Critérios de concessão de créditos habitação mais apertados na zona euro. Em Portugal, não se esperam alterações.
As recentes subidas dos juros e o contexto de incerteza gerado pelo conflito no Médio Oriente poderão arrefecer a procura por crédito habitação em Portugal e na Europa já no segundo trimestre de 2026. E os bancos europeus tendem a ser mais prudentes na concessão de novos empréstimos da casa, apertando os critérios de concessão. Já no mercado português não se antecipa um aperto generalizado destes critérios pela banca, pelo menos, no curto prazo.
Na Europa, os primeiros impactos da guerra no Irão no mercado hipotecário já começaram a ser sentidos no início de 2026. “A procura de crédito habitação manteve-se inalterada (percentagem líquida de 0%), abaixo das expectativas dos bancos no trimestre anterior (3%). A deterioração da confiança dos consumidores e a evolução das taxas de juro [devido ao conflito] contribuíram negativamente para a procura de crédito habitação”, revela o mais recente inquérito às instituições financeiras do Banco Central Europeu (BCE).
Já em Portugal a procura por crédito habitação aumentou no primeiro trimestre de 2026. “Na habitação, o regime regulamentar e fiscal do mercado da habitação e, em menor grau, as perspetivas do mercado da habitação, incluindo a expetativa de evolução de preços, contribuíram para o aumento da procura de empréstimos”, lê-se no inquérito bancário levado a cabo pelo Banco de Portugal (BdP).
Daqui em diante, são esperadas contrações desta procura. “No segundo trimestre de 2026, os bancos esperam novas quedas na procura por financiamento imobiliário (-20%)”, antecipa o BCE. E o regulador português diz que haverá uma “diminuição da procura (…), em particular para habitação”. Mas será que vai ser substancial?
Gonçalo Nascimento Rodrigues, especialista em finanças imobiliárias, não antecipa “uma queda abrupta da procura de crédito habitação em Portugal em linha com uma eventual tendência de maior prudência na zona euro. Poderá haver alguma normalização ou abrandamento face ao ritmo forte de 2024 e 2025, mas os fundamentos nacionais continuam a sustentar a procura: preços elevados, falta de oferta, necessidade de compra por parte das famílias, descida das taxas e medidas dirigidas aos jovens”, explica ao idealista/news.
No entanto, “num mercado com baixos níveis de acessibilidade e forte escassez de oferta, é natural que o volume de transações possa vir a abrandar. Nesse caso, uma eventual redução da procura de crédito habitação estaria mais relacionada com as condições do próprio mercado residencial — preços elevados, menor capacidade de compra e falta de produto disponível — do que propriamente com medidas restritivas do lado da banca”, acrescenta ainda.
Como vão ficar os critérios de concessão de créditos habitação?
No início de 2026, foram sentidos ligeiros apertos dos critérios de concessão de crédito habitação para as famílias tanto na Europa, como em Portugal. “No segmento da habitação, as perspetivas do mercado da habitação, incluindo a expetativa de evolução de preços, contribuíram ligeiramente para critérios mais restritivos, embora sem impacto agregado”, explicou o regulador liderado por Álvaro Santos Pereira.
Para o segundo trimestre do ano, o BCE liderado por Christine Lagarde – que manteve os juros diretores inalterados esta quinta-feira, dia 30 de abril – revela que “os bancos esperam um aperto líquido generalizado e mais acentuado nos critérios de crédito (…) para empréstimos a famílias para aquisição de imóveis”.
Na visão de Gonçalo Nascimento Rodrigues, estes dados permitem concluir que existe, sobretudo, uma “expectativa de maior prudência” do lado da banca, que poderá estar relacionada com:
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Maior perceção de risco: os bancos ficaram mais cautelosos quanto ao enquadramento económico e ao risco dos mutuários. No crédito habitação, o BCE diz expressamente que as perceções de risco tiveram impacto restritivo nos critérios;
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Menor tolerância ao risco: os bancos estão menos disponíveis para assumir risco adicional, mesmo sem haver ainda uma deterioração material generalizada;
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Tensões geopolíticas e energia: o BCE refere que os bancos apontaram desenvolvimentos geopolíticos e energéticos como fatores de pressão restritiva, sobretudo no crédito às empresas, mas esse enquadramento também pode influenciar a prudência geral do setor bancário;
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Expectativa de custos de financiamento mais elevados: para o segundo trimestre de 2026, os bancos antecipam novo aperto, influenciado também por custos de financiamento mais elevados.
A verdade é que a guerra já se está a refletir em alta as taxas Euribor, com os mercados financeiros a anteciparem um aumento dos juros do BCE em junho para travar o potencial ciclo inflacionista gerado pela pressão dos preços da energia derivado da guerra. “Já estamos a ver os bancos a subir as suas taxas em comparação com o início do ano, e não descartamos novos ajustes em alta nas ofertas. As taxas Euribor continuam a subir, portanto, as revisões de créditos habitação nos próximos dois meses vão resultar em prestações mensais significativamente mais altas”, indica Miguel Cabrita, responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal.
Quanto às condições de oferta em Portugal, Gonçalo Nascimento Rodrigues também não espera “um aperto generalizado no mercado no curto prazo. A concorrência bancária continua relevante e tem ajudado a manter condições competitivas, sobretudo em spreads e campanhas comerciais. O que poderá existir é uma maior seletividade caso aumente o risco percecionado, nomeadamente nas taxas de esforço, estabilidade dos rendimentos, maturidades e avaliação dos imóveis”, antecipa o especialista em finanças imobiliárias.
Idealista News