apuramento para os Campeonatos do Mundo e para os Jogos Olímpicos e que repõe alguma justiça, dado que todos os corredores podem pontuar em todas as provas em que participam, o que não acontecia até aqui, com os corredores do WorldTour a não somarem pontos para si e para o país nas provas do circuito europeu, por exemplo, e com os corredores das equipas de categoria Continental Profissional a não serem pontuados nas provas WorldTour, mesmo que as vencessem.

O presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo, Delmino Pereira, afirmou que uma das ambições do ciclismo português tem ser a colocação de corredores lusos na primeira divisão mundial. Para isso, referiu, “é obrigatória a participação sistemática da Seleção Nacional nas provas do circuito internacional de juniores e de sub-23, porque se não participarmos ficamos de fora da elite da formação mundial”.

O dirigente federativo lembrou que é necessário incrementar e qualificar todo o trabalho de formação dos atletas, “o que impõe o aumento do financiamento público da modalidade”. Delmino Pereira salientou que o ciclismo profissional português tem dois eventos âncora, a Volta ao Algarve, que tem prestígio internacional e atrais grandes equipas e grandes corredores, no início da época, e a Volta a Portugal, evento “que mais contribui para o desenvolvimento do ciclismo profissional português, pelo retorno que dá às equipas e aos seus patrocinadores. A Volta a Portugal deve ter um índice de qualidade desportiva média um patamar acima do nível médio das equipas nacionais”, acrescentou.

O presidente da Federação disse ainda que Portugal precisa de aumentar o número das equipas de clube para, pelo menos, oito, que as equipas continentais devem proporcionar verdadeiras condições de profissionalismo aos seus atletas e que o ciclismo português deve ambicionar ter, a médio prazo, uma equipa continental profissional. Delmino Pereira terminou a intervenção levantando o véu sobre a intenção de a Federação Portuguesa de Ciclismo estimular a criação de um programa que atraia equipas e praticantes estrangeiros a Portugal, estabelecendo o país como um destino de ciclismo, o que dinamizará o setor turístico e o ciclismo.

O antigo corredor e atual presidente da Associação de Ciclistas Profissionais, Gianni Bugno, foi outro dos intervenientes, pugnando por uma maior equidade de deveres e de regras para todos os corredores, desde das equipas continentais às WorldTour. “O passaporte biológico é uma grande conquista do ciclismo e deveria ser aplicado a todos os ciclistas”, exemplificou, enaltecendo o facto de em Portugal já ser aplicado este programa aos plantéis das equipas continentais. O italiano defendeu ainda que a igualdade de condições deve consagrar contratos profissionais com valores justos de remuneração e a reintrodução das comunicações rádio entre os diretores desportivos e os ciclistas em todas as corridas.

O diretor da Volta a Portugal, Joaquim Gomes falou sobre a prova que organiza, considerando que a Volta “foi o primeiro reality show da televisão portuguesa” e lembrando que a corrida tem condições únicas, que são elogiadas pelos diretores desportivos das equipas internacionais presentes. “A Volta a Portugal é o evento desportivo de caráter regular mais popular deste país, atraindo mais de 7 milhões de espectadores ao vivo ao longo dos percursos das suas etapas”, estimou.

O diretor do jornal A Bola, Vítor Serpa, recordou a relação intrínseca entre o ciclismo e a imprensa, frisando que o desporto profissional e a comunicação social crescem de braços dados. Considerou que não é possível o regresso ao passado, quando os três grandes clubes contribuíam para arrastar multidões e colocavam o foco mediático sobre o ciclismo, dizendo que “o caminho é a criação de ídolos, que podem substituir o que na cultura de massas nacional” é habitualmente representado pelo clubismo.

O diretor de Marketing do Comité Olímpico de Portugal, Pedro Sequeira Ribeiro, explicou que “existe uma relação direta entre a prestação desportiva e o retorno mediático” e instigou os agentes da modalidade a apresentarem estudos de retorno quando vão negociar contratos de patrocínio, explicando uma grande mais valia do ciclismo face a outras modalidades: “Os adeptos de ciclismo são aqueles que mais valorizam o apoio dos patrocinadores à sua modalidade de eleição”.

O presidente do Comité Olímpico de Portugal, José Manuel Constantino, encerrou as intervenções iniciais, pegando numa declaração de Rui Costa, em que o campeão mundial dizia que todos os corredores ambicionam estar no Tour, nos Jogos Olímpicos e no Campeonato do Mundo, para recordar “que durante muito tempo a participação nos Jogos Olímpicos não era uma prioridade para os ciclistas de topo”. José Manuel Constantino definiu o ciclismo, “a par com o atletismo, a ginástica e a natação, como uma das modalidades basilares dos Jogos Olímpicos”.

 

Por: Federação Portuguesa de Ciclismo