De 23 a 27 deste mês, o Auditório Municipal de Albufeira está inteiramente dedicado ao teatro, com múltiplas propostas. A par dos espetáculos, há também espaço para a poesia falada, uma pequena homenagem ao ator algarvio Rui Cabrita pelo poeta Luís Ene e o lançamento dos Prémios Vicente de Teatro.

Destaque para a “presença” de Bernard-Marie Koltés, com “A noite antes da floresta”, o espetáculo “Três Irmãs”, “Melhor espetáculo do ano 2016” pela TimeOut Lisboa e que valeu a Cátia Terrinca o Prémio de Melhor Atriz do Ano, “O Menino da Burra”, o clownish “O Milagre”, ainda um trabalho no feminino com “O Sal de Marim” e para os mais novos, “A galinha dos ovos coloridos” e “Os outros”. 

A abertura da 10ª edição do Festival T – Festival Internacional de Teatro de Albufeira, no próximo dia 23, quinta-feira, será com uma pequena homenagem a Rui Cabrita, ator com raízes familiares em S. Bartolomeu de Messines e falecido no dia 26 de dezembro. Ator e encenador, com um vasto trabalho em várias áreas ligadas ao teatro, Rui Serpa Cabrita nasceu a 29 de março de 1978 e chegou a colaborar em duas situações com a c:t:c – companhia de teatro contemporâneo, a organizadora deste festival, que data de 2006.

Ainda neste primeiro dia, o espetáculo tem por título “O Sal de Marim”, com encenação e texto de Luísa Monteiro e com as interpretações de Cátia Cassapo, Josefa Lima, Larisa Maria e Cheila Correia e técnica de Miguel Martinho, da c:t:c. Um trabalho que parte da contemporaneidade para relevar a figura de Felipa de Sousa, a tavirense que dá nome ao principal Prémio Internacional dos Direitos dos Homossexuais. Como pano de fundo, estão as sucessivas condenações das mulheres homossexuais desde o degredo de Marim, pelo Santo Ofício, passando pelas casas de correção, as casas de saúde mental onde a prática mais comum era a dos choques elétricos, até aos encarceramentos nas caves por parte das próprias famílias. O trabalho dramático resulta de pesquisas documentais e de testemunhos vivos de quem viveu essas realidades.

Na sexta-feira, dia 24, o destaque vai para a obra de Luís Campião, “O Menino da Burra” que neste trabalho também é o intérprete do monólogo e se faz acompanhar ao acordeão, ao vivo, por Samuel Pilar e conta com a técnica de Manuel Neiva. Na taberna d’ ‘O Menino da Burra’, o filho de um ex-combatente da guerra colonial convida o seu pretenso freguês para uma aguardente especial; uma aguardente ‘capaz de levantar os mortos’. A propósito da aguardente, a figura do taberneiro vai relatando episódios de vida do pai durante a sua passagem pela guerra. Num registo que procura resgatar para o palco a figura do contador de histórias, e baseado em alguns episódios reais, recolhidos através de entrevistas, ‘O Menino da Burra’ aborda o trauma de guerra e as consequências do stresse pós-traumático nas suas ‘novas vítimas’. 

O espectáculo das 21h30 é a cargo do Teatro Estúdio Fontenova e conta com o texto “A Noite antes da Floresta”, do dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès, um dos mais apreciados nomes do teatro do séc. XX. Com interpretação de Eduardo Dias e encenação de José Maria Dias, a peça de Bernard-Marie Koltés apresenta o encontro de dois seres que vagueiam na noite, estrangeiros e marginalizados. A “Noite Antes da Floresta” é uma descida aos infernos, é a voz de um imigrante de um marginal de um excluído. Não sabemos o seu nome, nem quem é, somente que está sozinho e que fala, fala sem parar. Um vigoroso grito de amor que se perde numa noite fria e chuvosa.

Imediatamente a seguir, irá decorrer a entrega dos Prémios Vicente de Teatro. Este Vicente, não é Gil Vicente, mas o Beato Vicente, nascido no castelo de Albufeira em 1590. Aos 14 anos de idade foi mandado para Lisboa estudar Artes, nomeadamente Caligrafia, Desenho, Oratória e Música. Começou a ser falado na Lisboa de 1612 não só por ser um jovem bem-parecido e sempre seguido por pessoas amigas das artes e do riso, mas também pelas suas capacidades naturais de liderança. Toca vários instrumentos, canta e compõe, desenha com mestria, é desenvolto com as línguas estrangeiras e ainda se divertia na arte da esgrima. Fazia das ruas o seu palco privilegiado. Mais tarde cursa Medicina, interessa-se pelo mundo da edição e com isso acaba rendido à Teologia, no Convento da Graça, da Ordem de Santo Agostinho. Em 1617, já com 27 anos, é ordenado padre e fez-se ao mundo Foi um dos mártires de Nagasaki, onde para além de ser um líder do povo japonês, também se dedicava a costurar quimonos para as meninas desfavorecidas das aldeias. Nesta 1ª edição do Prémio Vicente de Teatro serão distinguidos, em diversas categorias, os actores locais que passaram ao longo destes 10 anos pelo Festival T, assim como alguns organismos afectos a este encontro. No futuro, o Prémio Vicente de Teatro irá distinguir actores, encenadores e dramaturgos do Algarve. A peça é da autoria da artista plástica Paula Elvas e é feita a partir de um mármore raro da Bélgica.

O domingo, dia 26, começa às 11h00 com “A Galinha dos Ovos Coloridos”, um espectáculo para maiores de 3 anos e que promete arrancar gargalhadas aos mais novos, com a assinatura de Tânia Silva e Igor Arrais, do grupo Fera Cultural. De seguida, a performance Os Outros é também para o público mais jovem e sobe ao palco pela mão da encenadora Maria Marques, com interpretações de Anaísa Neves, Beatriz Santinho, Bianca Goulart, Carolina Santinho e Nicoleta Janau, alunas do 8ºano da escola Professora Diamantina Negrão - Agrupamento de Ferreiras.

Ainda no domingo, há duas sessões do espectáculo “Três Irmãs”, partir de textos de Luísa Monteiro, Valério Romão e Rui Pina Coelho, que se inspiraram na obra homónima de Anton Tchekov. Esta produção da UmColetivo foi o vencedor do “Melhor Espetáculo do Ano” pela TimeOut/Lisboa e a actriz que interpreta as três personagens (Irina, Macha e Olga), Cátia Terrinca, considerada “A Melhor Actriz do Ano”. As sessões são às 17h00 e às 21h00, pois cada espectáculo comporta apenas 40 espectadores, os quais serão conduzidos para a cave de estacionamento automóvel contíguo ao Auditório, percorrerão as zonas de saída de emergência até ao palco e daqui assistirão ao último monólogo no foyer.

Na segunda-feira, Dia Mundial do Teatro, o espectáculo intitula-se “O Milagre” e é assinado por Luísa Monteiro, com interpretações de José Sousa, João Sousa, Inês Colaço e Roberto Leandro e técnica de Miguel Martinho. Um espectáculo sem palavras, construído a partir de didascálias e que trata da vida de três pastorinhos que se entediam com o tempo passado entre as ovelhas. Sobre este trabalho, diz Luísa Monteiro: “O chamado ‘milagre’ ocorrido em 1917, seduz-me pelo que contém de Maravilhoso. Os portugueses são extraordinários criadores de mitos! O que fizeram às crianças, é a outra face da história. Imagino regularmente o que seria uma infância entre a aridez daqueles montes. Mas a infância é criadora de encantamentos, vive da brincadeira, tem riso dentro do silêncio, estrelas e uivos na imaginação. Creio no riso como a face mais visível e concreta de Deus. […] é um resgate do espectro dessas infâncias, do riso póstumo.“ Será às 21h30 e neste dia, a entrada é livre. 

 

Por: CM Albufeira