Dêem-lhe o que for para a mão e qualquer ideia para explorar porque é destes desafios que Rui Basílio gosta e faz nascer arte.
Um acidente com um veículo passou-lhe diante dos olhos. Começou por certificar-se de que estava tudo bem com as pessoas envolvidas e, depois de o confirmar, não pôde deixar de reparar na forma como o vidro se estilhaçou. “Isto deixa aqui uma configuração interessante de se observar”, pensou Rui Basílio. Foi a ponte para que logo de seguida surgisse outra ideia: “Se eu olhar para isto de uma forma mais séria, eu consigo trabalhar um vidro de modo a que surja daqui uma imagem”. E é neste tipo de observação do que o rodeia que o artista português vê potencialidade, recusando a ideia de que cada objeto está condenado apenas à função para a qual foi concebido.
“Um chão de cimento é seco, mas se eu deixar cair um copo de água aquilo faz um contraste, faz uma gota de água gigante, escura e clara, e porque é que isto não pode ser um método de eu comunicar? Porque é que eu não coloco este movimento banal do dia-a-dia, que é quando começa a chover, e o coloco numa tela? Não é super diferente, mas é diferente a forma como observamos as coisas”, destaca em entrevista ao idealista/news o designer industrial que trabalhou nos moldes antes de poder dedicar-se à arte a tempo inteiro.
Basílio - que em 2019 venceu o prémio de Arte Urbana promovido pela BMW - cansa-se daquilo que é rotineiro, e mesmo antes de afirmá-lo em voz-alta, o seu currículo antecipa-se. Embora queira criar uma identidade, esforça-se também por variar técnicas e materiais nas suas diferentes intervenções. As suas obras incluem pinturas, murais e projetos de design de interiores que visam desafiar as fronteiras da criatividade e da autodescoberta.
O último projeto do alentejano de nascimento, que cresceu e se formou no Oeste, projetou-o novamente para fora de pé, quando Daniel Galrão, Diretor Comercial da Galrão Renováveis, propôs-lhe fazer arte num painel solar que já não funcionava para um torneio de padel.
A única coisa de que Rui tinha a certeza era de que nunca tinha trabalhado com este material mas, com uma picadeira e rebarbadora, o artista português pôs mãos à obra e ao idealista/news contou como foi o processo.
Nasceu como painel solar e transformou-se numa obra de arte às mãos de Basílio
Com a música do rapper português Dillaz a ecoar no fundo, Rui Basílio, agarrou na picadeira e rebarbadora. De seguida, começou as marteladas e os cortes para no fim fazer surgir a figura de um atleta com uma raquete em punho.
O objetivo era deixar a peça de fácil interpretação “tendo em conta que aquilo não era destinado a um museu, mas para que todo o ser humano comum conseguisse olhar, perceber e ter curiosidade de observar mais de perto”, disse.
Não era a primeira vez que Basílio trabalhava com vidro duplo laminado, pelo que sabia minimamente como é que o material iria comportar-se, mas era sim a primeira vez que trabalhava em cima de um painel solar.
“Sei que o vidro estala mas não se desfragmenta todo. Dou-lhe um toque e abre uma fissura branca e depois, em função dessas múltiplas fissuras brancas, vou construir alguma coisa”.
Ainda assim, confessou que aquilo que era o seu maior medo, revelou-se a maior surpresa: “no final de todo o picar, depois de partir tantos pedaços de vidro e de ter sido tão massacrado, o painel conseguiu ter a capacidade de aguentar-se em pé”.
As mãos e os rostos foram deixados para o fim, conta o artista, precisamente para ganhar confiança com o material. Estes são os sítios que considera “mais críticos” em função dos detalhes.
Apesar de já se ter conformado que não terá o controlo das coisas, acredita que poderá, no entanto, desdobrar-se em soluções. Inclusive, é o facto de estar constantemente a pôr-se à prova que faz com que, embora não se especialize em determinada técnica, ganhe ferramentas para contornar os erros.
E quando eles acontecem? O Rui Basílio responde entre risos: “Ainda bem que não trabalho com saúde. Se eu errar, o mundo não acaba”.
Porque domina martelos, enxadas, rebarbadoras, berbequins e picadoras?
Em bom português, costuma-se dizer “quem não tem cão, caça com gato” e foi assim que a versatilidade acabou por ir moldando o percurso artístico de Basílio.
“Irritava-me, antigamente, que o meu pai não tivesse uma caixa de ferramentas em casa para eu poder apertar uma mesa ou desapertar um parafuso, porque tinha que usar uma faca ou qualquer outra coisa”, conta em retrospetiva ao idealista/news.
“Mas hoje em dia vejo que, sem querer, trouxe-me habilidade ou vontade de ter que resolver. Consigo desenrascar-me com qualquer ferramenta, com qualquer material e criar qualquer coisa, não me deixo ir abaixo com 20 ou 30 problemas que apareçam num projeto”, rematou.
Daí que consiga transformar em arte o que quer que esteja à mão de semear. Mas demorou até lhe dar completa atenção.
Rui Basílio quer ser um exemplo de força aos que querem começar na arte
É preciso coragem, mas sobretudo muita vontade para transformar aquilo que é um hobbie, naquilo que passa a ser o sustento de vida.
Se falássemos com Rui há cinco anos a sua realidade era diferente. Fazia trabalhos para amigos que queriam oferecer presentes a familiares em datas comemorativas, e era só quando chegava a casa, depois de passar o dia a trabalhar numa empresa de moldes, que se devolvia ao desenho.
Uma oportunidade aqui e ali que foram surgindo, levantaram a possibilidade de mudar o rumo e dar finalmente atenção às aspirações que sempre andaram lado a lado, mas que ia empurrando para segundo plano.
Pediu diversas opiniões, com a maioria a defender que deveria era deixar-se ficar quieto e contentar-se com o trabalho garantido que tinha perto de casa. Mas foi a mãe, pouco entendedora de arte, que o incentivou e lhe atirou: “oh filho, faz aquilo que achas que tens de fazer, se vires que consegues, tudo bem”. E Rui seguiu-lhe o conselho.
“Os primeiros tempos são muito difíceis, é preciso uma parte emocional muito lutadora”, começou por dizer. “Eu não me importava de estar 10h, 12h, 13h a trabalhar. Trabalhava das 6h da manhã às 14h da tarde na empresa durante os últimos 6 meses, e depois fazia das 15h da tarde até à meia-noite a parte artística para conseguir dar o passo seguinte”, revelou.
“Se não existir essa vontade, ambição, a garra e o espírito de sacrifício, vai ser impossível dar os primeiros passos na arte em Portugal”
Hoje Rui fala com os olhos postos no futuro, espera que a filha, atualmente com quatro anos, daqui a uns tempos olhe para os seus trabalhos e diga aos amigos “foi o meu pai que fez esta coisa e está engraçada, olha aqui”.
Mas acima de tudo, ambiciona afirmar-se como uma das referências portuguesas, não só pelo seu trabalho, mas também pela sua mentalidade, “para poder de alguma forma, motivar outros que estão a querer começar”.
Olhando para trás, ri-se e comenta: “a minha mãe na altura quando me disse aquilo nem tinha bem noção do que era isto, ainda não tem. Mas sente-se orgulhosa, porque principalmente estou feliz dentro daquilo que faço”. O que prova que Rui, apaixonado por arte desde criança, fez a escolha certa.
Idealista News