A democracia não se perde num colapso repentino. Ela desgasta-se em silêncio — quando a política deixa de ouvir, quando os partidos se fecham sobre si próprios e quando os cidadãos passam a ser apenas espectadores do seu próprio destino. O afastamento cívico não é obra do acaso: é consequência. O afastamento cívico não nasceu das pessoas: nasceu da política que deixou de ser convincente
Durante anos, os partidos políticos — todos — tomaram decisões como se a legitimidade eleitoral fosse suficiente para o resto do mandato. Convocam os cidadãos para a fotografia, mas raramente lhes entregam poder real. O resultado está à vista: abstenção recorde, descrédito profundo, e uma frase que já se tornou demasiado comum — “não vale a pena”. Não vale a pena porquê?
Porque a política desistiu primeiro das pessoas.
Quando as decisões estão fechadas antes de qualquer consulta pública; quando a discussão é ritual e não substantiva; quando o cidadão sente que não passa de figurante de uma peça escrita noutro lugar — ele afasta-se. E onde a democracia encolhe, os extremismos avançam. Não surgem do ar. Nascem do vazio que deixámos criar.
Discursos de zanga e de fácil indignação ganham espaço onde a política moderada deixou de ser convincente. Promessas simples ganham adeptos onde as soluções complexas deixam de ser explicadas. E, enquanto isso, os partidos tradicionais perguntam-se: “Como foi que chegámos aqui?” Talvez devêssemos começar por perguntar-nos outra coisa:
O que fizemos para impedir que aqui chegássemos?
Porque a culpa não é de quem protesta — é de quem não escutou. E escutar não é redigir atas e discursos bonitos. Escutar é ceder espaço de decisão.
Precisamos de devolver ao cidadão o direito fundamental de influenciar o rumo da sua comunidade. Não com caixas de sugestões ou orçamentos participativos decorativos. Isso significa consultas públicas vinculativas, transparência total sobre decisões e contratos, prestação de contas contínua, debate público qualificado, inclusão da juventude nos espaços de decisão e fiscalização cívica independente. Democracia é participação — não mera decoração.
Se queremos combater extremismos, não basta condená-los. É preciso retirar-lhes o combustível: a frustração democrática.
Dizia o Padre António Vieira — e vale a pena lembrar — que o problema nunca é o sal: é a terra que não se quer deixar salgar. “Será porque o sal não salga, ou porque a terra não se deixa salgar?”
Talvez a política tenha perdido a capacidade de “salgar” a Democracia — de a vitalizar, de a tornar relevante. Talvez falemos tanto que já não escutamos. Talvez esperemos aplausos onde devíamos esperar participação. Talvez a democracia esteja a perder sabor porque o sal — os cidadãos — foi afastado da mesa. Ou porque a terra — os partidos — já não se deixam transformar.
A participação é a única vacina comprovada contra a degeneração democrática. E governar, no século XXI, significa abrir o poder — e não capturá-lo.
Que cada partido assuma o essencial: se queremos cidadãos democráticos, temos de lhes dar democracia. Se queremos confiança, temos de prestar contas. Se queremos moderação, temos de mostrar que ela serve para algo.
Participar também é governar. E governar também é ouvir — sempre — quem mais importa. Cabe-nos a nós, representantes eleitos, liderar essa reconciliação. Com humildade. Com verdade. Com coragem.
Porque ninguém governa sozinho. E onde a política não escuta, os extremos falam mais alto.




