Uma obra-prima de Camille Saint-Saëns
• Festival Terras sem Sombra apresenta em Ferreira do Alentejo O Carnaval dos Animais – Peça para Dois Pianos e Orquestra, de Camille Saint-Saëns, numa produção que junta excecionais músicos, teatro e comunidade local.
• Tarde de sábado, 18 de abril, com a atividade de Património – «Dos Pedreirinhos a São Pedro: Histórias da Vila de Ferreira do Alentejo» –, numa visita à memória tangível e intangível da sede de concelho.
• Manhã de domingo, 19 de abril, propõe uma viagem no tempo, guiada pela Paleontologia, até ao período em que o território do atual Baixo Alentejo era um imenso mar raso: «Ontem um Oceano, Hoje um Rio: Tubarões e Raias Fósseis na Bacia de Alvalade».
• Todas as atividades são de acesso livre e gratuito.
Em 1886, o compositor francês Camille Saint-Saëns apresentou, num círculo restrito de amigos, O Carnaval dos Animais, uma suíte para um ensemble que reúne 14 andamentos breves, cada um deles centrado numa figura do bestiário. A peça vai revelando uma sequência de situações musicais, do leão em marcha às tartarugas, onde um célebre cancan do compositor Jacques Offenbach surge desacelerado até ao limite. Impõe-se, nesta obra-prima, uma dimensão menos evidente: a de uma sátira subtil ao universo musical, visível nos pianistas reduzidos a exercícios mecânicos ou nos «fósseis», entendidos como um cemitério de músicas conhecidas.
O carácter universal desta suíte do célebre compositor – nascido em 1835, em Paris, e falecido em Argel, em 1941 – marca a produção que sobe ao palco a 18 de abril (21h30) num sítio invulgar, o Lagar do Marmelo, junto a Figueira dos Cavaleiros (Ferreira do Alentejo), em mais um fim-de-semana do Festival Terras sem Sombra (TSS). Um regresso do Festival Terras sem Sombra ao território ferreirense que conta com a parceria do Município local, da Embaixada do Reino da Bélgica e da Sovena. Destaca-se, ainda, o apoio sustentado da Direcção-Geral das Artes e do BPI-Fundação «La Caixa».
Um concerto a convocar a participação da comunidade local
Numa noite mágica, «O Carnaval dos Animais – Peça para Dois Pianos e Orquestra, de Camille Saint-Saëns» convoca uma dimensão cénica que envolve músicos experientes, crianças e jovens de diferentes origens e as suas famílias, também a comunidade sénior, assim como elementos da Universidade Popular, chamados a participar na construção e na fruição do espetáculo. A este quadro junta-se a singularidade do edifício onde decorre o concerto. Projetado pelo arquiteto português Ricardo Bak Gordon, o Lagar do Marmelo afirma-se como uma intervenção de grande clareza formal, onde a horizontalidade, o uso do betão e a relação com a luz estruturam um espaço pensado em continuidade com o olival envolvente.
O concerto conta com a direção musical da belga Eliane Reyes que, ao lado da portuguesa Luísa Tender, assume igualmente o piano. A formação congrega ainda Alexandra Mendes e Luís Santos (violinos), António José Pereira (viola), Irene Lima (violoncelo) e Adriano Aguiar (contrabaixo), aos quais se juntam Katharine Rawdon (flauta), Carlos Alves (clarinete) e André Dias (percussão), num conjunto que cruza experiência solística e trabalho de câmara.
Acresce que, nos últimos meses, crianças e jovens das escolas locais, com origens e histórias diversas, estudaram os animais e desenharam-nos, contribuindo para o universo visual do espetáculo; algumas participam em cena e dão corpo a essas figuras. Liga-os um território comum: o da música, onde as diferenças se esbatem. A presença em palco de executantes magistrais desta obra oitocentista e a participação do Grupo de Teatro Ritété – responsável pela narração do texto de Francis Blanche –completam um projeto singular, que reúne música, teatro e comunidade.
Descobrir o património material e imaterial de Ferreira do Alentejo
A anteceder a noite de grande música, a tarde de sábado, 18 de abril (15h00), convoca todos os interessados a participar na atividade de Património Cultural, intitulada «Dos Pedreirinhos a São Pedro: Histórias da Vila de Ferreira do Alentejo». Com ponto de encontro na igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Ferreira do Alentejo, a visita é orientada por Maria João Pina, historiadora e diretora do Museu Municipal de Ferreira; António Ramos, comerciante; Jorge Colaço, editor e tradutor; José António Falcão, historiador de arte e investigador do Centro de Estudos Globais da Universidade Aberta.
A atividade estrutura-se como um percurso que cruza memória rural, organização comunitária e transformação do território. O topónimo Pedreirinhos remete para um dos núcleos mais antigos da vila, ligado à extração de pedra e às primeiras formas de fixação populacional, enquanto a ermida de São Pedro surge como outro eixo fulcral da vida religiosa e social, complementar da presença da igreja matriz e das dinâmicas paroquiais que marcaram gerações. Nessa ermida conserva-se a imagem de Nossa Senhora que, segundo velha tradição, foi doada por um navegante, o fidalgo Cristóvão Estribeiro, que acompanhou Vasco da Gama no primeiro périplo à Índia. Entre estes dois pontos constrói-se uma narrativa feita de trabalho agrícola, circulação de pessoas e adaptação às mudanças económicas do Baixo Alentejo.
Um mergulho, guiado pela Paleontologia, num mar alentejano do Miocénico
O domingo, 19 de abril (9h30), propõe um olhar sobre o passado remoto. A ação dedicada à biodiversidade assenta no tema «Ontem um Oceano, Hoje um Rio: Tubarões e Raias Fósseis na Bacia de Alvalade». Com ponto de encontro, mais uma vez, na igreja de Nossa Senhora da Conceição, esta iniciativa corre a cargo de Ausenda Balbino Cáceres, paleontóloga e professora da Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade de Évora.
A «Bacia de Alvalade» conserva vestígios de um passado geológico em que a região esteve submersa por mares pouco profundos. Os sedimentos aí depositados, sobretudo do Miocénico (entre 23 e 5 milhões de anos), revelam a presença de uma fauna marinha diversificada, incluindo tubarões e raias cujos dentes fossilizados são hoje os testemunhos mais frequentes. Estes achados permitem reconstituir ambientes costeiros antigos e compreender a evolução das espécies ao longo de milhões de anos.
O TSS prossegue a sua programação a 2 e 3 de maio no concelho de Grândola com um concerto do ensemble vocal polaco Art’n’Voices: «Fragmentos do Eu: Oito Vozes, uma Alma».
Terras sem sombra