Deodato João e Francisco André
Está a chegar a 49.ª edição da Festa da Espiga

13:36 - 27/04/2016 LOULÉ
A freguesia de Salir recebe anualmente a Festa da Espiga, um dos maiores eventos turísticos e etnográficos da região algarvia, que atrai milhares de pessoas, portuguesas e estrangeiras. Nos próximos dias 5, 6 e 7 de maio, a Festa da Espiga regressa a Salir e este ano com algumas novidades.

História e Origem da Festa da Espiga

O Dia da Espiga é comemorado essencialmente na zona sul de Portugal e marca o início da época das colheitas. Neste dia, a tradição manda que as pessoas se desloquem aos campos para apanhar espiga de trigo e outras flores silvestres, de modo a fazer ramos que simbolizam a fecundidade da terra e a alegria de viver. O ramo pendura-se dentro de casa e conserva-se durante um ano, até ser trocado pela espiga do ano seguinte.

Acredita-se que este costume tenha raízes num antigo ritual cristão que consistia na bênção dos primeiros frutos, porém as suas características fazem prever que terá origens mais remotas, em antigas tradições pagãs associadas às festas em honra da deusa Flora, que ocorriam também por esta altura.

A Festa Espiga de Salir, que celebra este ritual até aos dias de hoje, teve a sua primeira edição a 23 de maio de 1968, organizada pelo Presidente da Junta de Freguesia José Viegas Gregório, uma das figuras mais emblemáticas da região. Todos os anos, milhares de pessoas deslocam-se a Salir para apreciar o artesanato, a gastronomia, o folclore, a etnografia e a poesia popular. Graças à notoriedade alcançada pelo evento, a Câmara Municipal de Loulé decidiu passar a comemorar o Dia do Município na Quinta-Feira da Espiga.

 

O passado da região representado no desfile

Desde 1968 que um dos traços característicos da Festa da Espiga é o desfile etnográfico que percorre a principal rua da vila. O desfile é composto por carros que representam as principais atividades do mundo rural e que são geralmente decorados por diferentes localidades da região.

Nos últimos anos, tem sido possível aumentar o número de carros que compõem este desfile, como confirma Deodato João, Presidente da Junta de Freguesia de Salir: “Conseguimos, desde 2010, trazer um número significativo de carros de todos os sítios da freguesia. Antes da comissão organizadora liderada pelo Francisco André ser constituída, o número de carros não chegava a uma dezena”. Este ano, estão confirmados 21 carros e cada um desenvolve uma atividade distinta, com os elementos trajados a rigor.

 

Comissão Organizadora

Para que o crescimento desta festa fosse possível, foi necessário ter uma equipa dedicada à organização do mesmo. A comissão organizadora é liderada por Francisco André, natural da freguesia e presidente do Grupo Etnográfico da Serra do Caldeirão, e é constituída por nove pessoas, todas elas com ligações a Salir.  “Começamos a organizar a festa cerca de três meses antes e reunimo-nos periodicamente. Cada membro da organização tem uma tarefa específica, por exemplo, uma pessoa é responsável pela Festa das Espiguinhas, outra pela organização do passeio pedestre, outra fica responsável pelo artesanato, etc.”, explica Francisco André.

Os membros desta comissão são voluntários, não recebendo qualquer pagamento pelos serviços prestados e por isso Deodato João reconhece e agradece a generosidade destas pessoas. “Algumas delas até tiram alguns dias de férias nesta altura para se dedicaram à Festa da Espiga e para que tudo corra pelo melhor”, diz.

 

Envolver a comunidade

Organizada pela Junta de Freguesia de Salir e por uma comissão organizadora, a Festa da Espiga de Salir é feita também pela população. “Há cerca de 250 pessoas envolvidas na Festa da Espiga, todos voluntários. É uma festa do povo e para o povo”, refere Deodato João.

Sobre o envolvimento das várias localidades da freguesia e de quem as representa, Francisco André explica “é a própria localidade que decide quem vai em cima do carro. Fazemos uma reunião com os representantes de cada sítio e decidimos quais os temas que cada um irá representar, para não haver temas repetidos e se conseguir abranger o máximo de temáticas possível“, esclarece. No entanto, aqueles que dão a cara durante o desfile não são os únicos a envolver-se na organização da festa, pois há também outros que trabalham de forma a tornar este evento possível, como é o caso daqueles que emprestam os tratores ou tratam da decoração dos mesmos.

Este ano, por iniciativa do Presidente da Junta de Freguesia da Salir, também são convidados a participar os elementos mais novos e mais velhos da freguesia. “Lembrei-me de convidar os centros comunitários, para representarem alguma atividade agrícola, e as crianças, nomeadamente através da Escola Básica Integrada de Salir/“Escola Básica Prof. Sebastião Teixeira”.

. Neste momento, estamos a trabalhar no sentido de mostrar como era a escola antigamente, o que no fundo é pedagógico para as crianças”, conta Deodato João. Por esse motivo, foram organizados workshops, que serão orientados pelos mais velhos, de modo a transmitir os costumes de antigamente. Para Francisco André, esta interação entre idosos e crianças é particularmente importante pois o objetivo é “fazer uma ponte entre as crianças e as tradições, levar o espírito da festa até aos mais novos, pois eles são o futuro da Festa da Espiga”.

O agradecimento a todos aqueles que direta ou indiretamente ajudam na realização deste evento é feito através de um jantar convívio, oferecido pela Junta de Freguesia de Salir.

 

Dar voz ao povo

Uma das características da Festa da Espiga é o seu caracter reivindicativo. Desde cedo que a população deixa mensagens em forma de poema ou quadra, que pode ser preparada ou dita de improviso, às entidades presentes para pedir ou reivindicar por melhores condições na sua localidade. Em particular no início desta festa, em 1968, havia censura política e por isso só nestas ocasiões era possível à população reivindicar, em forma de prosa e poesia.

De acordo com Deodato João, as reivindicações têm vindo a diminuir, “o que é sinal de que as pessoas estão satisfeitas. Hoje em dia, aquilo que era habitual, como pedir o arranjo de um caminho, estrada ou água, já não se justifica e as grandes necessidades são mesmo dentro da vila, como o saneamento básico”.

“A verdade é que nos últimos dois ou três anos temos verificado que já não há tantos pedidos mas sim mais agradecimentos pelo que foi feito”, reforça Francisco André, que diz ainda que é dada total liberdade às pessoas para exporem as suas queixas. “Nós fazemos questão que se mantenha esta tradição, pois esta é também a essência da festa”, diz.

 

Festa das Espiguinhas

Neste evento, os mais novos não são esquecidos e este ano, tal como já tem acontecido nas últimas edições, a tarde de sábado será dedicada aos “espiguinhas”. Para além dos habituais insufláveis e diversões, a organização tem também para o dia 7 de maio o Torneio de Futebol “Os Espiguinhas”, com 8 equipas de 2009 e 2010, que jogam entre si. Uma novidade que surgiu o ano passado aquando da mudança da Festa dos «Espiguinhas» para o campo desportivo, que se mostrou “um espaço aprazível quer para os pais quer para as crianças”, afirma o Presidente da Junta de Freguesia de Salir.

Com cerca de 250 crianças a participar, a entrada é totalmente gratuita e inclui a oferta de uma t-shirt a cada criança.

 

Turistas também são público-alvo

Sendo o turismo de natureza um fenómeno em expansão, são muitos os turistas que escolhem o interior algarvio para passar férias e a organização da Festa da Espiga, um dos maiores eventos do interior algarvio, está atenta a isso. “Esta é uma festa que já faz parte do cartaz turístico algarvio e nós tentamos que tenha um futuro mais ligado para o turismo. Tem potencialidades para isso, mostra aquilo que foi a nossa atividade agrícola e a nossa tradição e costumes”, refere Deodato João.

Para Francisco André, a necessidade de captar os turistas é também essencial devido à data de realização da festa: “Estamos muito limitados a nível de público, porque a festa acontece num dia de semana e num feriado que não é nacional, abrangendo principalmente o Concelho de Loulé. Por isso, temos tentado nos últimos anos, e vamos tentar novamente este ano, atingir a comunidade estrangeira que está cá de férias. Cada vez mais, o turista que chega gosta de conhecer não só o sol, mar e praia, mas também o interior, as tradições, usos e costumes”.

 

Cartaz para 2016

A programação da Festa da Espiga divide-se entre a Noite da Espiga (dia 5), Noite Popular (dia 6) e Noite Jovem (dia 7). Pelo palco vão passar conhecidos nomes da música regional e nacional, de diferentes estilos e géneros musicais.

Na primeira noite, 6 de maio, os NÉMANUS são a principal atração. Naturais de Peniche, os dois irmãos editaram em 2013 o seu primeiro álbum que reúne alguns dos seus maiores sucessos, como é o caso de “Dançando kizomba”, “Paz Pás Funaná”, “Aiué do Roça roça”, “Funaná contigo”, “Némanus kuduro” e “Cachupa com Berimbau”. A noite de quinta-feira é ainda marcada pelo baile com Ruben Filipe.

Sexta-feira é o dia do folclore. Desde o ano passado que a Festa da Espiga é palco do Encontro de Folclore, que tem como objetivo reunir grupos etnográficos que representem a cultura e a tradição do Algarve e de outras regiões do país. “A freguesia de Salir tem dois grupos no ativo, mas a verdade é que, mesmo na sede da freguesia, poucas vezes há folclore. Então, no ano passado, o nosso Presidente teve esta ideia, que eu desde logo encabecei, e correu muito bem”, afirma Francisco André. O salirense Gonçalo Tardão será o responsável pelo baile que se seguirá ao Encontro de Folclore.

A principal atração deste cartaz, Diogo Piçarra, marca presença na Festa da Espiga no sábado, último dia. O artista algarvio ganhou reconhecimento nacional nos últimos anos depois da participação no programa de televisão “Ídolos”, do qual saiu vencedor. No ano passado lançou o álbum “Espelho”, do qual fazem parte músicas como “Tu e Eu” e “Verdadeiro”. A Noite Jovem conta ainda com o contributo de Nanook, Back to the Sixties e DJ Rodriguez.

Deodato João reconhece que há muito “regateio” da organização junto dos artistas, no sentido de os convencer a participar. “Não é fácil dado a sua qualidade e os valores que nós temos disponíveis”, adianta.

 

Por ND