Regulador europeu quer travar inflação na zona euro, que está acima de 3%. Já economia europeia mantém-se resiliente.

Os preços da energia continuam a escalar perante o agravamento do conflito no Médio Oriente, afastando ainda mais a inflação na zona euro da meta de 2%. É neste contexto que o Banco Central Europeu (BCE) volta a subir as suas taxas de juro diretoras em 25 pontos base na reunião de política monetária desta quinta-feira (dia 10 de setembro), confirmando as projeções dos analistas. A principal taxa de referência passa, assim, para 2,5% situando-se no limite superior da zona neutra. Novas subidas dos juros do BCE este ano dependerão da evolução da guerra.

Esta é a segunda vez que o BCE sobe os juros diretores para travar a inflação desde que arrancou o conflito que opõe os EUA e Israel ao Irão, o que tem causado graves perturbações na circulação no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo e gás natural do mundo. O primeiro aumento neste ciclo foi decido em junho (de 25 pontos), tendo-se seguido uma manutenção das taxas na reunião de julho, perante a incerteza sobre o futuro do conflito e os seus efeitos sobre a inflação.

Com este novo aperto da política monetária do BCE decidido esta quinta-feira (dia 10 de setembro), as taxas diretoras ficam nos seguintes patamares, pelo menos, até dia 29 de outubro de 2026, data da próxima reunião: 

  • Taxa aplicada à facilidade permanente de depósitos sobe de 2,25% para 2,5%. Esta taxa, que é a principal referência do regulador, fica no limite superior da zona neutra, a qual nem estimula nem restringe a economia;
  • Taxa de juro das principais operações de refinanciamento cresce de 2,4% para 2,65%;
  • Taxa aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez aumenta para 2,9%.

“O BCE manteve o roteiro previsto, elevando as taxas de juro diretoras, sendo esta a única via possível para tentar controlar a inflação na zona euro, que parece estar mais alta e persistente do que o esperado”, comenta Miguel Cabrita, responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal.

 

Preços da energia pressionam inflação na zona euro – economia surpreende

Esta já era uma decisão amplamente esperada pelos analistas de mercado e antecipada pelos membros do BCE. A própria presidente do regulador europeu, Christine Lagarde, adiantou no final da reunião de julho que o BCE teria dados novos para tomar a decisão sobre as taxas diretoras em setembro e que, por isso, seria possível que decidisse aumentá-las.

No final de agosto, Isabel Schnabel, membro da Comissão Executiva do BCE, também alertou que com a taxa de juro na altura (de 2,25%) era “improvável” a inflação regressar ao objetivo de médio prazo de 2%, pelo que era “necessário um maior aperto da política monetária”, adiantou à Bloomberg.

Também Joachim Nagel, presidente do Bundesbank alemão e membro do conselho de governadores, já havia admitido um agravamento dos juros diretores. “Os mercados têm uma ideia bastante clara de como vamos provavelmente responder neste momento”, disse numa entrevista ao “Le Monde” publicada no início do mês.

Para o diretor global de macroeconomia da ING Research, Carsten Brzeski, esta decisão de aumento de juros do BCE terá sido por “precaução”. “Com os preços do petróleo ainda elevados e o risco de uma nova subida drástica do preço do gás a aumentar, a maioria dos responsáveis da política monetária do BCE deverá ter tido dificuldades em não ver motivos suficientes para mais um aumento das taxas”, acrescentou citado pela Europa Press.

 

Afinal, a inflação na zona euro está estimada em 3,3% para agosto, refletindo um aumento face a julho (quando se fixou em 2,9%), de acordo com o Eurostat, estando cada vez mais longe da meta do BCE. A principal pressão sobre os preços veio da energia, cujos preços deverão ter acelerado para 14,3% em agosto, contra 10,3% em julho.

O petróleo Brent, a referência europeia, ultrapassou os 100 dólares por barril esta semana, pela primeira vez desde julho, devido ao receio de novas perturbações no fornecimento mundial após ataques a petroleiros e instalações petrolíferas no Golfo Pérsico, a par de uma maior procura de petróleo por parte da China. “O trânsito por Ormuz ainda está longe de se normalizar e as vagas de calor na Europa também pressionam a procura de gás”, alerta o banco BPI numa análise recente.

Ainda assim, a taxa de inflação subjacente na zona euro – que exclui os preços da energia e dos alimentos – mantém-se estável (2,1% em agosto), mas receia-se que os custos da energia elevados durante muito tempo acabem por afetar os preços dos outros bens e serviços.

 

O que tem descansado o “guardião do euro” é que a economia europeia continua resiliente, apesar de toda incerteza nos mercados globais. O crescimento do PIB da zona euro no segundo trimestre foi revisto em alta para 1,2% e o da União Europeia (UE) para 1,4%, de acordo com o Eurostat. 

“A economia continua mais forte do que o esperado e os dados que têm sido divulgados têm surpreendido repetidamente pela positiva”, sublinhou Isabel Schnabel no mesmo meio. Importa lembrar que embora a subida dos juros do BCE ajude a travar a inflação na zona euro, tem um efeito de segunda ordem sobre a economia, travando o consumo, bem como o investimento público e privado.

BCE voltará subir juros até ao final de 2026? Não há consenso

Uma vez mais, o Conselho do BCE não se compromete com “uma trajetória de taxa específica”, reforçando que as decisões de política monetária são tomadas reunião em reunião tendo em conta novos dados macroeconómicos. Ainda assim, há quem já antecipe mais um aumento dos juros do BCE até ao final de 2026, elevando a taxa de referência além do limite neutro.

O BPI alerta que “os mercados preveem um outro aumento antes do final do ano (taxa dos depósitos ficaria em 2,75%) e até a possibilidade de a mesma alcançar 3% em 2027”. Também Michael Krautzberger, diretor de investimento global de Mercados Públicos da Allianz Global Investors, acredita que "é provável que haja outro aumento de 25 pontos base em dezembro”.

Esta hipótese é igualmente levantada por Miguel Cabrita. “Resta saber se a inflação conseguirá moderar-se ou se, pelo contrário, as pressões relacionadas com a energia e as cadeias de abastecimento vão continuar a pesar mais do que a estagnação económica das grandes potências europeias. Esse cenário poderia levar a novas subidas das taxas do BCE nos próximos meses, o que seriam más notícias para os consumidores”, avança o responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal.

Já do lado da Ebury, o analista Roman Ziruk acredita que esta será a última vez que o BCE vai mexer nas taxas diretoras este ano. “Atualmente, os mercados estão a antecipar outra subida em dezembro e uma nova em março. Julgamos que é muito agressivo. O economista-chefe do BCE, Philip Lane, apontou para 2,5% como o limite superior da zona neutra, por isso um aperto acima do deste mês empurraria a política para terreno restritivo”, refere a previsão da Ebury, assinalando que setembro deverá marcar a última subida neste ciclo, ainda que “claro, muito dependa da evolução da guerra no Irão”.

Também o diretor global de macroeconomia da ING Research acredita que a ir além dos 2,5% seria “atirar mais lenha para a fogueira” num cenário de problemas para as finanças públicas e com o aumento dos juros da dívida. Daí, Carsten Brzeski dizer ser “difícil imaginar que o BCE esteja disposto a arriscar uma recessão para fazer face ao que continua a ser um caso típico de crise de oferta”.

Os analistas do Bankinter também não prevê novas alterações nas taxas diretoras nas duas reuniões do BCE agendadas para este ano ( em outubro e dezembro). Atualmente, defendem que o cenário mais provável é que a autoridade monetária mantenha as taxas inalteradas por alguns meses para monitorizar a evolução dos acontecimentos geopolíticos, os preços da energia e a inflação.

As próximas reuniões do BCE

O Conselho do BCE reúne-se aproximadamente de seis em seis semanas. Este é o calendário das próximas reuniões de política monetária do guardião do euro, nas quais vai anunciar as suas decisões sobre as taxas de juro diretoras:

  • 29 de outubro de 2026
  • 17 de dezembro de 2026
  • 4 de fevereiro de 2027
  • 18 de março de 2027
  • 29 de abril de 2027
  • 10 de junho de 2027
  • 22 de julho de 2027

 

*Com Lusa

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