No distrito algarvio, é na cidade de Faro que os casos de cancro do pulmão são tratados, mais concretamente no Serviço de Pneumologia do Hospital de Faro (Centro Hospitalar do Algarve)
Dirigido desde 1999 pelo Dr. Ulisses Brito, é neste serviço que os doentes oncológicos são recebidos, seguidos e tratados. Nas palavras do especialista, a intervenção do pneumologista no tratamento do cancro do pulmão é “fundamental e decisiva”.
À semelhança dos outros tipos de cancro, “o doente oncológico pulmonar tem algumas especificidades próprias”, nomeadamente a nível da intervenção e das técnicas broncoscópicas, para além de complicações específicas do pulmão, para as quais o pneumologista está melhor preparado. Atualmente, em Portugal, perto de 80% dos casos do cancro do pulmão são tratados por pneumologistas, tendo em conta o reduzido número de especialistas em Oncologia e dado que esta patologia é “uma área com especificidades próprias”, explica o Dr. Ulisses Brito.
Apesar de se encontrar afastado dos principais centros oncológicos do país, o Serviço de Pneumologia do Hospital de Faro consegue dar reposta a cerca de 95% dos casos de cancro do pulmão. Nas palavras do seu diretor, “é preferível uma especialidade que tenha capacidade para gerir o doente ao longo da sua doença quase em absoluto”. “Tentamos ser autossuficientes”, afirmou em entrevista, “e termos recursos para tratar o doente do princípio ao fim” embora pontualmente seja necessário recorrer a outros hospitais, nomeadamente nos casos de Cirurgia Torácica e em alguns tipos de terapêutica endobronquica, como a colocação de próteses, laser, entre outros”.
Questionado sobre o futuro e a possibilidade de esses procedimentos serem possíveis de ser realizados em Faro, o Dr. Ulisses Brito explicou que “em algumas coisas, poderíamos investir mais e ter mais capacidade de resposta, mas outras são situações em que não se justifica [esse investimento] pois são relativamente mais pontuais”. No caso da Cirurgia Torácica, por exemplo, os doentes são referenciados para o Hospital Pulido Valente (Centro Hospitalar de Lisboa Norte). “Os recursos existentes em termos de Cirurgia Torácica são poucos”, nomeadamente ao nível de profissionais, para além do facto de ser necessário manter um certo nível de proficiência e, dessa forma, ser necessário um número mínimo de cirurgias. “Portanto, é preferível canalizar [os doentes] para um centro onde já têm esse know how muito mais desenvolvido e onde poderão fazer um melhor trabalho para o doente”.
Acrescentou ainda que “isso não significa que não precisemos de investir mais em determinadas coisas que são hoje fundamentais e imprescindíveis para o diagnóstico e tratamento do cancro do pulmão, mas para já ainda não tem havido capacidade económica para isso, nomeadamente a ecografia endobronquica, o que seria importante porque obviávamos a que houvesse mais uma série de doentes que tivessem de ir para Lisboa para fazer esse tipo de procedimentos”. “Temos que refazer algumas coisas e investir nessa área para conseguirmos fazer um melhor serviço”, declarou o diretor.
Uma vida dedicada ao pulmão
Nado e criado no Algarve, o Dr. Ulisses Brito é médico há 33 anos, tendo realizado a sua formação em Lisboa, inicialmente no Hospital de Santa Maria, e depois no Hospital Pulido Valente, onde fez o internato geral e da especialidade. Foi neste Hospital que contactou com a área da Pneumologia, onde viria a fazer carreira. Nessa altura, começou a interessar-se pelas técnicas e cuidados intensivos, vertentes que continuou a desenvolver quando regressou, em 1993, ao Algarve.
O serviço de Pneumologia algarvio tinha à data apenas um especialista, “que se dedicava às coisas básicas da área”. Com o Dr. Ulisses, entraram também outros dois colegas, e juntos começaram o percurso de desenvolvimento do serviço. “Foi toda uma evolução, uma subida a pulso do serviço, ou seja, estávamos em São Brás de Alportel, tínhamos os doentes internados lá, começámos a vir para Faro fazer as consultas, as técnicas (…) Depois começamos com a função respiratória, o pletismógrafo”, batalhas que foram travando com o objetivo de dar a melhor resposta possível aos cidadãos algarvios. “Entretanto, fomos para o Centro de Saúde Mental com os doentes internados, e em 2011 viemos de lá para este serviço”. O serviço continuou a ganhar novas valências, nomeadamente na Oncologia Pneumológica, Consulta de Sono, Consulta de Desabituação Tabágica e outros. A partir de 1995, o serviço “começou a ter idoneidade formativa e a formar especialistas Temos formado desde então cerca de um especialista por ano. Neste momento, somos 10 especialistas”, referiu o médico.
A formação é de resto uma faceta explorada pelo serviço. Sempre que solicitado, o Hospital procura colaborar com a comunidade algarvia, em iniciativas de sensibilização para a área da saúde respiratória. Já para a comunidade médica, o Hospital organiza anualmente umas jornadas científicas de Pneumologia, que vão já na sua 8.ª edição. Dirigidas à medicina geral e familiar do Algarve, têm como objetivo a formação de médicos de outras especialidades, nomeadamente Medicina Geral e Familiar, Medicina Interna e Internato do Ano Comum. Estas são também uma forma “de nos conhecerem melhor” e facilitar os contactos entre os profissionais da região.
O diretor do serviço de Pneumologia olha com orgulho para o caminho traçado por si e pelos seus colegas no que toca à evolução do serviço. No entanto, o futuro ainda tem muitas lutas para serem travadas. “Precisamos de mais dinheiro para investir, sobretudo em equipamento e em instalações” melhores. O diretor explicou que o serviço foi o último a chegar ao Centro Hospitalar, razão pela qual está dividido, com as várias valências colocadas em diferentes locais. Ainda assim, em 2016 será estreado um laboratório de sono. Os recursos, quer materiais quer humanos, vão aumentando, tudo em prol de um melhor serviço prestado aos doentes.
A resposta do serviço de Pneumologia à doença oncológica
Tal como as outras áreas do serviço, a Oncologia foi crescendo à medida que as necessidades iam surgindo. Face a essas mesmas necessidades, o Dr. Ulisses Brito passou também a dedicar-se a esta área, contando já com quase 20 anos de experiência.
Conforme explicou o especialista, o doente com cancro do pulmão é tratado no Hospital de Faro pelos médicos pneumologistas, no serviço de Oncologia. “As consultas são feitas normalmente na Oncologia por nós, em horários definidos, e até agora temos conseguido coordenar”. “Temos uma Consulta de Decisão, com Oncologia, Pneumologia e Radioterapia - vem um colega do Porto de Radioterapia, semanalmente. Quando precisamos de apoio pedimos apoio à Anatomia Patológica e à Radiologia.” Nos casos em que é necessário Cirurgia, a referenciação é feita para o Hospital Pulido Valente, em Lisboa. “Por vários aspetos, por um lado na rede de referenciação é o Centro Hospitalar Lisboa Norte, e a maior parte de nós viemos de lá. Os mais velhos deste serviço foram todos formados lá e portanto temos uma facilidade de contacto com as pessoas. Felizmente, temos uma boa acessibilidade e boa resposta com o Hospital Pulido Valente”, explicou o diretor do serviço.
Para além da vertente terapêutica, o Hospital de Faro procura apoiar os doentes a nível psicológico. “Temos consulta de psicologia oncológica, com uma psicóloga praticamente 100% dedicada e disponível para quando os doentes precisam” Além disso, existem os cuidados paliativos. O Dr. Ulisses Brito entende que o Hospital deveria ter uma equipa especialmente dedicada a cuidados paliativos domiciliários, algo que já existe no ACES Sotavento. “Pois no fundo permite que as pessoas possam estar em casa, no seu ambiente, a receber cuidados e esperar no fim de vida numa situação familiar e muito mais tranquila que no Hospital.”
O doente oncológico está cada vez mais informado
Relativamente ao tabaco, um dos principais fatores de risco do cancro do pulmão, o Hospital disponibiliza aos doentes uma Consulta de Desabituação Tabágica, cujos resultados são “relativamente bons dentro daquilo que é expectável”. Esta Consulta tem uma taxa de sucesso de cerca de 30%. Mas de acordo com o Dr. Ulisses Brito, é notável um maior número de casos de cancro do pulmão em fumadores passivos. “Aqui há uns anos, aquilo que as estatísticas diziam é que 85% dos doentes que tinham cancro do pulmão eram fumadores. Hoje, anda há volta de 75%. Ou seja, se antes eram 15% não fumadores, agora há 25%.” A par desta tendência, o Dr. Ulisses refere também que há cada vez mais mulheres a ter esta patologia. O especialista explica que tal se deve não só ao tabaco, mas também à extensão da vida, a poluição das cidades, as modificações genéticas que são feitas nos alimentos, entre outros fatores. “É evidente que fumadores passivos somos todos um pouco. É difícil quantificar a carga de tabaco numa pessoa que é um fumador passivo”, declarou o especialista. “Depois também tem a ver com o facto de as pessoas viverem mais anos e portanto há um probabilidade de terem um cancro do pulmão maior, comparativamente com há 30 ou 40 anos. Segundo dizem também as estatísticas, em 2030, uma em cada três pessoas a nível mundial vão ter um cancro, em qualquer sítio”.
Em relação ao diagnóstico do cancro do pulmão, o mesmo continua a ser feito num estadio avançado. “Não há nenhum método de rastreio de cancro do pulmão que seja eficaz. Quando chegam ao médico, já são situações relativamente evoluídas. Cerca de 60% ou 70% são casos de estadio 3-B ou 4, ou seja, casos avançados”, indicou o médico. No entanto, a sua visão é otimista. “Cada vez mais há mais disponibilidade de terapêuticas, maiores e melhores, e a sobrevida dos doentes tem aumentado significativamente. Enquanto aqui há uns anos, na década de 80, se discutia se se devia fazer quimioterapia ou não, isso agora já está ultrapassado. Enquanto aqui há uns anos se falava em alguma quimioterapia paliativa, hoje existem tratamentos dirigidos para determinados tipos de tumores. Agora estamos na era das vacinas, na estimulação de anticorpos para combater os tumores”, fatores que têm levado a que o doente de cancro do pulmão em estadio avançado ganhe mais meses de vida.
O Dr. Ulisses Brito acredita mesmo que o paradigma do tratamento do cancro possa vir a ser modificado. “Tem havido uma enorme evolução nesse sentido. Há uma quantidade de investigação em curso e coisas que ainda não estão aprovadas e que nos levam a ter esperança no futuro. Não digo a curar a doença mas, no fundo, fazer-se o mesmo que no caso da SIDA, torna-la numa doença crónica, controlada”.
Por seu lado, os doentes aparecem cada vez mais informados sobre o que se passa e quais as propostas terapêuticas. “É evidente que não tem capacidade técnica para julgar, mas têm capacidade para decidir e são chamados a decidir”, afirmou o médico. “Temos ainda outra coisa que é o Dr. Google, onde as pessoas procuram e trazem as suas dúvidas. Cada vez mais as pessoas querem saber e nós temos que informar. Até porque é fundamental numa doença como esta que o doente e também a família estejam conscientes do que é que se passa, que tipo de doença é, o que é que se pretende e o que se espera dos tratamentos, para que perceba e possa também colaborar”.
Por: Newsfarma