Nessa medida, o padre Carlos Cabecinhas quis deixar claro que, para além de se solicitar a sua intercessão, Maria deve ser imitada. “Maria é aquela a quem devemos imitar, e na medida em que a imitamos, fazemos triunfar o seu Imaculado Coração”, evidenciou.
O sacerdote foi na passada terça-feira ao Mosteiro de Nossa Senhora Rainha do Mundo do Carmelo algarvio, no Patacão (concelho de Faro), apresentar precisamente uma reflexão sobre o tema “A Realeza de Maria Santíssima e o Triunfo do Coração Imaculado”. A conferência inseriu-se no programa celebrativo do 50.º aniversário da fundação daquele Carmelo algarvio, um ciclo comemorativo iniciado em julho transato e que se estenderá até ao próximo dia 16 de julho.
Lembrando que “uma das afirmações mais citadas da segunda parte do segredo” das aparições de Fátima é precisamente a que inspirou o título da sua reflexão – “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará” –, o orador quis, desde logo, clarificar o sentido deste triunfalismo, realçando que “Maria não triunfa como triunfam os reis ou os países nas guerras e nas disputas uns com os outros”. “Triunfa sem derrotar, sem impor, sem dominar. Triunfa ao jeito da Cruz, que é o triunfo de Cristo”, sustentou.
Citando o Papa Bento XIV, na altura ainda cardeal Joseph Ratzinger, o conferencista explicou que aquele triunfo “significa que este coração aberto a Deus, purificado pela contemplação de Deus, é mais forte que as pistolas ou outras armas de qualquer espécie” e “significa acolher a promessa de Jesus: «Tende confiança, Eu venci o mundo»”.
Realçando que “a revelação do Imaculado Coração de Maria é a alma da mensagem de Fátima”, o reitor do santuário mariano disse que o Papa Pio XII “une o Imaculado Coração de Maria à invocação de Maria como Rainha”. O padre Carlos Cabecinhas recordou que aquele pontífice fez, em 1942, a “consagração ao Imaculado Coração de Maria, da Igreja e de todo o mundo”, mas acrescentou ter sido o Papa João Paulo II, em 25 de março de 1984, a “cumprir fielmente este pedido de Nossa Senhora”.
Explicando ainda como é que nas aparições de Fátima “se revela o Coração da Rainha do Mundo”, o reitor do santuário da Cova da Iria lembrou que, em 1916, “em cada uma das três aparições do Anjo” “faz-se sempre referência ao Coração de Maria e ao Coração de Jesus”, mas deixou clara a centralidade deste último, reforçada até na geometria arquitetónica do santuário. “No centro do Santuário não está a imagem de Nossa Senhora, está o monumento ao Sagrado Coração de Jesus. Sabemos que o altar na Igreja é símbolo de Cristo. No Santuário de Fátima temos num exato eixo o altar da basílica de Nossa Senhora do Rosário, o altar do recinto, o monumento ao Sagrado Coração de Jesus e o altar da Santíssima Trindade. É uma linha exata, é o eixo que define todo o atravessamento do Santuário. Isto é: o centro, o eixo é Jesus Cristo, não é Maria, mesmo num santuário mariano. E é significativo que a Capelinha das Aparições esteja precisamente ao lado do monumento ao Sagrado Coração de Jesus. Maria aponta para Jesus. Os dois corações são inseparáveis, mas o coração da Mãe aponta permanentemente para o coração do Filho”, indicou.
O padre Carlos Cabecinhas recordou que “Jacinta tem e expressa este imenso amor ao Imaculado Coração de Maria” e que Lúcia “relata ter recebido” de Nossa Senhora a “missão especial” “de difundir a devoção ao Imaculado Coração de Maria”, querida pelo filho Jesus, cuja representação ficou fixada na visão de “um coração cercado de espinhos que pareciam estar encravados”. “Isto é importante quando quisermos falar do triunfo do Imaculado Coração, porque é o triunfo de um coração cravado de espinhos. Portanto, aqui não há triunfalismo que resista”, observou, lembrando que toda a vida de Lúcia “vai ficar marcada por esta missão de difundir a devoção ao Imaculado Coração de Maria”. “É bem visível a crescente intimidade com Maria, que a leva a fazer a experiência de viver no seu Imaculado Coração e de lhe oferecer o seu coração”, reforçou.
O sacerdote explicou ainda que, tal como o triunfo do Coração Imaculado de Maria não é comparável ao “triunfo entendido de forma humana”, também a sua realeza “não se confunde com a das famílias reais”. “Não chamamos a Nossa Senhora rainha no sentido em que falamos de reis e rainhas que conhecemos”, esclareceu, acrescentando que “Maria foi exaltada como rainha precisamente por ser a humilde serva do Senhor”. “Ela é modelo de humildade”, frisou, ressalvando que “a realeza de Maria tem de se entender à luz dos ensinamentos de Jesus sobre o primado do amor e do serviço”. “Ela é rainha porque ama e porque serve”, justificou.
O padre Carlos Cabecinhas fundamentou ainda que a atribuição do título de rainha a Maria “é antiquíssima”, pois “aparece nos textos cristãos, sobretudo a partir do Concílio de Éfeso, em 431”, e ter sido a encíclica do Papa Pio XII Ad Caeli Reginam (A Rainha do Mundo), de 1954, que instituiu a Festa de Nossa Senhora Rainha no dia 31 de maio e que hoje se celebra a 22 de agosto (antes Festa do Imaculado Coração de Maria), na oitava da celebração da Assunção. “Isto é: chamamos rainha a Maria porque ela foi glorificada, está no céu e, por isso, a reconhecemos como nossa rainha”, referiu.
O conferencista enumerou ainda os fundamentos para a atribuição do título real a Nossa Senhora. “O Papa Pio XII indicava dois, depois documentos posteriores indicam outros dois. O primeiro fundamento é o facto de ela ser a mãe de Jesus Cristo, o Rei e Senhor do Universo. Chamamo-la Rainha porque ela é a Mãe do Rei; um outro fundamento indicado pelo Papa Pio XII é a sua cooperação na obra da salvação. Ela é rainha porque coopera com Jesus Cristo, porque colabora na salvação que Ele nos quer oferecer”, começou por referir.
Àquelas duas razões juntou as restantes duas. “Chamamos a Nossa Senhora rainha porque ela foi discípula de Cristo”, acrescentou, lembrando ser esta “condição que lhe dá a dignidade real”. “Um quarto fundamento é o lugar especialíssimo, supereminente, que Maria tem na Igreja, quer pela sua missão, quer pela sua santidade”, aditou.
Folha do Domingo




