- Esta é a igreja do António. Nasceu aqui em 1195. - O homem de cabelo crespo alargava o gesto. - Estudou ali na Sé até aos quinze anos e passou sete em Santa Cruz de Coimbra, onde foi ordenado sacerdote.
- Mas ele não era franciscano? - estranhava o idoso de cabelo ralo e barba esbranquiçada.
- Só mudou quando viu chegar de Marrocos os corpos martirizados de cinco franciscanos.
O duo começou a descer a Rua das Cruzes da Sé, enquanto a tarde caía e lhes iam chegando cheiros de manjerico e sardinhas assadas.
- Rumou também ele a Marrocos, mas adoeceu e acabou por ir parar a Itália. Então, o próprio Francisco de Assis o nomeou para ensinar Teologia em Bolonha. E esteve no sul de França, onde ganhou fama a converter heréticos.
- O António era um orador notável - conseguia São Pedro evocar. - No fim da vida tinha multidões a ouvi-lo. É o santo mais depressa canonizado: menos de um ano depois da morte.
Já havia muita gente nas ruas, mas ainda se andava bem. Chegaram a um pequeno largo onde estavam montadas duas esplanadas. São João olhou a procurar mesa e fez um sinal a São Pedro. Instalaram-se, pediram caldo verde, sardinhas e vinho tinto. São Pedro mostrava-se impressionado com o fluxo de gentes.
- E ainda não viste nada! Nesta noite, há arraiais e bailaricos em todos os bairros e faz-se uma competição de danças ao som de marchas. Há muito a que comparecer. Foi por isto que ele se despediu de nós tão cedo. E há também uma cerimónia em que casam, ao mesmo tempo, dezenas de pares de noivos, porque o António ganhou fama de casamenteiro. As solteiras fazem-lhe promessas, se o António lhes arranjar noivo. Quando isso não acontece é que é o diabo! Algumas vingam-se e viram-no de cabeça para baixo ou roubam-lhe o Menino. - São João não se continha e ria, divertido, a imaginar a cara de enfado de Santo António quando lhe acontecia tal percalço. - Os pedidos são tantos e, às vezes, tão difíceis de atender, que nem com milagres!
São Pedro, em dificuldades para comer as sardinhas sem meter as mangas no prato, acompanhava-o no riso em notas mais graves. Uma aparelhagem começou a tocar música popular e era difícil ouvirem-se.
Acabada a refeição, tentaram afastar-se da enchente de povo que enchia as ruas. A progressão era difícil, as roupas enredavam-se nas outras pessoas, levavam empurrões e as sandálias não os protegiam das pisadelas. São Pedro perdia a paciência. São João agarrou-o, gentil, mas firmemente, e disse-lhe muito sério:
- Pedro, já passámos por coisas piores, se ainda te lembras!
Com calma, conseguiram sair do bairro. São João acompanhou São Pedro ao aeroporto, de táxi. Abraçaram-se:
- Dá cumprimentos ao Leão! Diz-lhe que vou a Roma visitá-lo assim que acabarem as festas por aqui.
Depois, foi apanhar o Intercidades à estação do Oriente. Queria assistir aos preparativos das festas no Porto em sua honra.


